Eu sabia que aquela tarde de outono prometia. Sabe quando você sente aquela coisa? Que paira no ar, mas que também está dentro. Difícil explicar, mas tá tudo bem.
O que sei é que eu sentia e por isso resolvi arrumar tudo.
Olhei pela janela e o céu estava azulzinho, com aquela camada invisível que o faz diferente de um céu de brigadeiro, acrescentando os detalhes das nuvens espalhadas feito pintura. Apesar de qualquer crença, em silêncio, agradeci a quem quer que estivesse com o pincel.
Com tudo pronto, já era hora de partir. O coração batendo hora lento e profundo, hora acelerado e louco. Uma disritmia que vem de anos. Alguns dizem que é o remédio, mas que posso eu fazer? Conto na cabeça e já tem uma década desde que comecei...uau! Será que o bater profundo nunca foi amor?
Um dia saberemos.
Depois de algum tempo, porém sem demora, encostei com minha moto naquela rua. Sempre gostei de parar por ali e admirar o pôr-do-sol, principalmente nesta época. Aquele amarelo, que fica laranja, então vermelho, e segue lento, atravessava meus olhos e ia direto pra dentro como a canção que um dia você tocou pra mim, ali, no quintal daquela casa, com seu violão simples e sua voz suave, macia, afinada. Precisa.
E só porque era Abril e as coisas já estavam ficando bem frescas por aqui, vestia aquela jaqueta que você sempre gostou. Como mandava o figurino, os cabelos soltos, meio bagunçados, hora pelo chapéu, hora pelo capacete, os óculos e o sol se pondo refletindo em suas lentes também.
Até que você dobrou a esquina e eu esqueci completamente em quê estava pensando.
Charlotte, que de certo já conhece seu cheiro, também se impressionou. Desligou, por si só, pra que eu pudesse ouvir seu caminhar ainda que lá da beira do quarteirão. E assim ficamos, ali, os dois, atônitos, te vendo descer a rua e já sorrindo de longe.
Você brilhava.
E eu, bem...você me conhece. Nem tentei disfarçar. Tento manter o meio sorriso, misterioso, quando por dentro estou uma mistura de bobo apaixonado, babando, e feliz, eufórico. Você vindo em minha direção sempre, sempre vai mexer comigo.
Com uma flor no cabelo, e o batom vermelho que insiste em me conquistar, você - que não enxerga muito bem - demorou pra perceber que aquele vulto era o mesmo de sempre. Quando viu, sorriu. Me derreteu, de novo. Dentro de um vestido leve, coberto por uma blusa dessas de vó, que por alguma razão te deixam melhor que qualquer modelo caríssimo, jogou o cabelo pro lado do jeito que sabe que pode fazer em qualquer ocasião. Pronto pra eu pegá-lo pela nuca e tudo isso.
Você é bem bonita, né?
Pensei. Só pra você ler meu pensamento.
- Tá pronta?
- Sempre, meu bem. Vamos?
- Trouxe sua roupa!
Você sorriu:
- Então, pronto!
- Bom, agora tem 270 quilômetros de estrada pra pegar.
Duzentos.
E setenta.
Número cabalístico.
Liguei Charlotte, que também sorriu pra mim, como em cada ignição.
Agora vambora, que a estrada com você na garupa e suas mãos envolvendo minha cintura pode ser quão longa for preciso.
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