sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Wall of silence

How did I lose you along the way...?

I've seen that life
Touches us with pain
And we change
Becoming strangers to our friends
Tell me what happens along the way

I thought of us
Hard to talk these days
Did we change
Or were we strangers all along
Tell me what caused us to turn away

There's a wall of silence
Miles across
A wall between us
Holding back
Holding back our loss

I moved ahead
Thinking you'd be there
But it changed
And now we're strangers to our past
How did I lose you along the way

I've seen that life
Touches us with pain
And we change
Becoming strangers to ourselves
Tell me what happens
along the way
How did I lose you along the way

A virada

Sentados, os três, esperando o nascer do sol, após uma noite inteira de música, dança, todas as formas de amor e todas as drogas lícitas, também como as não, veio a reflexão e então a pergunta:

 - ...você acha que o sofrimento, ou os momentos de dor, te inspiram mais que os outros?

Como não há a menor dúvida da resposta, fui simples e tranquilo. Estava sentado no meio, então coloquei uma em cada um dos meus braços com carinho. A morena dos cabelos encaracolados e do sorriso aberto, encostou-se do lado direito. A branquinha feito atriz de um filme europeu, com seu olhar enigmático, se ajeitou no meu peito esquerdo, e então olhamos, os três, aquele sol começando a brilhar. Vermelho, ardido, queimando ainda que antes das seis.

 - Vejam esse sol...esse momento não é de sofrimento, é? Que coisa mais linda, há pouco havia um céu estrelado, uma pintura, e agora vem a luz. Uma brisa gostosa, essa natureza, o nosso calor...tá tudo muito bom, alguém tentou dizer. Qual é a chance de algum de nós sairmos daqui de onde estamos para entrar num quarto, apagar as luzes, acender o abajur e desabar sobre o papel?

 - Depende do que se tem dentro...

 - Exato!

 - As mais belas obras de arte, independente de qual forma de expressão, foram produzidas durante os mais profundos momentos de tristeza, solidão, dor e sofrimento. A alma grita lá do fundo que não aguenta mais, pede pra sair e, cada um à sua maneira, põe pra fora.

 - Você, com as palavras?

 - Um dos meus maiores sonhos era saber desenhar ou pintar como o nosso amigo Jonas. Infelizmente não tenho isso em mim. Contudo as palavras, e também a música, me ajudam a expressar toda essa dor e a viver melhor. Com e sem ela.

 - Então somente pessoas depressivas podem ser artistas de verdade?

 - Lembra do Tom, que "todo grande amor só é bem grande se for triste"? Há quem discorde. Não há mais bela forma de amar, que não, a arte. Você ama e odeia, em igual intensidade, de um jeito tal que ambos os sentimentos te rasgam e te destroem por inteiro. E no final, lá está a sua obra.

 - Que triste...

 - Aproveitemos o sol enquanto ele está vindo...porque é janeiro, e já sabemos, logo a chuva também vem.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Já vou

Fui. Vi. Vivi.
E por ter ido, e visto, e vivido.
É que quero mais.
Sento-me agora frente às águas
Busco refúgio
Piso no chão e finco
Reconheço
Raízes
Lugares
Pessoas.
Cheiros
Sabores
Prazeres
Amores.
Abraço e me deixo abraçar
Aperto forte
Tudo calmo em meio ao caos.
A natureza me envolve e me acolhe
Nem todos me acolhem,
Bem como esperado.
A mãe não falha.
A mãe e a filha.
Não falham.
Sinto cada vez mais a ânsia de ir
De novo e, desta vez,
Melhor.
Sinto que preciso ir ver
Ir, ver e viver.
Que tudo continua lá
E que nada me espera mas
Sim, eu
Busco e é só indo que eu sei
Que encontro.
O mundo lá fora, chama
E eu ouço sua voz.
Sem pressa ou qualquer plano
Eu apenas respiro.
Deixo a vida chamar e
Carinhosamente
Respondo
Mentalmente.
Já vou.

De repente

De repente...

Você não queria mais
Nunca mais
Não queria
Mais ouvir
Mais me ver
Nem pensar
Sequer, nisso.

Me disse pra ir
Seguir só
Como eu quis
Como estava
Como estou.

Mandou-me pra lá
Praquele lugar
Julgou-me, o pior
Culpou-me, e pior
Fez de novo
Tudo aquilo
De mudar tudo
A seu favor.

Justo quando eu
Pensei que não
Que não podia
Mais lutar.

