sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Flamboyant

Essa obra que sempre falou tanto e, por alguma razão, nunca passou por aqui


Por quantas noites eu me vi desencantar
Enquanto os palcos desabavam sobre mim
O meu amor então beijava o meu olhar
Dizia:"Vamos lá! Levanta e vai cantar!"

E eu me vestia e ela ia amamentar
Nosso menino era platéia e camarim
E dos seus seios parecia perguntar:
"Meu pai, o que é que há?
Me beija e vai cantar"

E eu sabia que tinha de ir
Pra amenizar toda a dor da cidade
E eu pousava nos pianos por aí
Tal qual um sabiá pousa num flamboyant

Por quantas vezes eu pedi a Deus de manhã
Deixar eu cantar pro Brasil
Abrir o portão, o leite e o pão
E o rabo do cão que diz não quando é sim
Meu amor já na porta de casa
Tendo ao colo o nosso Arlequim
Me dava a impressão de um samba de Tom Jobim

Até que um dia eu resolvi desencantar
E desabei por sobre os palcos do país
O meu amor ainda beija o meu olhar
E eu digo:"Vamos lá! Cantar pra quem chorar"

E eu peço a Deus para poder doar a luz
Que minha voz cumpra a missão de atenuar
Toda a armagura dessa terra de Jesus
E eu digo:"Vera Cruz, canta pra não chorar!"

E pros que cantam nos teus cabarés
Tenham orgulho desta profissão
Pousem nos galhos dos pianos, violões
E a voz é um colibri, nas flores das canções

E todo dia eu peço a Deus pela manhã:
"Conserve-me a simplicidade
Pra ter no portão o leite e o pão
O rabo do cão que diz não quando é sim"
Meu amor está na porta de casa
E o sorriso do meu Arlequim
E um céu de emoções e eu sou uma luz assim
A brilhar, a brilhar, a brilhar
Meu amor sempre à porta de casa
E o sorriso do meu Arlequim
Sou um samba-canção eterno de Tom Jobim
A cantar, a cantar, a cantar

domingo, 27 de setembro de 2020

Advice, like youth, probably just wasted on the young

por Mary Schmich, só para eu poder relembrar sempre que precisar

Wear sunscreen.

If I could offer you only one tip for the future, sunscreen would be it. The long-term benefits of sunscreen have been proved by scientists, whereas the rest of my advice has no basis more reliable than my own meandering experience. I will dispense this advice now.

Enjoy the power and beauty of your youth. Oh, never mind. You will not understand the power and beauty of your youth until they've faded. But trust me, in 20 years, you'll look back at photos of yourself and recall in a way you can't grasp now how much possibility lay before you and how fabulous you really looked. You are not as fat as you imagine.

Don't worry about the future. Or worry, but know that worrying is as effective as trying to solve an algebra equation by chewing bubble gum. The real troubles in your life are apt to be things that never crossed your worried mind, the kind that blindside you at 4 p.m. on some idle Tuesday.

Do one thing every day that scares you.

Sing.

Don't be reckless with other people's hearts. Don't put up with people who are reckless with yours.

Floss.

Don't waste your time on jealousy. Sometimes you're ahead, sometimes you're behind. The race is long and, in the end, it's only with yourself.

Remember compliments you receive. Forget the insults. If you succeed in doing this, tell me how.

Keep your old love letters. Throw away your old bank statements.

Stretch.

Don't feel guilty if you don't know what you want to do with your life. The most interesting people I know didn't know at 22 what they wanted to do with their lives. Some of the most interesting 40-year-olds I know still don't.

Get plenty of calcium. Be kind to your knees. You'll miss them when they're gone.

Maybe you'll marry, maybe you won't. Maybe you'll have children, maybe you won't. Maybe you'll divorce at 40, maybe you'll dance the funky chicken on your 75th wedding anniversary. Whatever you do, don't congratulate yourself too much, or berate yourself either. 

Your choices are half chance. So are everybody else's.

Enjoy your body. Use it every way you can. Don't be afraid of it or of what other people think of it. It's the greatest instrument you'll ever own.

Dance, even if you have nowhere to do it but your living room.

Read the directions, even if you don't follow them.

Do not read beauty magazines. They will only make you feel ugly.

Get to know your parents. You never know when they'll be gone for good. Be nice to your siblings. They're your best link to your past and the people most likely to stick with you in the future.

Understand that friends come and go, but with a precious few you should hold on. 

Work hard to bridge the gaps in geography and lifestyle, because the older you get, the more you need the people who knew you when you were young.

Live in New York City once, but leave before it makes you hard. Live in Northern California once, but leave before it makes you soft. 

Travel.

Accept certain inalienable truths: Prices will rise. Politicians will philander. You, too, will get old. And when you do, you'll fantasize that when you were young, prices were reasonable, politicians were noble and children respected their elders.

Respect your elders.

Don't expect anyone else to support you. Maybe you have a trust fund. Maybe you'll have a wealthy spouse. But you never know when either one might run out.

Don't mess too much with your hair or by the time you're 40 it will look 85.

Be careful whose advice you buy, but be patient with those who supply it. Advice is a form of nostalgia. Dispensing it is a way of fishing the past from the disposal, wiping it off, painting over the ugly parts and recycling it for more than it's worth.

But trust me on the sunscreen.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Tatuagem

É, parece que sim.
Parece que assim
como tatuagem
o amor vicia. 

A dor vicia.

E o que será
no meio disso tudo
que dói mais?
Qual será a agulha?
A mais fina?
Aquela tripla, de pintar?
Ou a do seu olhar
nos levando 
pra uma outra 
dimensão?

Qual será a agulha
que dói mais?

Parece que
do mesmo jeito
que a gente volta
se tatuar
porque gosta da sensação
da dor
do som gostoso 
que faz
a máquina.

A gente volta, 
e tira a roupa
e a pele nua
é penetrada
rasgada,
perfurada.

A gente volta
porque gosta da sensação
da dor
do som gostoso 
que faz
aquela voz.

Deve haver 
alguma boa
explicação,
uma razão
um porquê,
da gente abrir 
nosso corpo
estender
entregue à mesa
e olhar nos olhos
da pessoa que
em breve vai
nos causar 
tanta dor.

E a gente ainda paga, 
veja só!

Paga caro.

Custa caro,
e com razão.
Porque é pra sempre.
Pra sempre 
vai estar ali
com a gente.

Feito tatuagem.

Porque o amor,
pelo que parece,
vicia.
Como tatuagem.

E parece que sim
parece que assim,
como tatuagem
- quem tem amor,
e quem tem tatuagem
sabe... -
a dor 
também passa.




sábado, 22 de agosto de 2020

Ême

Muito menos medo
Movimentos mágicos
Maratona, milhas
Místico, mas, merecemos
Mera madrugada
Meretrizes, menestréis
Maravilhosos mundos
Mastro macio, 
Mando, mexo
Muda muito, muito 
Mesmo
Me mede, maravilhada
Monumental
Mama, monta
Marca, machuca
Morde, mancha, 
Mantenho
Maltrato
Mutilo
Manejo
Me mato
Mutuamente
Morremos.






quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O jardim do rei

O sol brilhava 
Tão bonito
O céu azul
E aquela gente
Toda ali 

Via no fundo
A arquitetura
E aqueles prédios
Tão bonitos, também
Dos jardins
Que eram do rei
E da rainha
E meus, e seus

Então chegou
Perto de mim
Papai, mamãe
Filha e bebê
E me deram
Uma folha
Dessas grandes
Amarelas
Toda seca
Bem, bem bonita

Agradeci
Sorri, acenei
Guardei ao lado
Olhei a frente

E a vi também
Já que 
Em todo sonho
Que é do bom
Aquela boca
E os olhos grandes
Aparecem
Por que será?

Pensei depois.

Os meus amigos
Então, os mesmos
Só me olhavam
E sorriam
Como sempre

Balançamos a cabeça
Confiantes, invencíveis
E voltamos para eles
Que cantavam
Que sorriam
Era lindo
E era calmo

Dava pra ver
A alegria de viver
E de cantar
Dançar, sorrir
A alegria
De estar ali
Simplesmente
Por estar
Ali


sábado, 1 de agosto de 2020

Deus

Essa noite, foi difícil rezar. Certos dias só são mais duros que outros, e está tudo bem, no geral. 
Com a cabeça agitada e pensante, voltei direto para aqueles anos esquisitos da adolescência, quando - pela primeira vez - ouvi falar dos mistérios. 
Lembrei-me com carinho e cuidado da disputa ferrenha de sentimentos dentro daquele "eu", de quatorze, quinze anos. Recordo e agradeço por ter tido pessoas que abriram meus olhos e minha mente no momento em que mais precisei.

Ah, espera...agradeço a quem?

Certas noites só são mais duras que outras. E essa, definitivamente, havia sido uma delas.

Sigo então voando pelo passado até o momento em que percebi: algo não encaixava. Acreditar em um só ser como uma força maior não fazia sentido, uma vez que eu podia sentir a vibração de todas as coisas, pessoas, organismos à minha volta. 

Eu lembro! 

Infinitos e incontáveis universos. Todos aqui, ao redor do meu. Se aquilo não fosse algo superior, o que haveria de ser, então?

