O que acontece é que eu me lembro, sim, daquele sonho. O sonho, sobre o qual, não pude falar e jamais poderia se ainda assim fosse.
Não sei se há coisa mais difícil, para mim, do que não poder fazer alguma coisa.
Como me disseram, outro dia, "você é o pesadelo de qualquer chefe". E eu, claro, tive de concordar. E talvez tenha demorado demais para perceber isso, porém, quando o fiz, logo tratei de resolver. Dei um jeito de não ter mais chefe, e por ironia do destino, resolvi ser chefe.
Não funcionou. Outra dessas peças que a vida prega na gente, ora, pois. E é por causa disso e simplesmente disso que hoje sigo só.
Em quase todo e qualquer setor.
Chovia.
Porém não era uma chuva qualquer. Era uma chuva torrencial com ventos fortes, fazendo todo o fundo da minha visão ficar cinza, misturado com um um amarronzado de poeira quase como um tufão.
E eu andava. buscava abrigo, por uma estrada cercada de um descampado aberto, onde nada se via a um palmo. Hoje pensando, como um filme, quase ouço a trilha da cena. Que naturalmente não havia.
Até que encontrei esse casarão. Uma casa grande de madeira, dessas feito cabanas porém bem, bem maiores. Janelas de vidro todas sujas da poeira, e as tábuas de uma cor marrom mais escuro que a poeira da cena. Eu vi a casa, procurei sua porta, e entrei. Era um corredor estreito e escuro, bem curto, como se formasse um L para a direita. Quando cheguei na aresta, percebi que havia dois degraus no assoalho e os desci. Segui pelo corredor. Certa claridade agora entrava pelas portas dos cômodos da casa, todas abertas, recebendo feixes de luz pelas janelas.
Então mais uma aresta em L e uma curva para esquerda. mais dois degraus abaixo. Desci e, quando vi, cheguei em algo como uma intersecção de corredores dentro da casa. Três corredores, o meu e mais dois, davam para um pequeno hall, todos a mais dois degraus abaixo, e uma porta no centro. Uma porta dupla, dessas antigas de madeira, com apenas um dos lados aberto.
Podia ouvir o "toc, toc" dos meus passos e então, ao chegar na porta, lá estava ela. Encostada meio escorada em um dos braços, cabeça não tão ereta e nariz não tão empinado como de costume, e os cabelos, sim, ondulados, castanhos, longos e lindos - isso, sim - como sempre.
Cheguei bem perto de sua cintura fina e, ainda que estivesse um degrau acima, não era problema para um cara grande como eu. Não deu tempo de olhar em seus olhos, e logo já senti seus braços envolvendo meu pescoço como o abraço longo e apertado que sempre demos. Como pode o tempo sempre ter parado em momentos assim?
Nos abraçamos por tempo suficiente pra eu me lembrar daquela ligação forte e estranha, misteriosa, beirando o esquisito. Então nossas pernas, ainda em pé, se enroscaram e meu pescoço repousou sobre seu ombro, formando um abraço completo, perfeito, profundo e até um tanto dolorido. Saudade. Um amor que nunca foi muito bem explicado, o que se há de fazer?
Até que nos beijamos também do jeito que fizemos lá atrás, na primeira vez. Minhas mãos em seu cabelos levemente os puxando para baixo, e um beijo apertado daqueles de faltar o ar, unido ao abraço forte e aos corpos se mexendo tão naturalmente. Em pé, ali, na porta, com aquela tempestade lá fora.
Afinal, a chuva sempre esteve ao redor.
Acordei tão impressionado, uma vez que não via a imagem dela já tinha alguns anos. Nem pessoalmente, menos ainda em sonho. Não faço ideia do que pode ter acontecido com meu subconsciente, só sei que a única coisa na qual pensei ao abrir os olhos, foi contar a ela que esteve aqui.
Fiz, e a sua resposta me deixou ainda mais feliz. Já o que aconteceu depois, só o tempo dirá a importância.
No final, estamos todos vivos, e a vida voltou ao normal. E mesmo com um abraço e um beijo, desta vez reais, aqui, outros ali, novamente não nos vemos e talvez nem mesmo nos veremos nunca mais. E que este sonho, nunca mais, secreto, seja.