Joguei a toalha
De uma vez
Achei por melhor
Desistir
E rastejar
Implorar
Desprezar a incoerência
Fingir que aquela maluquice
Nunca existiu
Deixar as lágrimas rolarem
Na sua frente
Abrir o peito
Rasgar a roupa
Despir o ego
E a dignidade
Para então, falar...

De repente

Não havia mais
Nada mais
O que dizer.
Nada
A fazer.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Baby I'm gonna leave you

Me lembro do dia que ouvi essa música, li esta letra, tão próximo estava o momento de partir. E o momento chegou. E aconteceu. E passou.
Então, certo tempo depois, no bom e velho balcão, lá está a música e com ela sua letra devastadora. Compartilho, então. Para a eternidade:

Babe, baby, baby, I'm gonna leave you
I said baby, you know I'm gonna leave you
I'll leave you when the summertime
Leave you when the summer comes a rollin'
Leave you when the summer comes along
Babe, babe, babe, babe, babe, babe, baby, baby
I don't want to leave you
I ain't jokin' woman, I got to ramble
Oh yeah
Baby, baby, babe, I believin'
We really got to ramble
I can hear it callin' me the way it used to do
I can hear it callin' me back home
Babe, I'm gonna leave you
Oh, baby, you know, I've really got to leave you
Oh I can hear it callin 'me
I said don't you hear it callin' me the way it used to do?
Oh
I know, I know
I know I never never never never never gonna leave your babe
But I got to go away from this place
I've got to quit you, yeah
Ooh, baby baby baby baby baby baby ooh
Don't you hear it callin' me?
Woman, woman, I know, I know
It feels good to have you back again
And I know that one day baby, it's really gonna grow, yes it is
We gonna go walkin' through the park every day
Come what may, every day
Oh, mama baby
I'm gonna leave you go away
It was really, really good
You made me happy every single day
But now
I've got to go away
Baby, baby, baby
That's when it's callin' me
I said that's when it's callin' me back home

domingo, 26 de janeiro de 2020

Consolo na praia

por Carlos Drummond de Andrade

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

O velho safado nunca erra

"olha lá
aquela por quem você pensou em se
matar.
você viu ela um dia desses
saindo do carro
no estacionamento do Safeway.
ela estava com um vestido verde
rasgado e com botas velhas
e sujas
com o rosto marcado pelo tempo.
ela te viu
então você se aproximou
e falou e depois
escutou.
os cabelos dela não brilharam
os seus olhos e sua conversa eram
um tédio.
onde ela estava?
pra onde ela foi?
aquela por quem você iria se
matar?
(...)
ao entrar no carro
você fica bem contente por
não ter
se matado;
é tudo uma delícia e
o ar está limpo.
com as mãos no volante
você sorri enquanto confere o trânsito
pelo retrovisor.
meu amigo, você pensa,
você se preservou
para uma outra pessoa, mas
quem?"

Charles Bukowski, no livro Maldito deus arrancando esses poemas da minha cabeça, parte do poema Mulher liberada e homem liberado

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

E se...

E se...por uma falha ou coincidência do destino...a louca teoria estivesse certa?
E se a energia dos planetas ao redor puxasse para lá e para cá, ajustando todo o movimento que nós costumamos chamar de vida?
E se sua vênus realmente invocar todo o meu ódio de um jeito que não quero mais te ver na minha frente?
E se minha lua e meu ascendente me fazem, assim, tão profundo e puro como eu sempre fui?
E se a combinação de sol e ascendente dela fazem toda a diferença de modo que, tal forte a combinação, gerara essa explosão de sintonia que eu nem estou sabendo como lidar?
Eu sei - e esse é o meu maior orgulho - não sabemos de nada. E é por não sabermos de nada, que estamos assim, sempre procurando respostas, não importa de onde venham. Procuramos qualquer explicação para que nossa vida pareça, assim, menos medíocre. O possível.
E é quando cruzamos as informações e vemos que, por mais que insistamos, tudo é mais forte do que nós. Não temos - nem nunca sequer tivemos - o controle. Tentamos indubitavelmente manter a compostura quando, na verdade, de nada sabemos e isso altera todo o ciclo daquilo que acreditávamos ser verdade.
Onde é que estará o tal do poder?
Definitivamente, não está em nossas mãos. Então pra que se apressar? Pra que, ó, Deus, se preocupar?
Por um segundo mais feliz, já dizia a poeta.
Olho ao meu redor e vejo que o amor está no ar. No mar. Na lua. No céu. Nas estrelas. Nas ruas. No chão. Na minha pele. Na sua. Em todo lugar. Procura a lua no céu que eu te mostro de fato onde está o amor, meu bem.
O amor existe.
E se...na verdade, qualquer busca por entendimento fosse, no geral, uma eterna perda de tempo, uma loucura, um devaneio, jogando-nos exatamente para o mesmo lugar. Sempre e por todo o sempre.
E se a gente pudesse mesmo escolher...será que a gente escolheria? Ou será que, sabendo do fim, faríamos simplesmente deixar as coisas rolarem até que, um dia, num tempo certo, tudo acontecesse. E ao passo que sim, no mesmo tempo, então, tudo se acabasse.
Será que teríamos os mesmos problemas que insistimos em ter?
Talvez não.
Definitivamente, eu acho que não.