Apesar de tudo, existem momentos em que você só quer conversar. Saber que alguém está ali, te ouvindo, olhando por ti e te ajudando, da forma que for, sem se importar tanto com os detalhes. É confortante ter um pai para poder pedir ajuda a qualquer momento. 
Só quem não teve, sabe. 
E lá estava eu, então, fazendo o sinal da cruz e dormindo no meio dessa conversa. 

Desabafando com o Deus que criei por conveniência.

Transporto-me, por fim, para determinadas vezes em que me afastei daquele que chamava de Deus. E curiosamente, isso não tem a ver com os momentos de conquista - que é quando normalmente acontece com o religiosos em geral. Durante minha boa relação com o Cara lá de cima, também costumo agradecer, afinal, esse é um dos mistérios: as coisas acontecerem por uma determinada razão e, de certo - repito - a tal da força maior está por ali.

Mas e aí...e quando parece que não está?

Veio então em minha cabeça - vieram muitos pensamentos nessa madrugada - os argumentos dos ateus fervorosos. Enquanto pensava no barulho dos tiros, no som das pessoas chorando e no tremor das bombas, pensava no discurso: "Se Deus existe mesmo, e é um ser bondoso, por que não salva as pessoas em guerra no oriente médio? Por que não dá comida aos famintos todos?". Esse deus não parece se importar. 

Essa noite, foi difícil rezar e não me sentir um idiota. 

E antes de dizer que é blasfêmia, bem...se Deus permite tudo isso acontecer, de certo que ele vai entender. 

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Soluço

queria mesmo estar
escrevendo
meus poemas 
de amor
no guardanapo
vagabundo
que rasga
se acalco

afinal
quem não queria
né?
fazer as suas próprias
e fúteis
coisas

já que não se trata
duma situação 
só minha
já que nunca
nunca foi
sobre mim. 

tem uma coisa
estranha
no ar
que fez
se esconder
o romance
e agora
quando dói
nem é de amor
é só tristeza
mesmo
e também cansaço
de lutar
desse jeito
de lutar
que é esperando

e tudo vem
assim
soluçado
fragmentado
estranho
como todos
estamos
ou ao menos, 
deveríamos
estar




sábado, 25 de julho de 2020

O melhor jeito

Bem...

 - Como você gosta?
 - Por baixo! E você?
 - Eu prefiro de lado.
 - Eu ponho de lado, então...


Feijão com arroz continua gerando polêmica.

domingo, 19 de julho de 2020

You are good

Estava quase anoitecendo quando resolvemos colocar o plano em prática. 
A operação já durava meses e tudo havia sido tão bem calculado que não dava pra errar. Bem...digamos que a chance era pequena. 
Vesti minha roupa como quem se apronta para o baile. Uma camisa social não muito justa, a calça na medida que é pro revolver encaixar bem nas costas, o suporte das pistolas e das balas por dentro do terno. Só o sapato social preto mais velho porque sabia que iria precisar de algo confortável. Olhei para a cama e lá estava o colete à prova de balas...o encarei por alguns segundos e virei as costas. Depois de alguns anos na corporação a gente meio que ignora certos protocolos. 
Excesso de autoconfiança ou apenas tolice de um velho rabugento? Não sei, ambos presentes da experiência.

Pois bem.

Dirigi por cerca de uma hora até chegar no endereço. Tudo já estava sendo monitorado e por isso, dentro do que imaginamos, era ali mesmo. Parei o carro em uma das vielas entre os prédios sem chamar muito a atenção, duas ruas antes do local. Se eu precisasse, duas quadras seria aquilo que eu ainda aguento correr atirando. No más.
Andei por aquelas calçadas largas pensando em tanta coisa que não conseguiria colocar aqui, muito menos em ordem. Da bateria do carro que precisa ser trocada à aquelas férias rápidas na praia. Da minha possível promoção ao resolver esse caso à conta do telefone que não tenho certeza se foi paga. 

Até que cheguei.

Parei ao lado da porta dos fundos do prédio e acendi um cigarro. O plano era esperar alguém sair até que pudesse aproveitar a porta aberta, por isso, sabia que poderia demorar um pouco. Não se pode ter pressa pra morrer, uma vez aprendi isso. Procurei lembrar.
Quando então, ouvi passos lentos vindo de dentro e me posicionei. Alguns metros antes da porta, pra poder vir andandinho e simular minha chegada. Deu certo, a senhora que saiu para jogar o lixo nem olhou na minha cara. Traço desses tempos, onde as pessoas sequer sabem quem mora no seu próprio prédio. Nem sempre foi assim.

Enfim. 

Andei por aquele corredor escuro, um tipo de subsolo, e subi dois lances pequenos de escada, quatro ou cinco degraus, até chegar no que seria o térreo. Entrei pela porta da escadaria e comecei a subir, ainda bem que escolhi os sapatos certos, pensei. Um longo caminho até o sétimo andar, meu Deus. Se bem que, após uma sequência novinha em folha de pensamentos aleatórios, lá estava o número que eu queria. Então é aqui que vai ser o show, no 702. 
Não surprendente, a porta estava entreaberta. Só um vãozinho, pra dar o recado de que sabiam e que me esperavam. Olhei. As luzes pareciam apagadas e muita luz entrava pelas janelas do apartamento. Sabe como é, né? Andar baixo, downtown, não se pode viver sempre com as cortinas abertas. Fui abrindo a porta devagarzinho, e sentindo os pés e as mãos começando a ficar gelados. Nosso sensor aranha, nunca falha. Já do lado de dentro, voltei a porta para a posição e esperei meus olhos se acostumarem com a pouca luz.

Não deu tempo.

Só senti o movimento do ar e logo o golpe. De cima pra baixo, no meu pescoço, de um jeito que cambaleei para frente e logo me virei pra procurá-lo. Ele estava na espreita, eu deveria saber. Talvez a intenção tivesse sido me deixar inconsciente com o karatê, mas o fato é que não funcionou, e logo em seguida, agora de frente, vi sua sombra vindo pra cima de mim. 
Não era muito alto, talvez 1.70, magro, porém muito rápido. Veio logo com as mãos de cima pra baixo novamente, então segurei seu braço e o torci, o jogando por cima do sofá. Ele caiu em pé como um gato, pulou com uma voadora bem no meio do meu peito, me jogando na parede, então armei um soco e dei. Talvez pela pouca luz, não acertei, mas foi tempo suficiente para ele enfiar a mão por dentro do meu terno e tentar puxar uma das armas. Estava presa, mas segurei seu braço e dei uma joelhada direto na boca do estômago. 

E foi aí que começou a ficar estranho. 

Quando abaixou pela dor do golpe, é que pude olhar direito. Suas roupas eram apertadas, tudo preto como o escuro da sala, mas um homem reconhece esse tipo de coisa a cem metros de distância. Antes que pudesse concluir alguma coisa, correu para a porta, e aí é que pude ver com mais clareza pela mesma luz que vinha da janela: curvas. Sabia que minha cabeça não estava me enganando, e eu nem tinha bebido aquele dia. 

A roupa justa formou uma silhueta feminina desenhada, delicada, em cima. Pude reparar bem no formato do seu corpo segurando a porta antes mesmo de fazer qualquer movimento - agora, na verdade, não sei se conseguiria. Na academia aprendemos muito cedo que não se bate em mulher nem com uma rosa. Vai dar muito trabalho para me convencer de que eu não sabia que era uma mulher e só por isso lutamos. Bem, é pra isso eu pago meu terapeuta. 

Depois de se recuperar da briga e principalmente da joelhada, numa fração de segundo e já de frente pra porta, me disse:

 - Você é bom.

Uma voz aberta e nada delicada. Pelo sotaque, uma agente russa. Uma modelo russa de passarela dentro de um collant preto indescritível e com habilidades em artes marciais. Perigosa. E rápida. 
Saiu e, num piscar de olhos, virou um vulto. Até corri para a porta - agora, escancarada - e ao olhar no corredor percebi que ela simplesmente desapareceu. Sem pistas de onde poderia estar. Sem ruídos. 

Poderia ter ido atrás. Mas optei apenas por tirar o rádio do bolso. 
 - QRL. 
 - QAP.
 - Ela se foi. 



domingo, 12 de julho de 2020

Quebrei

Mas juro que não queria.
Quem me conhece, sabe. Não que seja necessário dar qualquer explicação a essa altura do campeonato.
Independente disso, eu estava lá.
E agora aqui, olhando para o teto com toda a culpa do mundo, eu sei. Caí exatamente onde NÃO deveria estar.
Quando cheguei, foi imediato. O arrependimento foi subindo, por cada um dos ossos, espinhas, costelas. 

Pelo amor de Deus, o que é que eu estou fazendo aqui?

Por que é que eu fui topar um negócio desses?

Acontece que, apesar de qualquer questionamento, enfim. No final, eu estava lá.
E agora eu sinto.
Ódio.
Raiva.
Medo.
Horror.
Tristeza.
E depois de voltar e deixar as roupas de lado, guardar os carros, ajeitar tudo.
Eu choro.

O choro de um capricorniano começa, principalmente, porque primeiro: não valeu.

Não valeu nenhum daqueles sorrisos falsos e sem graça nenhuma.
Cada uma daquelas notas que, no final, renderam algum dinheiro, não tiveram o menor gosto de dever cumprido.
Pelo contrário.
Deram a impressão de que a qualquer momento eu posso morrer e, se não, posso levar toda a minha família.
Talvez eu me perdoe um dia por isso.
Mas apesar disso.
Apesar de tudo, como sempre.

