terça-feira, 12 de maio de 2020

Todas são iguais

É, não adianta. Somos assim tão profundamente ligados que, mesmo que por um tempo tentando ficar longe, ainda que pela mais nobre razão, você sempre volta. 
Me chama. Me acorda. Me faz levantar e olhar para a escuridão de cada canto desse quarto, e então me lembra de quem você é. 

Mesmo na luz não há quem possa se esconder no escuro, já disse o cancioneiro popular. 

Então estamos nós, aqui de novo. Madrugada, vela acesa, céu de outono, e a boa e velha máquina de escrever com as folhas ligeiramente mal colocadas esperando o toque, hora carinhoso, hora feroz e selvagem dos meus dedos. Ah, meu amor, escrever em você é como ter lindas e longas noites inundadas de suor, que só terminam depois do café preto e da luz do sol a entrar pela janela.

Todas as noites são iguais, e o melhor continua sendo que, querendo ou não, todas são diferentes à sua maneira. 

E eu, que sou sempre o mesmo, assim também, jamais serei o mesmo. Porque, como me ensinou uma criatura terrível, megera e impiedosa (sobre a qual pensei na palavra bruxa, porém tenho profundo respeito pelas bruxas, então me abstenho): Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.

A primavera bem virá depois do inverno. 

Até lá, seguimos com reflexões que mais parecem um caminhante sem rumo. Que pura e simplesmente anda. Que vai. Não importando muito bem para onde nem mesmo com quem, mas olhando em volta e admirando a paisagem. Sentindo as mudanças na pele: brisa fria, vento forte, chuva fraca, sol ardente, sombra gélida, pouca vista, o crepúsculo. 

Chegamos. 

Olho então e contemplo a vista do pôr-do-sol do ponto mais alto da montanha. A lua, que é velha companheira, já veio colocar a mão sobre meu ombro direito. Me viro então e a vejo chegando, bela, imponente, toda sensual em seu caminhar pelo imenso céu negro. Observada com admiração e aplaudida pelas estrelas, cá está ela, a Luiza de Jobim, que agora e desde sempre tornou-se minha também. 

Na trilha sonora, o piano delicado de "Dezembros". Em tempos modernos, lmgtfy. Em tempos pós modernos, se tudo tiver sido levado e este for o registro físico, desejo aqui deste ano, do fundo do meu coração, que você encontre este disco e o ouça com atenção. 

Tudo isso, é claro, sem sair da posição. A cadeira ligeiramente inclinada, a taça de vinho em equilíbrio e trazendo equilíbrio também, as pernas esticadas sobre o canto da mesa por entre alguns papéis e, além da imaginação, nada. 

Mais uma noite igual as outras. Mais uma noite

Diferente. 

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