sábado, 18 de janeiro de 2020

Na veia

Escrever é dor
Poesia é dor
Palavras são gritos
Versos são mutilações
Que rasgam o papel
Em vez de a própria pele

Quando penso, dói
Quando escrevo, dói
Quando choro,
Ainda dói.
Depois, alivia
Quando escrevo, alivia

E a lágrima, que doía
Seca.
E a dor que doía
Cessa.
Só mesmo as palavras
Que vivem
Pulsam
Correm e atravessam
As veias.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Pena [2]

De repente, lembrei daquele dia...
E agora, que a brisa finalmente parece estar passando...definitivamente...profunda e conscientemente...*
Era a mais bela cidade. A mais bela que eu já vi, nem mesmo nas fotos que, um dia, poderão superar. - talvez até por isso minha atual ânsia de ir ver o mundo, quase como uma tentativa de provar pra mim mesmo que há, SIM, coisas incríveis cujas quais nem faço a menor ideia.
Pois bem.
Aquele era um dos primeiros dias de primavera após o famoso - até então, desconhecido - longo e tenebroso inverno. Caramba, como foi difícil superar todos aqueles dias de temperaturas negativas, céu escuro por dias e uma terrível luta contra si mesmo.
Mas aquele dia...ah, aquele dia. Estava lindo demais!
Um céu azul, não de brigadeiro, mas com traços de nuvens feito pintura espalhados pela tela azul. A temperatura quase que ainda era negativa, eu diria dois ou três graus positivos, se pensasse hoje. Não me lembro bem.
Estávamos eu e ela, aproximadamente à uma da tarde, ali sentados, naquela praça. Um sol nada ardido no céu, amarelo claríssimo e que não esquentava de jeito nenhum.
Era uma praça tão bonita, no centro da cidade velha, onde velhinhos sentavam nos bancos, just as we did, e jovens andavam ao passo que faziam manobras com seus skates na parte mais baixa. Havia todas as árvores que ainda haveriam de florescer e de ficar lindas mas, só por esses dias, ainda estavam secas e apáticas como foi todo aquele inverno.
Em nosso banco, os dois, sentados, apenas com os braços entrelaçados. Você me dava seu braço direito e eu enroscava o meu esquerdo, enquanto o meu direito vinha e segurava o seu, apenas pra dar mais firmeza, pra reforçar o que já sabíamos ser real.
Estar ao ar livre depois de tantos e tantos dias, mesmo com um ar frio e todas as nossas blusas, de fato, não parecia tão ruim. Pessoas andavam pelas ruas e também passavam com seus patinetes elétricos, tendência na época. Olhávamos com carinho.
Enquanto eu pensava em como seria bom ter aquilo para o resto da vida, ela apenas pensava no seu próprio filho, adolescente como os skatistas, que estava longe. Enquanto eu vislumbrava uma maneira minimamente dolorosa de dizer que aquilo era o que eu queria para o resto da minha vida, ela apenas pensava que, daqui a pouco, deveria ligar para seu filho e garantir que o mesmo não fizesse nenhuma besteira ao sair da escola. Eu ali. Ela lá. Sempre lá.
Estava tão bonito aquele sol sobre nosso casaco. Aquela luz por entre as árvores tentando fingir que nos aquecia e a gente só pensando tão, tão diferente.
Uma pena.
No fim, deu fome, e resolvemos comer. E essa parte foi tão ruim, que não vou escrever pra não quebrar o clima do meu próprio romance.
Andar por aquelas ruas sempre foi tão incrível, que às vezes nem acredito, que tudo foi como foi. Poxa vida, mas que pena. E isso é só o que posso dizer, já que muitas vezes, infelizmente, a vida parece não ter conserto.