Eu me arrependo.

Porque botei - quase como sempre - o dinheiro em primeiro lugar.
E quando vi, já não tinha volta. 
E me senti como disse o texto que li outro dia: um otário. E olha que - de novo, quem me conhece, sabe - não tenho vocação pra isso, não. 

Eu não gosto de gente burra. Porque gente sem acesso é tão diferente e porque eu respeito, muito, muito.
Mas não respeito gente burra. Nem gente idiota. Muito menos gente idiota e burra.

E esse, definitivamente, era o caso.

Um bando de gente com menos dinheiro do que gostaria, se achando dona de mais do que tem. Bem típico. A boa e velha falta de consciência de classe imperando no ambiente de extrema direita de carteirinha.

E eu.

Ali.

O bobo da corte. O mico. O palhaço. A atração principal.

Volto pra casa com o bolso cheio de dinheiro e uma vida com bem menos dignidade. Tenho ânsia de vômito e não consigo soltar. 
Eu adoro ganhar dinheiro. E se tem uma coisa que eu gosto mais do que ganhar dinheiro, é tirar o dinheiro de burguês safado - obrigado, Mathias. 

Entretanto devo confessar que, desta vez, não teve graça. O risco não valeu, e ainda que fossem dez vezes mais, mesmo assim, não teria valido nem mesmo um tostão. 

Lembrei daquela cena que sempre, e desde sempre, tanto me impressionou. You suck.

Dudes...you suck.

Vocês são nojentos.

E eu espero, de todo o coração, não morrer por causa de nenhum de vocês.

Cambada de filho da puta.



*texto escrito exatamente um mês atrás. Agora me sinto seguro, sem sintomas, e pronto pra confessar essa burrada.


quinta-feira, 4 de junho de 2020

Não sei.

Sigo me inspirando
Pelas mesmas canções
Mesmas notas
Acordes
Lágrimas
Discos
Lugares.
Me machuco e
Eu mesmo
curo
Me curo
Seguro
O choro.
E a vontade de viver
E de morrer
também
Morrer pra renascer,
talvez
Depois de tudo
Depois que tudo
Passar
Vai passar, eu sei
Ainda sim,
sigo
Me inspirando
pelos mesmos poemas
Mesmos autores
cantores
Encartes
Rascunhos
pergaminhos.
Hoje cedo, ele me disse
o Millôr
Me perguntou:
O que é que vai
sobrar
Quando passar?
Então gritei
O mantra diário
Das manhãs sentado
Na cama
As quase seis
E das noites deitado
Ali só nós dois
Eu
E o teto
O que é que vai
Sobrar
Quando tudo isso
Passar?

Não sei.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Ela sorriu

Quando a vi ali parada, quase nem acreditei.
É bem estranho tentar escrever sobre encontros por acaso em tempos de Tinder. Mas vá lá, sigamos.

Pois bem.

Nunca havia visto aqueles olhinhos sorridentes de perto. Assim meio puxados, desenhados e brilhantes, por detrás das lentes grandes dos seus óculos de pernas finas, dando ar com a luz que vinha. Eu gosto de gente que sorri com os olhos e esse, definitivamente, é o caso.
Coisa de cinema.
Por vezes me contentei com certas fotos espalhadas por aí, naquela história de amigos, dos amigos, dos amigos. Ninguém é amigo de quase ninguém nas tais das redes mas, de forma inusitada, vamos nos conectando. Às vezes aleatoriamente, às vezes por um algoritmo.

As definições de destino foram atualizadas.

[Penso em propor que troquemos a expressão idiomática "Era pra ser assim" por "O tio Mark já sabia antes de nós". Entendedores, entenderão...mas bem, este é outro assunto.]

O que eu sei é que ela continuava ali, encostada no batente do vão entre o hall e o salão, segurando sua bebida - um coquetel daqueles bonitos que eu não gosto. Devia ser vermelho ou laranja ou rosa, não reparei bem, com alguns adereços misturados ao gelo e aromatizando alguma bebida ruim até que ela fique boa. Ou quase boa. Ainda sim, delicadamente colocados nas suas mãozinhas pequenas, cruzando com a meia-luz amarelada, foi a foto perfeita que minha retina fez questão de tirar.

Sabia seu nome, é claro. Fiz a lição de casa.

Então fiquei por perto. De onde eu estava, logo ali, dava pra ver a banda e ainda encostar de canto numa mesinha daquelas que não servem pra muita coisa. A via dançar de um jeito difícil de descrever. Algum ponto entre o suave e o desajeitado, seus cabelos lisos balançavam pra lá e pra cá, seu queixo levantava e os olhinhos bonitos se fechavam. Ela sentia a música. E eu sentia. Tudo.
É sempre muito mais sexy quando não quer ser, penso.

Até que encostei no balcão. Depois, então, de duas ou três frases com o dono do bar, eis que ela chega e suavemente pousa seu drink por perto. Entre fingir que não percebi e sentir aquele arrepio do "é agora", peço a ele:

 - Me vê mais uma verdinha, meu consagrado!
 - Uma pra mim também! - ouço sua voz cheia de energia. Escorpião ou Áries, talvez?
 - Boa pedida! - rebato - Essa sua bebida aí é muito ruim, tá sabendo?

Ganhei sua atenção, pelos poucos segundos que precisava. Era a grande chance de subir um pequeno degrau ou de cair no precipício...

Ela sorriu e seus olhinhos pequenos se abriram:
 - Ah é? Por que?
 - De tão ruim que é, no comercial de TV em vez de as pessoas na festa beberem, eles a jogam um na roupa do outro!
 - Ahhhhhhhhh!

Ela riu.
Gargalhou.
Mais um pouco.

Fazer uma mulher bonita sorrir é a bola pra fora de Baggio. É especial, é o ápice, é tudo e, ao mesmo tempo, só o que se precisa.
Levantamos as garrafinhas, brindamos e bebemos. Por fim, antes de seguir pelo bar, dara ela novamente aquele sorriso.

A noite tem dessas, afinal.

[Não sei se um dia minhas histórias de amor irão deixar de começar em balcões de bares. Continuarei torcendo para que não.]


quarta-feira, 13 de maio de 2020

Tutti Frutti

Senti o perfume da flor. Tão leve e gostoso foi, que não deu nem tempo de pensar em não se apaixonar.
Um dia, lá atrás, um bom amigo, desses que a gente nunca mais vê, não sabe mais quem é, e ainda sim lembra e preserva aquilo que, um dia, existiu, enfim, me disse: você vai ver. 

Agora eu vi. Confesso, sim, que não foi sequer um pouco difícil assumir.

A juventude encanta. 

A ingenuidade em sua posição mais vulnerável tem uma potência que não dá pra medir. Aquele olhar penetrante de admiração chega a estremecer as pernas dessa alma ligeiramente cansada. Então se misturam os dois e o resultado dessa alquimia é um olhar de curiosidade que, quando depois de alguns segundos, encanta e seduz. 
Tem brilho.
Acompanhando essa energia atraente e bela vem uma onda lá de dentro que quase grita. É ela, a insegurança da mente jovem, que tentamos tanto esconder - você se lembra? - e que agora, olhando de longe, parece um carro alegórico. Por dentro eu rio de gargalhar, de tão bonito que chega a ser. É preciso mostrar, falar, convencer. E o discurso é tão bonito quando bem feito que eu nunca, nunquinha, iria me dar ao luxo de interromper. 

A juventude encanta porque ela é, mesmo, linda de morrer. 

A paixão no olhar de quem (ainda) tem todos os sonhos na palma das mãos me enche os olhos d'água. Não posso ser hipócrita em dizer que não reavivou em mim uma vontade louca de ganhar o mundo. De novo!
A força das palavras que vêm lá de dentro e saem rasgando feito um punhal. Quem não estiver preparado, que lute. As palavras jovens e pouco pensadas não vão longe, porém chegam carregadas de uma intenção admirável. 
O recheio disso tudo acaba sendo a capacidade de enxergar, ou de não fazê-lo, mas enfim, de ver que tudo é possível e que o mundo é um lugar incrível para se viver. Quase convence.

A juventude encanta porque ela sempre estará aqui, de alguma forma.

Vem então a cereja do bolo, que é aquilo que só os olhos vêem. A sutileza da pele, lisa e perigosa, um caminho nada sinuoso - pelo contrário - que a gente viaja, flutua. Uma textura suave que tantas vezes já vimos mas que só deu pra reparar mesmo, foi agora. As mãozinhas pequenas, leves, bonitas, carinhosas, que tocam com medo, descoberta, desejo. Cabelos, pescoço, nuca. Cintura fina, pernas rijas, pezinhos macios perfeitos. A doçura dos movimentos e o riso solto em meio ao prazer. A força do impulso sem o conhecimento pra administrá-lo bem. Uma obra de arte.

É muito fácil ceder ao cheiro e aceitar o coquetel. 

Fácil de um jeito que a gente nem luta. 

terça-feira, 12 de maio de 2020

Todas são iguais

É, não adianta. Somos assim tão profundamente ligados que, mesmo que por um tempo tentando ficar longe, ainda que pela mais nobre razão, você sempre volta. 
Me chama. Me acorda. Me faz levantar e olhar para a escuridão de cada canto desse quarto, e então me lembra de quem você é. 