*no fim, só achei que estaria passando. Continuo com lágrimas no rosto, pela tristeza das coisas que não têm solução.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Começo, meio e fim.

A vida tem sons que pra gente ouvir
Precisa entender que um amor de verdade
É feito canção, qualquer coisa assim
Que tem seu começo, seu meio e seu fim

A vida tem sons que pra gente ouvir
Precisa aprender a começar de novo
É como tocar o mesmo violão
E nele compor uma nova canção

Que fale de amor
Que faça chorar
Que toque mais forte
Esse meu coração

Ah! Coração!
Se apronta pra recomeçar
Ah! Coração!
Esquece esse medo de amar de novo

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Abril de 2017

Me lembro como se fosse hoje, daquela noite que não teve fim, daquele dia que começou e só acabou dois dias depois.
Vou preferir me abster apenas à parte em que tudo começou para mim, já que não faz mais sentido misturar as coisas. Se o passado já passou, Zé Ramalho nos ensinou: conte pras amigas que tudo foi mal.

Pois tudo foi, de fato, muito mal.

Desci as escadas correndo. Quase não acreditando.
A mala nas mãos que eu não podia arrastar, mas que, pesada que estava, maltratou meus braços - os dois - me trazendo o quase alívio ao chegar no térreo, o chão.
Abri a porta sem pensar,
Lá fora? Neve. Com 10 abaixo de zero. Tudo branco pelo chão e com a neve caindo sem cessar.
Segui em frente pois àquela altura já sabia o caminho.
Confesso, não foi fácil.
Atravessei aquela praça toda branquinha e bonita com a maior das dores no coração. Mal sabia eu - agora que escrevo quase três anos depois - o quanto ainda iria vir a sofrer. Porém, pra mim, aquela era a pior dor do mundo.
Não foi. Mas essa é outra conversa.

Cheguei com certo esforço na estação e entrei. Ainda tinha algum crédito no cartão do metrô então apenas entrei rumo à estação central. Me lembro vagamente de ter parado frente à catraca antes de entrar e ter olhado meu telefone celular por um último momento esperando por algum sinal de vida. Sem sucesso.

Desci.

Entrei no metrô e estacionei a mala entre um dos bancos que sentei. Não havia ninguém sendo mais de uma da manhã, por isso sem preocupações.
Cheguei à centralstation e subi os diversos lances de escada que me levariam para qualquer lugar. Ao chegar na cabine, perguntei: como faço pra ir até o aeroporto?
 - Suba aquela escada à esquerda e, logo à esquerda haverá o ponto de ônibus. Pegue o ônibus 57 rumo ao aeroporto.
Anotou no papel: 57. Nunca vou me esquecer. Obedeci.
Subi as escadas como quem foge da cruz - de fato, era o que era - e, ao chegar no nível da rua, olhei pra esquerda e lá estava. O cinquenta e sete chegando e encostando.

Subi no ônibus e então segui.

(neste momento que escrevo, começa a tocar uma música local, três anos depois. It must have been love...but it's over now)

Liguei para minha mãe. Chorando. Choro agora ao escrever enquanto lembro do quanto me doeu contar que estava sofrendo e que não sabia o que fazer. Logo eu, que sempre achei que sabia de tudo. Que saudade de ser jovem, do tempo em que sabia de tudo.

Ao chegar no aeroporto, ainda estava cedo. Me lembro que cheguei antes das duas, tal rápido e eficaz é o serviço. Ainda que o aeroporto só abrisse mesmo depois das cinco. A noite seria longa.

Tomei o café mais caro e mais forte da minha vida. Uma porrada no peito. Um tiro.
Ainda se tivesse bebido...

Após as cinco e pouco, comprei uma passagem a um preço absurdo rumo ao Brasil. No próximo vôo, às 6h30, CET.

Corri para o portão de embarque, tirei meu celular do silencioso e fiquei naquela fila, não tão grande, esperando o mesmo vibrar, segundo a segundo.

Nada.

Segui em frente e passei pela segurança. Que bom que não ofereço qualquer risco.

Sinceramente, não me lembro muito bem do primeiro vôo. Não sei porque. Talvez por já conhecer Amsterdã, sabia que não seria um grande problema, então apenas segui. Me lembro de ter visto a cidade de cima, pela manhã, e de ter achado maravilhoso. Ainda não tinha a visto dessa forma.