Mesmo na luz não há quem possa se esconder no escuro, já disse o cancioneiro popular. 

Então estamos nós, aqui de novo. Madrugada, vela acesa, céu de outono, e a boa e velha máquina de escrever com as folhas ligeiramente mal colocadas esperando o toque, hora carinhoso, hora feroz e selvagem dos meus dedos. Ah, meu amor, escrever em você é como ter lindas e longas noites inundadas de suor, que só terminam depois do café preto e da luz do sol a entrar pela janela.

Todas as noites são iguais, e o melhor continua sendo que, querendo ou não, todas são diferentes à sua maneira. 

E eu, que sou sempre o mesmo, assim também, jamais serei o mesmo. Porque, como me ensinou uma criatura terrível, megera e impiedosa (sobre a qual pensei na palavra bruxa, porém tenho profundo respeito pelas bruxas, então me abstenho): Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.

A primavera bem virá depois do inverno. 

Até lá, seguimos com reflexões que mais parecem um caminhante sem rumo. Que pura e simplesmente anda. Que vai. Não importando muito bem para onde nem mesmo com quem, mas olhando em volta e admirando a paisagem. Sentindo as mudanças na pele: brisa fria, vento forte, chuva fraca, sol ardente, sombra gélida, pouca vista, o crepúsculo. 

Chegamos. 

Olho então e contemplo a vista do pôr-do-sol do ponto mais alto da montanha. A lua, que é velha companheira, já veio colocar a mão sobre meu ombro direito. Me viro então e a vejo chegando, bela, imponente, toda sensual em seu caminhar pelo imenso céu negro. Observada com admiração e aplaudida pelas estrelas, cá está ela, a Luiza de Jobim, que agora e desde sempre tornou-se minha também. 

Na trilha sonora, o piano delicado de "Dezembros". Em tempos modernos, lmgtfy. Em tempos pós modernos, se tudo tiver sido levado e este for o registro físico, desejo aqui deste ano, do fundo do meu coração, que você encontre este disco e o ouça com atenção. 

Tudo isso, é claro, sem sair da posição. A cadeira ligeiramente inclinada, a taça de vinho em equilíbrio e trazendo equilíbrio também, as pernas esticadas sobre o canto da mesa por entre alguns papéis e, além da imaginação, nada. 

Mais uma noite igual as outras. Mais uma noite

Diferente. 

domingo, 10 de maio de 2020

Rocket

Só porque Elton John não tem saído da minha cabeça...


You could never know what it's like
Your blood like winter freezes just like ice
And there's a cold lonely light that shines from you
You'll wind up like the wreck you hide behind that mask you use
And did you think this fool could never win
Well look at me, I'm coming back again
I got a taste of love in a simple way
And if you need to know while I'm still standing you just fade away
Don't you know I'm still standing better than I ever did
Looking like a true survivor, feeling like a little kid
I'm still standing after all this time
Picking up the pieces of my life without you on my mind
I'm still standing yeah yeah yeah
I'm still standing yeah yeah yeah
Once I never could hope to win
You starting down the road leaving me again
The threats you made were meant to cut me down
And if our love was just a circus you'd be a clown by now
You know I'm still standing better than I ever did
Looking like a true survivor, feeling like a little kid
I'm still standing after all this time
Picking up the pieces of my life without you on my mind
I'm still standing yeah yeah yeah
I'm still standing yeah yeah yeah
Don't you know I'm still standing better than I ever did
Looking like a true survivor, feeling like a little kid
I'm still standing after all this time
Picking up the pieces of my life without you on my mind
I'm still standing yeah yeah yeah
I'm still standing yeah yeah yeah

terça-feira, 5 de maio de 2020

Vida Noturna

E uma curta homenagem ao, agora saudoso, Aldir Blanc...


Acendo um cigarro molhado de chuva até os ossos

E alguém me pede fogo - é um dos nossos

Eu sigo na chuva de mão no bolso e sorrio

Eu estou de bem comigo e isto é difícil
Eu tenho no bolso uma carta
Uma estúpida esponja de pó-de-arroz
E um retrato meu e dela

Que vale muito mais do que nós dois
Eu disse ao garçom que quero que ela morra
Olho as luas gêmeas dos faróis
E assobio, somos todos sós

Mas hoje eu estou de bem comigo
E isso é difícil
Ah, vida noturna
Eu sou a borboleta mais vadia
Na doce flor da tua hipocrisia

sábado, 25 de abril de 2020

Sonho secreto

O que acontece é que eu me lembro, sim, daquele sonho. O sonho, sobre o qual, não pude falar e jamais poderia se ainda assim fosse. 

Não sei se há coisa mais difícil, para mim, do que não poder fazer alguma coisa.
Como me disseram, outro dia, "você é o pesadelo de qualquer chefe". E eu, claro, tive de concordar. E talvez tenha demorado demais para perceber isso, porém, quando o fiz, logo tratei de resolver. Dei um jeito de não ter mais chefe, e por ironia do destino, resolvi ser chefe. 
Não funcionou. Outra dessas peças que a vida prega na gente, ora, pois. E é por causa disso e simplesmente disso que hoje sigo só.
Em quase todo e qualquer setor.

Chovia. 
Porém não era uma chuva qualquer. Era uma chuva torrencial com ventos fortes, fazendo todo o fundo da minha visão ficar cinza, misturado com um um amarronzado de poeira quase como um tufão. 

E eu andava. buscava abrigo, por uma estrada cercada de um descampado aberto, onde nada se via a um palmo. Hoje pensando, como um filme, quase ouço a trilha da cena. Que naturalmente não havia. 

Até que encontrei esse casarão. Uma casa grande de madeira, dessas feito cabanas porém bem, bem maiores. Janelas de vidro todas sujas da poeira, e as tábuas de uma cor marrom mais escuro que a poeira da cena. Eu vi a casa, procurei sua porta, e entrei. Era um corredor estreito e escuro, bem curto, como se formasse um L para a direita. Quando cheguei na aresta, percebi que havia dois degraus no assoalho e os desci. Segui pelo corredor. Certa claridade agora entrava pelas portas dos cômodos da casa, todas abertas, recebendo feixes de luz pelas janelas.

Então mais uma aresta em L e uma curva para esquerda. mais dois degraus abaixo. Desci e, quando vi, cheguei em algo como uma intersecção de corredores dentro da casa. Três corredores, o meu e mais dois, davam para um pequeno hall, todos a mais dois degraus abaixo, e uma porta no centro. Uma porta dupla, dessas antigas de madeira, com apenas um dos lados aberto. 

Podia ouvir o "toc, toc" dos meus passos e então, ao chegar na porta, lá estava ela. Encostada meio escorada em um dos braços, cabeça não tão ereta e nariz não tão empinado como de costume, e os cabelos, sim, ondulados, castanhos, longos e lindos - isso, sim - como sempre.

Cheguei bem perto de sua cintura fina e, ainda que estivesse um degrau acima, não era problema para um cara grande como eu. Não deu tempo de olhar em seus olhos, e logo já senti seus braços envolvendo meu pescoço como o abraço longo e apertado que sempre demos. Como pode o tempo sempre ter parado em momentos assim?

Nos abraçamos por tempo suficiente pra eu me lembrar daquela ligação forte e estranha, misteriosa, beirando o esquisito. Então nossas pernas, ainda em pé, se enroscaram e meu pescoço repousou sobre seu ombro, formando um abraço completo, perfeito, profundo e até um tanto dolorido. Saudade. Um amor que nunca foi muito bem explicado, o que se há de fazer? 

Até que nos beijamos também do jeito que fizemos lá atrás, na primeira vez. Minhas mãos em seu cabelos levemente os puxando para baixo, e um beijo apertado daqueles de faltar o ar, unido ao abraço forte e aos corpos se mexendo tão naturalmente. Em pé, ali, na porta, com aquela tempestade lá fora. 

Afinal, a chuva sempre esteve ao redor. 

Acordei tão impressionado, uma vez que não via a imagem dela já tinha alguns anos. Nem pessoalmente, menos ainda em sonho. Não faço ideia do que pode ter acontecido com meu subconsciente, só sei que a única coisa na qual pensei ao abrir os olhos, foi contar a ela que esteve aqui.

Fiz, e a sua resposta me deixou ainda mais feliz. Já o que aconteceu depois, só o tempo dirá a importância. 

No final, estamos todos vivos, e a vida voltou ao normal. E mesmo com um abraço e um beijo, desta vez reais, aqui, outros ali, novamente não nos vemos e talvez nem mesmo nos veremos nunca mais. E que este sonho, nunca mais, secreto, seja. 


quarta-feira, 22 de abril de 2020

Cabalístico

Eu sabia que aquela tarde de outono prometia. Sabe quando você sente aquela coisa? Que paira no ar, mas que também está dentro. Difícil explicar, mas tá tudo bem.

O que sei é que eu sentia e por isso resolvi arrumar tudo. 