Atravessei o aeroporto na velocidade da luz. Parei em frente a uma máquina, dessas de refrigerante, próxima ao portão de embarque. Comprei algo pra beber que não me lembro bem.

Atendi o telefone e era ela. A única razão pra eu ter fugido de um país pela primeira vez:
 - Meu Deus! Cadê você?
 - Você me mandou embora e eu fui
 - Recebi uma mensagem. Você está em Amsterdã. Por favor, volta pra cá
 - Não posso, não sou bem vindo aí, você não me quer mais
 - Por favor, volta, ainda dá tempo
 - ...

Já era quase a hora do embarque. Então, embarquei.

Entrei no avião rumo a São Paulo. Sentei na terceira poltrona ao lado de um casal. Cujo qual não me lembro do rosto, infelizmente.

Foi só o avião subir, que eu desabei. Comecei a chorar compulsiva e desesperadamente.
Chorava de soluçar.
Tentei colocar os filmes, tentei colocar uma música, escrever no celular, jogar joguinhos, encostar no banco e engolir o choro, meditar.
Impossível.
E o casal, coitado, sem intimidade, não sabiam o que fazer para tentar me acalmar.

Assim, foram 11 horas.
ONZE.
Não dei conta de comer. De beber. De aproveitar nada do que o voo me oferecia.
Mas chorar, eu garanto, chorei bem.

Por, talvez dez, das 11 horas do voo.

Desci, então, no meu país, e sabia que estaria sozinho. E assim foi. Taxi, ônibus, tudo. Sozinho.

Se eu soubesse que tudo iria se desenrolar desta maneira, ah, quanta coisa não faria diferente.

O resto, ainda conto uma outra hora...a dor de agora vinha até aqui.

E será que é pouca?

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Boa noite.

 - Alô?
 - Oi
 - ...
 - Tava dormindo?
 - Tava
 - Desculpa, volta a dormir então
 - Agora já acordei...uhn...fala
 - Desculpa, só queria te ouvir um pouco
 - Às quase três da manhã?
 - Até onde eu sei não tem hora pra essas coisas, tem?
 - Ah, Neto, pelo amor de Deus, né?
 - Quero te mostrar uma coisa que eu escrevi também
 - Não pode ser sério
 - Te falo a primeira frase, se for horrível, pode desligar na minha cara
 - Você sabe que eu não consigo
 - "Não consigo mais viver sem o tom da sua voz..."
 - Agora é hora pra xaveco?
 - Já comecei...
 - ai hihihi, desculpa
 - Você é uma filha da puta de uma insensível
 - Continua, Neto, caramba
 - É só isso, mesmo, você continua mexendo comigo
 - ...
 - Era isso, agora já ouvi sua voz, seu riso, sua bronca...acho que já posso dormir bem
 - Dorme...dorme bem


domingo, 12 de janeiro de 2020

Resquícios

Mesmo com o barulho da chuva na janela de metal e o clima fresco, não teve jeito de pregar o olho naquela madrugada.

Levantei, acendi um ou dois abajures e caminhei pelo corredor rumo à cozinha. Parei naquele pedaço de cômodo que chamam de ante-sala e coloquei o single do Life on Mars na vitrola. Já que não ia dormir, ao menos me permiti sentir um pouco do que sentiam em 1971. 

Encontrei um refresco qualquer na geladeira e, em vez de voltar para o quarto e seguir olhando para os finos feixes de luz em meio ao som das gotas finas madrugada a fora, sentei-me na velha máquina de escrever. 

Olhei calmamente para a organização da minha mesinha e, enquanto respirava fundo e acendia um incenso, lembrava com carinho e uma tristeza estranha, do tempo que costumava escrever tanto sobre paixões. De todas as paixões que inventei só pra poder escrever. Daquelas que inventaram de ser minha paixão e, meu Deus, como pude escrever pra elas. 

Desde os poemas mais viscerais até as mais sarcásticas crônicas, dos trocadilhos e brincadeiras mais divertidos aos, tão puramente, orgásticos contos. Reais ou não, só cabe realmente aos que um dia os lerem. 

Talvez no fundo eu saiba que isso não acabou. Que a fonte não secou e nem há de secar. 

Mas hoje, sinto um certo vazio ao redor e, principalmente, no interior de mim, que o Bowie até acabou de cantar e foi consumir seus favoritos no camarim ao lado, e eu ainda estou aqui, na mesma posição: sentado na cadeira confortável, de pernas cruzadas, respirando fundo e contemplando este imenso nada pesando sobre meus ombros e me impedindo até de, veja só, colocar a folha. 

Penso então naqueles que costumava ler, lembro-me da inspiração para os momentos de branquidão mental. Já fui bom em tirar leite de pedra, de fato.

Porém, hoje depois de alguns anos, acho que fiquei bom também em uma outra coisa: respeitar os meus limites. E talvez essa chuva esteja querendo dizer muito mais para mim do que eu quero, de fato, dizer para a folha.

Tem horas que é melhor não dizer nada.

Na maioria das vezes, inclusive.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Aguarde.

Este texto foi escrito no dia 29 de dezembro de 2015, e só foi publicado na data de publicação do post por razões que a vida há de justificar.

Tudo chega com muita força, intensidade, profundidade. Cada cena, cada gesto, palavra e canção, provoca verdadeiros fenômenos. Engolem tempestades, furacões, terremotos e tsunamis. Tudo vem como uma explosão no vácuo de dentro pra fora.
Reflito, mas não respiro - não direito como deveria, pelo menos. Ouço, mas presto a atenção apenas seletivamente, viro a chave, passo a borracha, mudo de direção.
Mudo as regras.
Ao próprio bel prazer, dito as condições. Não engano, convenço. Não mando, proponho três ou quatro alternativas - todas boas [para mim] - e assim dará certo.
Não faço favores, faço trocas, claro, quando quero. Apareço e bebo aquele uísque, o que quiser, ou o que puder, afinal, esse vai ser o que eu vou querer, então dá na mesma.
Não sou um monstro. Não me tornei um monstro. Nem ontem, nem hoje ao longo do tempo. São apenas pontos de vista.
Um jeito diferente de contar a história, neste rascunho.
Porque ainda bem novo reparava em tudo. E notei subitamente que existe gente que manda e existe gente que obedece. Existe gente que é, e existe gente que tem. Existe gente que não é, que não tem, mas que parece. Então notei que dá pra escolher em que lado se quer estar, e que dá pra mudar - até várias vezes ao dia! Como será que ele consegue? - e ninguém vai fazer nada a respeito. Muita gente vai se incomodar, naturalmente. Mas essa gente não tem boca pra nada.
Não consigo superar gente que não tem boca pra nada. Chamam isso de gente simples, mas sabe, bobagem. Ser simples não é isso. Se você não é capaz de dizer não, então não está preparado para a vida.
Não consigo superar gente despreparada para a vida.
E faço deste documento um rascunho, pois vivemos em tempos que toda opinião é perigosa, que olham seus links, seus blogs, sites, pages, até para avaliar se você é um bom partido. Imagina pra algo pior?
Libero quando sentir que posso. Talvez, quando eu for alguém melhor do que sou hoje.
E isso pode demorar.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Welcome, Princess

(escrito em 5/7/2017, agora publicado em segurança)


Não penso que devo te pedir desculpas.
Ainda sim - e embora não seja exatamente a sua hora de entender - você merece explicações.
Nem sempre corri atrás dos meus sonhos. Por algum tempo - e que tempo valioso! - passei a vida realizando os sonhos dos outros. 
Pra pular todos os detalhes que ainda te darei pessoalmente, se você perguntar, é claro, comecei a realizar meus sonhos quando comecei a ter dinheiro. E apesar de isso ter ocorrido precocemente, e apesar ainda de parecer trivial, significou muito mesmo que com tão pouco. Porque meus sonhos eram daquele tamanho, naturalmente, pela pouca idade, pouca experiência, ótica limitada e coração aberto.
Hoje não tenho mais dinheiro. Para não parecer vítima, sim, tenho algum dinheiro, mas não o que tinha e nem com a proporção que o mesmo vinha. Só que agora, aprendi a olhar para meus sonhos.
Você foi um grande sonho. Realizado, graças a Deus e a toda essa energia maravilhosa que Ele me deu sem merecer um tostão. Você iluminou a minha vida e mudou tudo para muito melhor.
Você, sendo isso paradoxal ou não, me trouxe mais sonhos. Sonho ainda mais bonitos, ainda maiores, mais vívidos e cheios de energia e bondade. Você é um sonho lindo que me fez acordar para sonhos ainda mais lindos.