Olhei pela janela e o céu estava azulzinho, com aquela camada invisível que o faz diferente de um céu de brigadeiro, acrescentando os detalhes das nuvens espalhadas feito pintura. Apesar de qualquer crença, em silêncio, agradeci a quem quer que estivesse com o pincel. 
Com tudo pronto, já era hora de partir. O coração batendo hora lento e profundo, hora acelerado e louco. Uma disritmia que vem de anos. Alguns dizem que é o remédio, mas que posso eu fazer? Conto na cabeça e já tem uma década desde que comecei...uau! Será que o bater profundo nunca foi amor? 

Um dia saberemos.

Depois de algum tempo, porém sem demora, encostei com minha moto naquela rua. Sempre gostei de parar por ali e admirar o pôr-do-sol, principalmente nesta época. Aquele amarelo, que fica laranja, então vermelho, e segue lento, atravessava meus olhos e ia direto pra dentro como a canção que um dia você tocou pra mim, ali, no quintal daquela casa, com seu violão simples e sua voz suave, macia, afinada. Precisa. 
E só porque era Abril e as coisas já estavam ficando bem frescas por aqui, vestia aquela jaqueta que você sempre gostou. Como mandava o figurino, os cabelos soltos, meio bagunçados, hora pelo chapéu, hora pelo capacete, os óculos e o sol se pondo refletindo em suas lentes também.

Até que você dobrou a esquina e eu esqueci completamente em quê estava pensando.

Charlotte, que de certo já conhece seu cheiro, também se impressionou. Desligou, por si só, pra que eu pudesse ouvir seu caminhar ainda que lá da beira do quarteirão. E assim ficamos, ali, os dois, atônitos, te vendo descer a rua e já sorrindo de longe.

Você brilhava. 

E eu, bem...você me conhece. Nem tentei disfarçar. Tento manter o meio sorriso, misterioso, quando por dentro estou uma mistura de bobo apaixonado, babando, e feliz, eufórico. Você vindo em minha direção sempre, sempre vai mexer comigo.
Com uma flor no cabelo, e o batom vermelho que insiste em me conquistar, você - que não enxerga muito bem - demorou pra perceber que aquele vulto era o mesmo de sempre. Quando viu, sorriu. Me derreteu, de novo. Dentro de um vestido leve, coberto por uma blusa dessas de vó, que por alguma razão te deixam melhor que qualquer modelo caríssimo, jogou o cabelo pro lado do jeito que sabe que pode fazer em qualquer ocasião. Pronto pra eu pegá-lo pela nuca e tudo isso. 

Você é bem bonita, né?
Pensei. Só pra você ler meu pensamento.

 - Tá pronta?
 - Sempre, meu bem. Vamos?
 - Trouxe sua roupa!
Você sorriu:
 - Então, pronto!
 - Bom, agora tem 270 quilômetros de estrada pra pegar. 
Duzentos.
E setenta.
Número cabalístico.

Liguei Charlotte, que também sorriu pra mim, como em cada ignição. 
Agora vambora, que a estrada com você na garupa e suas mãos envolvendo minha cintura pode ser quão longa for preciso. 

terça-feira, 21 de abril de 2020

Não tenho tempo

Eu não tenho tempo
Eu não sei voar
Dias passam como nuvens
Em brancas nuvens
Eu não vou passar
Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
Eu não sei voar
Eu tenho um sapato
Eu tenho um sapato branco
Eu tenho um cavalo
Eu tenho um cavalo branco
E um riso, um riso amarelo
Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
De me ouvir cantar
Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
De me ver chorar 
Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
E eu não sei voar

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Vinho

Quando um vinho de qualidade tem uma história para enriquecê-lo, parece ganhar algo a mais. É o caso do tinto português Pedro & Inês, produzido pela Global Wines (Quinta de Cabriz), do Dão, por inspiração da Quinta das Lágrimas, hotel-monumento de uma cadeia de luxo em Coimbra, onde a história se passou mais de 650 anos atrás.

Conta-se que no século XIV o rei D. Afonso IV acertou o casamento de seu filho e herdeiro, o príncipe D. Pedro, com a princesa espanhola Dª Constança, filha do Infante de Castela, D. João Manuel. A aliança política interessava às duas casas. Constança chegou a Portugal em 1340, acompanhada de grande séquito, e o casamento logo foi realizado. Entre suas damas de companhia havia uma jovem galega muito bonita, Inês de Castro, por quem D. Pedro teve uma paixão avassaladora. Inês era filha de Pedro Fernandez de Castro, homem rico e poderoso na Espanha, neto de Sancho IV, rei de Castela. O romance, que afrontava os interesses de Portugal e as convenções sociais, abalou a corte e teve final inesperado. É a versão lusa de outros amores trágicos, como o de Aberlardo e Heloisa ou o de Romeu e Julieta.

Pressionado pelos nobres a afastar Inês, em 1344 o rei D. Afonso IV condenou-a ao exílio. A distância não fez diminuir o amor do casal. Meses depois, Constança morreu, ao dar à luz D. Fernando, herdeiro do trono luso. O rei tentou casar novamente o filho com uma princesa. D. Pedro recusou a ideia e preferiu trazer Inês de Castro para morar no Paço de Santa Clara, às margens do rio Mondego, onde hoje se situa a cidade de Coimbra, então capital do reino. Tiveram três filhos. Mas as intrigas da corte espalhavam que os parentes espanhóis de Inês queriam tomar o trono português. Influenciado então por três conselheiros, D. Afonso IV mandou decapitar Inês em janeiro de 1355, quando D. Pedro estava ausente. Ela tinha 30 anos e chorou muito ao ver os carrascos, o que de nada adiantou.

Enlouquecido de dor, o príncipe jurou vingança. Dois anos depois, com a morte do pai, ao subir ao trono como D. Pedro I, perseguiu os três conselheiros e mandou arrancar o coração de dois deles. O terceiro conseguiu fugir. Em 1360, afirmou que havia se casado em segredo com Inês, o que fazia dela rainha. O corpo de Inês foi transferido do convento de Coimbra para o mosteiro Real de Alcobaça, onde eram enterrados os monarcas portugueses, e o novo rei fez construir para ela um mausoléu de pedra branca, ricamente trabalhado. Pedro I também mandou esculpir os detalhes do romance em seu próprio túmulo. Ele morreu em 1367 e foi enterrado perto de Inês. Os dois túmulos ainda podem ser visitados no mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Sobre o de Pedro, está escrito que eles permanecerão juntos “até o fim do mundo”.

O resto é lenda, não confirmada por documentos. Diz-se que, sem esquecer a amada, Pedro exumou o cadáver de Inês e colocou uma coroa em sua cabeça, obrigando os nobres a beijar a mão daquela a quem haviam desprezado em vida. Na memória popular ficou a frase, repetida por tantos, mesmo sem saber sua origem: Agora Inês é morta. Ou seja, ela foi coroada rainha, mas tarde demais. As desventuras dos dois jovens é narrada por Luís de Camões, no canto III dos Lusíadas.

Louvada em verso e prosa, a saga de Pedro e Inês continua viva. O palácio onde eles se encontravam para viver seu amor proibido, a Quinta das Lágrimas, pertence há 300 anos à família de Miguel Judice. O nome faz referência às lágrimas que Inês de Castro verteu ao ser assassinada e que, segundo Camões, se transformaram numa fonte de água pura que ainda corre nos jardins da propriedade. Escreveu o poeta: “As filhas do Mondego a morte escura/Longo tempo chorando memoraram/E por memória eterna em fonte pura/As Lágrimas choradas transformaram”.

Localizada na margem esquerda do Mondego, na freguesia de Santa Clara, em Coimbra, a quinta ocupa uma área de 18,3 hectares. Foi mencionada pela primeira vez em documentos de 1326, em plena Idade Média. Tem jardins exuberantes e atrações como a Fontes dos Amores e a Fonte das Lágrimas, sempre em torno de Pedro e Inês. O palácio original foi destruído por um incêndio em 1879 e reconstruído ao estilo dos antigos solares rurais portugueses.

Há 20 anos a Quinta das Lágrimas abriga um hotel-monumento, integrado atualmente à rede Small Luxury Hotels of the World. O prédio passou recentemente por uma grande reforma, encerrada no início deste ano. A restauração custou 1,5 milhão de euros e foi possível graças ao projeto Revitalizar, um fundo de investimento orientado pelo Estado português para modernizar e dar vida nova a construções de importância histórica no país. O Hotel Quinta das Lágrimas é administrado em uma parceria entre as famílias Júdice, Alexandre Almeida e a empresa Oxy Capital.

A Quinta das Lágrimas tem dois restaurantes e, por se localizar entre duas das mais importantes regiões vinícolas de Portugal, Dão e Bairrada, acumulou ao longo dos anos uma notável coleção de vinhos, tornando-se o que se chama “Wine Destination Hotel”. Em sua extensa carta de vinhos, a estrela é o tinto Pedro & Inês, concebido com duas castas tradicionais da região, que lembram os personagens principais da história. A Baga, estruturada e masculina, remete a Pedro; e a Alfrocheiro, perfumada e feminina, recorda Inês. A união das duas criou um vinho histórico. Mais recentemente, surgiu também a versão em branco do Pedro & Inês, a partir das castas Encruzado e Bical. Por sorte, para provar estas duas joias o consumidor brasileiro não precisa viajar. Os vinhos são distribuídos aqui pela importadora Vila de Arouca.