Sempre fui um velho preso em um corpo de menino. Depois, de moço. Depois, de jovem. Agora, de adulto. Continuo sendo um velho ranzinza e chato, intolerante, egoísta e trapaceiro. 
Entretanto, tudo o que o mundo e suas agruras me tiraram, você me trouxe de volta. E isso inclui a coragem de arriscar e não ter medo de ser ridicularizado. Ser ridículo não é nada ruim, mas a primeira condição um dia começa a te assustar e - se você deixar - te apaga pra sempre.
Que bom que você chegou pra me mostrar que nada é pra sempre.
Exceto a gente.

Agora a parte formal e importante que demorei tanto a chegar, pra variar. Com sua chegada, com a chegada da coragem, dos sonhos, e com a minha vinda de volta (agora entendo o que é estar de volta para o futuro) eu tive que ir. E fui. 
Viver o que vivo requer fibra e paciência, entre tantas outras virtudes. Acredite, a jornada é admirável, e o preço é alto. 
Isso porque vi que os sonhos mais bonitos que poderia realizar não podem ser comprados - perdoe o clichê, mas isso é tão, tão válido - e que não há tempo a perder. Não perca seu tempo, invista seu tempo, transforme seu tempo e assim se transformará também.

Na hora certa, no meio da jornada, eu estarei aqui. Eu estarei lá. E já posso sentir o abraço sincero de quem superou o mundo e atingiu aquilo que eu sequer imaginei. Não tão novo.

Welcome to the real world.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

So long

Às vezes, tudo o que a gente quer, é continuar.
Ainda que tudo em volta nos diga que não.
Mil forças nos levam a caminhos diferentes
Mil frases dizendo, esqueça o passado
Deixe-o onde ele deveria sempre estar
Mas afinal, por que?
Não há certo ou errado nessa cartilha
Não há vitória ou derrota nesse jogo
O jogo acabou
Então quer dizer que qualquer revanche
É desnecessária
Sigamos, pois bem, para uma nova chance
Uma nova vida
Uma nova tentativa
De viver algo diferente de tudo
Encontrar algo assim
Que lhe faça sorrir por si só
É possível achar
É possível enxergar
Novos horizontes.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Milhas e Milhas

As lágrimas que correm no seu rosto agora
Escondem a indiferença que sentias por mim
A vingança não existe em meu coração
Mas não te quero mais
Sei que você espera um dia voltar pra mim
Sei também que seu jeito é irresistível sim
Vou ser claro nessa canção que fiz
Não te quero mais

Estou milhas e milhas distante
No solo lunar
À procura incessante de um novo olhar

E os dias vão passando e eu me sinto bem assim
A solidão em fim não é tão ruim
Eu espero que sejas feliz

Não te quero mais

Estou milhas e milhas distante
No solo lunar
À procura incessante
De um novo olhar

sábado, 4 de janeiro de 2020

De novo

Oh, céus, por Deus...

De novo essa música.
Esses pensamentos ocupando minha cabeça
Encharcando-me os olhos
Travando minha língua no céu da boca
Inflamando a garganta
Apertando o coração
Acelerando os batimentos
Diminuindo os batimentos
Queimando o esôfago
Corroendo o estômago
...

Por que é que isso ainda está acontecendo? Já não era hora de parar?

Como - e ainda bem que - existe o dia seguinte, a manhã seguinte, o recomeço, hoje acordei com os pés ainda mais fincados no chão. Toda a estabilidade e sensatez que posso ter, no auge dos seus 7 porcento. SETE.
Tive que olhar novamente aquelas fotos, agora com o olhar mais calmo e tranquilo, para em vez de sentir saudade, lembrar de como aquele tempo era horrível, horrendo, ameaçador, sufocante, estressante, violento, assassino, descontrolado, instável, perigoso, uau...!

Engulo em seco.

Olho a primeira foto e me lembro de todo o ambiente externo fazendo pressão para, pouco a pouco, me fazer morrer.
Na segunda, a vontade de vomitar que quase não seguro, ao ver aquele ser terrível que, não fosse eu mesmo sair tão abruptamente, quase destruiu todos os meus sonhos para sempre.
E na terceira, porque três sempre é demais, analiso as conexões que me fazem mais uma vez vestir a máscara de imbecil.

Porque tudo era e sempre foi uma mentira. Um grande conjunto de manipulações, jogos e trapaças, caras e choros, que levaram - e se eu deixar, levam - a situação para onde quer que ela desejasse.
Sinto certa chateação, um amargo na boca, misturado com todo o coquetel de sensações já descrito, somada com essa imagem de fracassado, enganado, humilhado. A famosa cara de gol contra. Ao perceber pequenos nuances de uma história que existiu de maneira tão articulada e dissimulada, que de todo coração, talvez fosse melhor se nunca tivesse existido.