O Pedro & Inês Tinto é macio e expressivo. As castas Baga e Alfrocheiro são colhidas e fermentadas em conjunto, em barricas abertas de carvalho francês. Depois repousa por 12 meses em barricas novas. Lembra nos aromas fruta madura, com algo de chocolate e baunilha. Tem bom corpo, estrutura, taninos finos e muita harmonia entre carga de fruta, acidez e álcool. Um vinho sedoso e encantador (14,5%). A Vila de Arouca comercializa no momento a safra de 2009. Custa R$ 270,75. Nota 92.

domingo, 5 de abril de 2020

A síndrome

Esse é o momento.
São mais de três.
E como um velho sábio que eu já chamava de "véio" há, talvez, quinze ou mais anos atrás, me diria: nada de bom acontece depois das duas e meia.
De fato, só quem é da noite sabe o quanto isso é verdade.
Bêbado, mas nem tanto, ouço a música que a rádio me dá. Somente o sol se escondeu, e sim, meu corpo pede o seu calor. A poesia em português continua imbatível. 
Ao passo que há algumas horas estava vendo as fotos daquele lugar que nunca bem fotografei. Que saudade das ruas e das paisagens que vi com meus próprios olhos e que não tive tempo de registrar apropriadamente. Que vontade de viver tudo de novo mas, dessa vez, do jeito certo. 
Talvez seja a quarentena, não sei, mas esse confinamento têm - recentemente - me dado uma vontade louca de voltar pra aquele lugar e começar tudo de novo. Será que eu teria chance?
As coisas estão mesmo ficando muito estranhas ultimamente.
Quando entra, então, o Zeca Baleiro e o Fagner, dupla que tanto amo e que, assim como nunca vi, nunca mais se viu, é que eu tenho certeza da profundidade que a noite tem, não que nunca tivesse tido. Sinto saudade. 
O que é que eu fiz da minha vida?

sábado, 4 de abril de 2020

Paixão [x]

Só porque eu postei essa em 2009, sabe Deus pra quem. Mas que, se postei, é porque era de verdade. E, se eu posto agora, é porque 1: estou ouvindo agora. e 2: porque, sim, é de verdade.
Também.

Paixão

Amo tua voz e tua cor
E teu jeito de fazer amor
Revirando os olhos e o tapete
Suspirando em falsete
Coisas que eu nem sei contar
Ser feliz é tudo que se quer
Ah! Esse maldito fecho ecler
De repente a gente rasga a roupa
E uma febre muito louca
Faz o corpo arrepiar
Depois do terceiro ou quarto copo
Tudo que vier eu topo
Tudo que vier, vem bem
Quando bebo perco o juízo
Não me responsabilizo
Nem por mim, nem por ninguém

Não quero ficar na tua vida
Como uma paixão mal resolvida
Dessas que a gente tem ciúme
E se encharca de perfume
Faz que tenta se matar
Vou ficar até o fim do dia
Decorando tua geografia
E essa aventura em carne e osso
Deixa marcas no pescoço
Faz a gente levitar
Tens um não sei que de paraíso
E o corpo mais preciso
Que o mais lindo dos mortais
Tens uma beleza infinita
E a boca mais bonita
Que a minha já tocou

domingo, 29 de março de 2020

Neve

Pela segunda noite seguida, ela apareceu no meu sonho.
Como já faz um certo tempo, cerca de um ano, talvez um pouco mais, fiquei feliz pela primeira vez. Porque foi bonito, tudo branquinho lá fora, eu tendo que subir uma rampa - o que é tarefa nada fácil com o chão todo deslizando - e ao chegar lá em cima, tinha pizza. E uma pessoa especial.
Porém, na segunda vez, foi duro. Demais. Porque foi tenso, tinha neve não só no chão, mas caindo, forte, aumentando a altura e, desta vez, acompanhada do céu escuro que só quem viveu sabe.
Eu vivi, e acredite, não recomendo.
Após acordar assustado às quase três, não consegui mais dormir. Por isso tive muito tempo pra pensar. Às vezes gosto de tentar entender o porquê de eu ter sonhado determinadas coisas, como uma espécie de forma de autoconhecimento. Por que é que aquela neve toda estaria aparecendo, assim, do nada?
...
Até que me deu um estalo. E o coração acelerou tanto, e o corpo arrepiou, e confesso que até me deu um pouco de medo.
O confinamento!
É isso. Estamos em auto-isolamento há cerca de quinze dias e o corpo já começa a sentir. Não dá pra falar com ninguém - pelo menos, não pessoalmente - porque não é seguro. Sair de casa, só para comprar comida, quando sim. E eu, um capricorniano autêntico, como forma de bloquear o sentimento de depressão, enfiei a cara em trabalho. Muito. Como nunca...não...espera. Eu já vi esse filme antes.

O estômago reagiu, a garganta deu um nó. E começaram as lembranças e as conexões...

Aquele quarto. A janela grande e transparente, o céu negro praticamente o dia todo. Tudo branco no chão e nos telhados das casas. Tudo gelado lá fora e, muitas vezes, aqui dentro.
Isolado, permanecia trancado entre quatro paredes talvez vinte e três horas por dia. A outra eu divido entre ir buscar comida, ir ao banheiro e tomar banho, quando tomava.
Ali, eu trabalhava a maior parte do tempo. Doze, treze horas por dia. Dependendo do dinheiro, às vezes mais. Foi a forma que encontrei de desviar do inferno em que estava já que não havia saída. Estava enclausurado e sem qualquer sensação de que a liberdade haveria de chegar.
Do lado de fora da porta, barulhos que vinham pelas mais diversas frequências. Propositalmente produzidos, com o intuito principal de chegar e de me afetar. Conseguiam.
Energia ruim, pesada, que pairava no ar. Raiva. Desconfiança. Ódio. Gritos. Violência, nas mais diversas formas.
Não deu. Perdi o controle. Já não conseguia mais administrar a minha própria vida. Sabia disso, e toda essa consciência nada me valia. Por vezes, explodi. Quebrei móveis e ossos. Gritei e perdi não só a voz, mas a energia e a vontade de viver.

Hoje a situação não é a mesma, definitivamente. Mas algumas características se assemelham e, tão inteligente é a nossa mente que, de alguma forma, a neve surgiu em meu inconsciente, conectando o isolamento de hoje àquele do passado.

Olho em volta.
Respiro.
Entendo, e aceito.
Sigo calmo, enfim. Porque assim como saí melhor daquela prisão, esse é, então, um novo desafio.
Desta vez, com um sol bonito lá fora.
Enquanto durar.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Boletim

Vinte e seis de Março, caiu a noite. Estamos há quinze dias em quarentena. Isolamento social devido ao vírus que toma conta e se alastra em proporções exponenciais por todo o mundo. A única forma de evitar que o contágio ocorra e que a doença se propague é manter-se fisicamente longe de toda e qualquer pessoa. Idosos estão no grupo de maior risco de morte e crianças podem ser os principais responsáveis por disseminar o vírus de maneira assintomática. Autoridades tomaram as providências para que todas as pessoas fiquem em suas casas e somente saiam para comprar comida, quando assim for estritamente necessário. Barreiras foram colocadas nas entradas e saídas das cidades, criando um isolamento físico mais eficiente, a fim de que não haja contaminação intermunicipal. Há tensão no ar e uma vibração pesada que deixa o mundo inteiro aflito e assustado. Não há para onde correr. Alguns lugares estão ruins, outros, bem piores. Em contato com pessoas de diferentes países vejo que o clima é de medo e insegurança em qualquer lugar sob o céu. Novas notícias e também falsas notícias surgem a todo momento uma vez que a era da informações está a todo vapor. Discussões rapidamente se esquentam e brigas políticas assumem o lugar da luta pela vida. A ansiedade aumenta em proporções inacreditáveis, baixando assim a imunidade das pessoas e as tornando mais suscetíveis ao vírus. Nem mesmo dentro de sua própria casa se está a salvo. Não é certo quanto tempo isso vai durar nem mesmo qual tem sido o avanço das pesquisas pela cura. Para quem se lembra, é como o surgimento da AIDS, porém de maneira avassaladora já que este vírus se propaga pelo ar. O número de casos e de mortes cresce em forma de progressão geométrica a cada dia, e ainda não se entende bem como funciona o microorganismo responsável por todo esse desastre. Cada vez mais nos vemos como parte de um capítulo de um livro de história no futuro, e a sensação não é muito bonita, de fato. É muito difícil ficar longe das pessoas que amamos, dos amigos, do carinho, do afeto, do afago. Essa falta também joga pouco mais para baixo a energia que ainda restava. E é por não saber no que acreditar, ou o que vai e o que pode acontecer, que deixo esse boletim, esse registro, esperando que nunca se perca pela eternidade e que seja útil de alguma forma, algum dia.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Release the Kraken

Tão claro
quando a luz do
dia
Que não


Palavras surgem
assim
nos dias nebulosos
Natural e
instantânea
mente.

Menos surpreendente
ou talvez
típico
seria
Não fosse
uma sexta-feira
treze.

Escorrem
pelos
dedos
Então,
vomito.
Tá tudo
aqui.

Não quero escrever
Tudo
Todo
dia.
Mas, sim
Quero sim
Escrever
Quando eu
quiser.

Também porque não é sempre que eu quero.

Ainda, sim
garanto!
Melhor poder
e não querer
Do que
aqueles dias
em que a alma
quer
falar
E você
Não
Pode.

terça-feira, 10 de março de 2020

Cerveja

Me lembro de quando nos vimos pela primeira vez...

Você chegou e encostou no balcão, perto de mim. Não deu pra não reparar em como eras linda e em sua pele branca ou em como você brilhava. Reluzia. Sua roupa parecia um pouco rasgada, mas honestamente, pouco me importei com isso.

Naquela noite, até onde me lembro, eu estava mal. Normalmente eu estou mal, então não que fosse novidade.
Mas depois que você chegou, logo percebi que meu humor mudou assim, num estalo, de uma hora pra outra. As pessoas no balcão também repararam, e até brincaram: "você tá querendo ela e dá pra ver que ela quer você".

Não me preocupei muito em seduzi-la, confesso.

Desde então, visto que já faz algum tempo, têm sido encontros e desencontros. Algumas vezes, antes mesmo de você chegar, eu já havia me ocupado com outra opção. Que posso fazer? Assim sou.
A melhor parte é que você sempre me diz "tudo bem". Não importa. Estarei aqui quando você voltar.

Acontece que eu sempre volto. Pra você.

Como esta noite, por exemplo, em que resolvi ficar. E assim, ficamos.
Que beijo bom você tem. Entorpecente e lícito, um paraíso.

E este som que soa enquanto sinto teu gosto é como um gemido de prazer instantâneo. Você me quer e eu te quero, então por que negar? Sigo para mais uma dose, e mais uma, e mais uma...

Te trago pra mais perto, porque é assim que te quero.
Te ponho no meu colo, porque és pequena e assim posso levar-te como quiser. Tu e eu, eu e tu.

E terminamos a noite com você acabada.
Comigo olhando pra você em êxtase, embriagado, ébrio, inerte, imóvel.

Deixamos para continuar outro dia...

Amanhã, quem sabe?

domingo, 1 de março de 2020

O que é que há?

Não
Você não tá entendendo
Eu dei todas as voltas que eu dei
Vi inteiras
As voltas do sol
E posso
sim
te dizer

Assim como disse
o rei
Que
Você não sabe
E nunca procurou saber

Onde você já esteve,
meu bem
A lista de presença
Fui eu que inventei

Fui eu

E todo o desespero
Ou o que
você acha que sofreu
Pensa antes
Pensa bem
Onde é que cê tava?
Dez ou doze
Anos atrás
Lá estava eu
Como o cê
Aprendendo
Sim
A viver

Te digo, sincero
Já estive onde eu quero
Eu já estive lá
Pois seja bem vinda
Bem vinda à vida
Já chega e já brinda
Pois isso é o melhor
Que se há de fazer

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Unlimited Power

Quando me perguntam
Sobre quais drogas
Já provei
Não hesito em dizer:
Aquelas que me ofereceram.

Nem uma a mais.

Entretanto
E entre tantas
Nada sequer
Se quer comparar
Ao amor

O amor é,
e continua sendo,
sim
A droga mais poderosa
Que eu já
provei.

Não há dor
Nem riso
Nem flor
Nem questão
Nem solução
Ou dúvida
Ou certeza
Que me reste.

Será isso,
[de novo],
o amor?
Talvez uma nova dose...
não sei
Mais forte?
Mais pura?
Da boa.

Ou será que é uma coisa
que eu nunca vi
Que me leva pra lá
E pra cá
E pra todo lugar
Que, apesar
de qualquer nome
Eu não aguento de vontade
de te ter
de novo
Será mesmo?

E eu que pensava
que o álcool era aquilo
Que um dia
Iria
me dominar
Quem dera, eu
Tivesse o poder
de escolher.

Por isso, faça o que quiser
De mim.
Me apresente
O lado negro
Da força.

E seu poder.
Ilimitado.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Quando falo da noite

Falo é das luzes
E também do escuro
Do tempo (que nunca passa)
Ou de quando corre demais

Dos toques quentes
Olhos que brilham
Danças estranhas
Música estranha
Entrando e mexendo
Com a cabeça
Da gente

A gente confusa
Os monstros babando
As presas na esquiva
Timidez nos cantos
Tristeza por dentro

O álcool que escorre
Transpira e transborda
Papel, bola e açúcar
Pra dentes cerrados
E para as pupilas
Dilatadas.

Abraços de amor
De amigo e de oi
Carinho honesto [e]
Também disfarçado
E tudo acontece.
E nada também.
E está tudo bem.

Pois mesmo quando chega o sol
Pra quem é da noite
Ainda não acabou.
E não vai acabar
Nunca.

O barco, assim, segue
Navegando
Pelas águas misteriosas
Às vezes silenciosas, profundas
Outras vezes claras, rasas, perigosas
A noite também faz bom marinheiro
E o bom marinheiro nunca
Nunca sabe
Quando chega...
Só sabe
mesmo
quando chega.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

You belong to the city

The sun goes down the night rolls in
You can feel it starting all over again
The moon comes up and the music calls
You're getting tired of staring at the same four walls
You're out of your room and down on the street
You can feel the crowds in the midnight heat
The traffic roars the sirens scream
Look at the faces it's just like a dream
Nobody knows where you're going
Nobody cares where you've been
'Cause you belong to the city
You belong to the night
Living in a river of darkness beneath the neon light
You were born in the city
Concrete under your feet
It's in your moves, it's in your blood
You're a man of the street
When you said goodbye you were on the run
Tryin' to get away from the things you'd done
Now you're back again and you're feeling strange
So much has happened but nothing has changed
Still don't know where you're going
You're still just a face in the crowd
You belong to the city
You belong to the night
Living in a river of darkness beneath the neon light
You were born in the city
Concrete under your feet
It's in your blood, it's in your moves
For a man of the streets
You can feel it
You can taste it
You can see it
You can face it
You can hear it
You're getting near it
You're wanna make it
'Cause you can take it
You belong to the city
You belong to the night
You belong to the city
You belong to the night
You belong
You belong

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Por favor

Já que estava frio, acendemos a lareira.
Apaguei todas as luzes e deixei apenas um fundo de luz quente, avermelhado, que iluminava os quadros da parede e o corrimão de madeira.
Sentei-me na poltrona ao lado da vitrola e coloquei aquele disco. Aquele. Apenas para ocasiões como tal.
Confesso que é pegar pesado, mas quem negaria?
E porque era especial, me preparei com meu melhor. A camisa, o perfume...um jogo que achava já ter desaprendido a jogar.
Mas não.
E conforme o ritmo da música se misturava aos sons da lareira, ela saiu do banho...e passou correndo entre uma porta e outra para que não a visse indo se arrumar.

Tarde demais.
(Ainda sim, continuo adorando essa inocência)

Saltitou nas pontas daqueles pezinhos trinta e três ou trinta e quatro, a toalha enrolada mostrando - sem querer mostrar - só o que eu devia ver. Os cabelos, voaram com o movimento, deixando no ar um já conhecido cheiro bom que me manteve ali, sentado, inerte.
Depois, então, de longos minutos, ela surgiu. Aquela silhueta delicada, de não mais que um e sessenta, e desenhada milimetricamente pra caber nos meus braços, desfilando suave. Ela flutuava pelo quarto, uma cena em câmera lenta para os meus olhos.
Vestia algo como um vestido latino, solto nas pernas porém marcando aquela cinturinha que minhas mãos tantas vezes mapearam, subindo e respeitando cada uma das curvas do seu corpo. Lindo. Jovem. Torneado, leve e sinuoso.

Perigoso.

Subi meus olhos e vi aquele pescoço, meu objeto de maior desejo. Acompanhando seu queixo e todo o seu cabelo em volta do seu rosto misterioso. Voltei rapidamente o olhar pelo seu colo, todo a mostra, e suspirei. Tomara...
Que caia.
A música a fez dar uma volta, como quem me apresentava uma dança, e foi só ela perceber meu inevitável sorriso de orelha a orelha, que eu não precisei pedir...

Subiu suas mãozinhas macias deslizando do seu quadril, pela cintura, e deslizou rapidamente encaixando os dedos no seu decote, começando a descer, lado por lado, uma vez de cada, dos seios aos tornozelos, nos cinco segundos mais bonitos que o cinema não viu.
Levantou de volta, jogando os cabelos para trás, e sorriu. Tão pouca idade e tanta noção do poder que tem. Assim são as mulheres.

Não deu pra contar até dez e ela pulou no meu colo, aquele encaixe sutil, beijando-me a boca, o pescoço, as orelhas, e envolvendo sua mão pela minha nuca, debaixo dos meus cabelos...tudo retribuído ferozmente pelo meu instinto, que a devorava, da rija carne até roer o osso, segurando com firmeza suas coxas e apertando sua cintura com vigor. Entre um beijo e outro, passava apenas um dos meus braços em volta do seu corpo todo, dando a ela toda a proteção misturada com o prazer. Mais um corte digno para a sétima arte.

A noite teve seu ápice momentos depois, quando a música já pedia intensidade, e a lareira nos fazia arder cada vez mais. Deitado naquela cama enorme eu via apenas sua silhueta sobre mim, o desenho do seu corpo que a luz do fogo tornava ainda mais belo, enquanto a sentia ser invadida, carinhosamente descoberta, acessando o ponto mais profundo e me mostrando que, embora já sido tocado, cada centímetro do seu corpo pedia certo cuidado, com paixão. Só pedia mais.