Então quando não dá para apagar, e já que nunca dá, é melhor tentar ver as coisas sob um outro aspecto, de um outro ângulo.

Que eu não faço a menor idéia de qual é.

De novo.


sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Alta concentração

Quando tento analisar a situação, assim, de maneira racional e imparcial, há um gatilho do qual tenho uma incrível dificuldade em me desvencilhar.

O da vítima no lugar do vilão.

Explico.

O discurso de inocência foi de estratégica montagem e manipulação a ponto de me fazer crer, quase de maneira inegável, ser real, puro, sincero. As armas e métodos utilizados foram tão eficazes que inseriram tal discurso em minha mente e em meu coração, de modo, assim, tão bem feito, que deixa até hoje suas marcas e cicatrizes. 

Sei que pode parecer confuso.

O que, sim, também sei, é que se eu não tomar todo o cuidado comigo mesmo, posso voltar às suas garras facilmente. Às garras do lobo na pele de cordeiro, falando no melhor português. 
É realmente estranho explicar.
Mas quando penso em certos momentos, fatos, histórias, conexões, ideias, quase que automaticamente a isento de qualquer culpa, de qualquer maldade. Inconsciente e impulsivamente a ponho no pedestal da premissa de que, não, não é possível que tenha existido aquele tipo de malevolência.
Pois, sim. Quando retorno ao meu estado normal - e essa é a parte que mais me incomoda: a bendita inconstância - vejo que, meu Deus, estou sendo manipulado sem nem mesmo estar perto.

A dose do veneno, desta vez, veio em altíssima concentração.

O momento então agora se concentra em pensar em como, onde, ou quanto tempo, será necessário para fazer uma limpeza.

É preciso drenar isso de mim. Porque embora não mais apareça tão constantemente, eu e eu mesmo sabemos que ainda está aqui. Correndo em minhas veias ou alojado na minha cabeça, em algum lugar - vou lá saber? - que, vez em quando, surge. E que se eu não me cuidar, pode me destruir, dada a força e potência da dose.

Como encontrar o antídoto? 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Pena

Ainda que mais leve, a sensação ainda continua.

É estranho.

De uma maneira irracional me conduzo a pensar que tudo seria maravilhoso.
Me vêm à mente os sorrisos, momentos leves, certas descontrações onde a vida parecia boa. De fato, pode até ser que fosse, tento não julgar.

Contudo, agora que a intensidade está menor, que a onda parece ter baixado, ouvir Nazareth não consegue puxar pra fora nem mesmo uma lágrima...ufa! Estou em uma região segura, ou ao menos, assim me sinto.

E ao passo que quando este sentimento chegou eu estava em prantos limpando meus olhos enquanto batia as teclas, hostil e feroz...hoje sinto uma certa dor diferente de se descrever.

A dor da pena.

Porque no fundo, de verdade, sinto que tudo isso é uma pena. Uma pena as coisas terem acontecido como aconteceram e terem sido, assim, tão doloridas e cruéis para todos os envolvidos, de todos os lados.
É uma pena porque tudo o que foi feito, definitivamente, foi pensado pra dar certo. E que se tivesse dado, teria sido aquele futuro lindo, que nem mesmo eu sabia onde poderia dar.
É uma pena que não tenha sido nada disso.

Desprezando o sentimento de derrota e a vergonha e humilhação de me sentir um perfeito otário em meio à situação - o que não deixa de ser mentira, mas que já nem importa tanto agora - sinto que essa divisão dos caminhos em dois, a certa altura da história toda, e por mais necessária que tenha sido, manchou pra sempre a história e apenas endossou tudo aquilo que já estava envenenado há certo tempo.

Por Deus, mas que sensação horrível.

Foi só acessar alguns lugares um pouco diferentes na memória pra que as lágrimas naturalmente se secassem e o amargo na garganta desse lugar de volta à minha - ultimamente - constante cara de: ué?
Escrevo este texto como registro ignorando meu impulso constante de rasgar a folha, enquanto repito os versos que ouvi nessa tarde e vieram direto na jugular:

"(...) é uma pena
Mas você não vale a pena
Não vale uma fisgada dessa dor
Não cabe como rima de um poema
De tão pequena"

Que pena...