Quando então ela percebeu que estava chegando ao máximo, deitou seu corpo, até então numa cavalgada intensa e louca, sobre o meu, fazendo nossos movimentos ficarem ainda mais fortes. Puxei levemente seus cabelos e coloquei minha boca em seu ouvido...sussurrei: olha pra mim!

Olhamos então nos olhos, e não deu pra segurar...enquanto aumentávamos o ritmo rumo ao céu, ela também me segurou bem firme com suas mãozinhas pequenas e tão gostosas, quase que massageando meu rosto, e ofegante, entre nossos olhares penetrantes, implorou...
 - Por favor!



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Tragédia

“Existem duas tragédias na vida:
Uma é não conseguir o que o coração deseja 
A outra é conseguir”

George Bernard Shaw


sábado, 8 de fevereiro de 2020

Batida

Algo me puxa pra noite
Não sei bem do que se trata
Na verdade, eu sim, eu sei
Mas não tem como explicar

De repente eu estou lá
Vozes, sussurros e flores
A lua cheia brilhando
Música em todos os lados

Amigos estão aqui
Estão em outros lugares
Luzes se acendem, se apagam
O alcool nunca se acaba

Entre outras drogas do mundo
Fora do mundo, só Deus
Ele também tá aqui
Olhando por todos nós

A terra segue girando
Pela vibração da lua
Arco perto, chuva longe
Um dia minha vó disse

Nada de hoje deu certo
Tudo encaixou no final
Ao redor, pessoas boas
E a baixa vibe, adeus

Olho pros lados e gosto
Minha cabeça não para
Eu encontrei finalmente
Essa é a batida perfeita

Gente sorrindo e em paz
Gente falando demais
Gente dançando, seduz
Gente gozando sem luz
Gente que não fuma, está
Gente que aguenta e não quer
Gente que quer a saída
Gente que acabou de entrar
Gente que é bela e é só
Gente que só quer viver
Gente que há pouco era blues
E
Gente que nem quer saber

Saia e busque sua luz
Ela estará por aí
Dentro do seu próprio eu
Ache e seja feliz
Torço vir o melhor
Ainda não consegui.




quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

O túnel

A partir deste momento. Enquanto eu viver. Eu te prometo...

Segui pelas ruas ouvindo grandes declarações de amor sem a menor pretensão. Resolvi manter o rotineiro hábito, ainda que no corpo novo, e parei naquela boa e velha conveniência. A única que ainda existe, e que sobreviveu após estes longos e intensos (quase) quinze anos.
Uma coca. Dois sonhos de valsa. Uma água, porque agora sou adulto, e você sabe como as coisas são quando se é adulto.
Após uma leve manobra, na mesma rádio - ressuscitada da época - o clássico, Voyage Voyage. Ainda nem acredito que essa era a música mais tocada no dia que eu nasci. Bendito site.

Mais uma vez, desço a rampa. Desta vez, rumo ao outro lado da cidade.

Quando percebo, no meio daquela rua que - quase como uma artéria - corta e atravessa a cidade tal qual uma flecha, lá vem ela de novo. A máquina do tempo.

Entro em um túnel todo iluminado, bonito, as cores amarelas me trazendo junto a aquele som característico, uma certa transformação...

E ao sair...lá estou!

Naquela pracinha perto do hospital. O carro numa travessa escura, tudo muito silencioso à volta, quando de repente ouço uma voz doce e inocente, pura, limpa, quase não ouvida - ao menos nos últimos dez ou quinze anos - claro, a sua voz. Disse: põe aquela do Beethoven.
Começa então a canção da luz da lua, e num piscar de olhos, já estou no banco de trás.

Estamos.

Uau! A vida pode ser maravilhosa em qualquer época. Que célebre momento para se estar vivo...

Palavras se conectam. Sentimentos fluem e atravessam quilômetros, assim como gerações, até atingirem e penetrarem nosso peito, sem chance de defesa.
Que seja essa a única e mais autêntica forma de se expressar o que se sente, e de ler um ao outro, pura e simplesmente pelo fato de que você existiu. E como diria o poeta: em qualquer conjugação do verbo existir.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Time machine

Liguei o carro, desci a rampa e saí.
Chovia. Uma chuvinha de um típico verão em terra brasilis. Fina, porém firme, e constante. Não iria parar nas próximas horas.
Enquanto dirigia, sintonizei a rádio que mais gostava. Como o destino pôde ser tão generoso ao trazê-la de volta junto comigo? Penso...
Dirijo por entre as ruas e me sinto bem. Coisas vão ressurgindo, pouco a pouco, dentro de mim, a cada novo minuto.
Em um determinado instante, aquela mistura: Chuva sobre o para-brisa, limpador ligado em temporizador, indo e vindo pausadamente, música brega e fora de moda tocando, o cheiro do asfalto, luzes da cidade, as mesmas ruas, esquinas, travessas...
Olho para minha jaqueta e - uau! - já não é a mesma daquela época, naturalmente. Independente disso, esta noite ela parece tão, tão como a velha. Resgato em pensamento uma jaqueta jeans, que naquele meu corpo de vinte e cinco quilos a menos caía como uma luva. Me olho, e penso: o que tenho é o que tenho que ter.
Com esse mix incrível e sincero, vêm junto: sensações, desejos, fantasias e reflexões, oriundas daquele tempo em que as nuvens eram de algodão.

Definitivamente, encontrei a máquina do tempo.

Olho no retrovisor, e encontro alguém diferente. Os cabelos longos, a barba e a confiança, meus ombros largos tal como o pescoço, apresentam-me uma versão diferente de mim mesmo. Me permito encontrar-me com a versão de mim a qual sempre, sempre quis ser. Como poderia imaginar que um dia, de fato, isso iria acontecer?

Continuo dirigindo e o mundo é meu.

A noite nunca tem fim, e como nunca teve, ela continua aqui. Minha eterna companheira, que me acolheu por tantos e tantos momentos, mais uma vez, abre os braços para seu, pra sempre, súdito.

Possua-me e faça de mim o que quiser.

Nada parece mais meu do que essa incrível sensação de saber que eu sou quem eu sou, que eu posso e que vou, sim, ser eu mesmo, agora e então, sempre que eu quiser.
Assim, nessa de renovar a parte que deveria ser mudada, porém ainda sim resgatar tudo aquilo que trazia as melhores das emoções, todos os amores e paixões se mostram vivos.
É a vida, voltando ao normal, como se eu não tivesse o direito de escolher onde ou quando a máquina vai me deixar. Porém, sim, estou pronto para aceitar. E é quando a gente aceita, que tudo acontece.

Como, onde, quando e, principalmente, porquê, tudo deve acontecer.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Quando

Aqui, com minha velha companheira, a madrugada...ouvindo músicas tristes - o velho vício, de se afundar - até que, então, surge a tal frase:

"...But now, baby I need your love right now, I can't go on."

E a primeira coisa que me veio à cabeça foi aquele carnaval. Creio que foi há dez, talvez onze anos. 
Palco grande, um belo estádio, eu lá em cima, até que jovem, animando junto à banda cerca de dez mil pessoas na noite mais movimentada. Tempos bons, de vacas gordas em todo o país, e dos melhores carnavais. Engraçado essa lembrança vir justo agora, pertinho da mesma época, enfim...

O momento que me veio foi de uma baita música dançante, porém carregada de uma harmonia linda, romântica, e uma letra sincera. No auge da minha sensibilidade, tocava a música e olhava os rostos - principalmente das meninas, quase que natural - fechando os olhinhos e cantando a poesia, mão direita no coração, mão esquerda segurando a espuma, bochechas brilhantes, faixa na cabeça, shorts jeans curtinhos e uma expressão toda cheia de sentimento, tocada por aquela canção. 

E eu?
Bem...

Eu, nada. 

Me lembro bem que a música falava de saudade. Também me lembro como se tivesse acabado de descer do palco minutos atrás, do meu pensamento durante aquela "ponte" - para quem não sabe, o pedacinho de música entre a estrofe e o refrão - quando refleti e cheguei à seguinte conclusão: Que coisa...não sinto saudade de ninguém.

Como foi duro. Difícil, demais. Uma música tão bonita, tocando e emocionando tantas pessoas ali, uma letra doce, falando de saudade, e eu simplesmente não podia partilhar desse sentimento adequadamente.

E é como me sinto agora, guardadas as proporções. Sinto certas saudades, de fato, sim. Sentimentos, inclusive, que nem entendo bem o porquê de estarem aqui, existindo todo um lado cruel e sombrio do qual jamais desejo estar próximo na vida. Uma confusão terrível.

Mas é que...quando vem a música fatídica, de declaração, pra qualquer um cantar de joelhos frente ao seu grande amor, é que me vejo olhando para a letra e pensando: Peraí...eu não posso cantar isso. Cantá-la-ei um dia, porém não hoje, por não ser o que sinto. Porque não há figura na qual eu possa pensar, que me traga vontade, lá do fundo, de recitar uma música assim. 

Sabe, de verdade, é bem triste essa sensação de neutralidade perante às coisas. Prefiro o outro eu, sofrido, dolorido, agonizando. 

Olhar pra si mesmo, assim, tão frio, torna as coisas um tanto quanto sem graça. 

Mentalizo, então, meus braços abertos. E deixo que tudo venha. Sem me importar.

Quando.