domingo, 24 de julho de 2022

Diversão

A vida até parece uma festa
Em certas horas isso é o que nos resta
Não se esquece o preço que ela cobra
Em certas horas isso é o que nos sobra
Ficar frágil feito uma criança
Só por medo ou por insegurança
Ficar bem ou mal acompanhado
Não importa se der tudo errado!

Às vezes qualquer um faz qualquer coisa
Por sexo, drogas e diversão
Tudo isso às vezes só aumenta
A angústia e a insatisfação

Às vezes qualquer um enche a cabeça
De álcool atrás de distração
Nada disso às vezes diminui
A dor e a solidão

Tudo isso, às vezes tudo é fútil
Ficar ébrio atrás de diversão
Nada disso, às vezes nada importa
Ficar sóbrio não é solução

Diversão é solução sim
Diversão é solução pra mim


Poesia de Nando Reis e Sérgio Britto. Porque há momentos em que os outros dizem aquilo que a gente gostaria de tê-lo feito. 

Despertar

Hoje li algo.
Não dei conta de abstrair. Processar. Engolir.
O que acontece é que...
Existe um perfil.
De pessoas que foram humilhadas desde cedo. Às quais sempre foi declarada sua ignorância e incompetência, as colocando em uma posição de submissão, incapacidade e até obediência. 
Por essa razão, não é qualquer terapia que irá resolver.
Não.
Pois a tendência é sempre desafiar, questionar - às vezes, até, de maneira arrogante e insolente, mesmo que - como mecanismo de defesa em relação ao trauma.
E aí, o resultado, é que a pessoa não se coloca como apta ou disponível para o aprendizado, qualquer ele que seja. Em resumo: o indivíduo não aceita facilmente que alguém seja autoridade sobre tal, e em virtude disso, aos poucos se fecha a qualquer lição.
Que coisa mais dolorosa quando se está envolvido.
Porque, de verdade, é péssimo estar nessa posição. Ser vilão cansa demais e conforme a idade vai vindo, fica mais e mais difícil manter o personagem.
Caramba, que bagunça.
Tá bem difícil dar conta de se consertar.

domingo, 3 de julho de 2022

Supermercado

Ainda ficou um pouco
de teu cabelo no travesseiro
de teu corpo no meu corpo
de teu cheiro

um pouco da tua colônia
em alguns vestidos meus
ficou no meu cotidiano
um gosto bobo de adeus.

Ficou um resto de shampoo
no teu frasco no banheiro
de tudo ficou um pouco
de teu jeito, de teu cheiro.

Ficaram umas coisas tuas
espalhadas pelo quarto.
Ficou teu riso marcado
na moldura no retrato.

Em tudo ficou um pouco.

Ficou nosso jogo de damas
(eu branco, você preto)
intacto no sofá-cama.

Alguns discos teus, alguns livros
na parede atrás da porta
a gravura de Dalí
e tua natureza morta.

Um pouco de teu silêncio
se espalhou pela casa
tua xícara de porcelana
verde e branca, sem a asa.

De você ficou um pouco
do trem daquela viagem
do nosso jantar chinês
da nossa camaradagem.

Ainda ficou tua letra
em alguns papéis amassados.
Em tudo ficou um pouco
na rua, no supermercado.

Ficou um pouco de você
no mar, no rio, na serra
na estrada da casa de campo
na pedra, no gato, na terra.

Ficou um pouco do teu rosto
no rosto dos meus amigos
ficaram palavras tuas
em tudo aquilo que digo.

Eu fiquei com o teu jeito
de querer falar primeiro
teu corpo no meu corpo
cabelo no travesseiro.


de novo, ela, Bruna Lombardi.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Melodrama

Eu sou uma mulher espantada
o amor me molha toda
me deixa com dor nas costas
ele diz no fundo gostas
no fundo ele tem razão

o amor tinha de ser
mais uma contradição
tinha de ser verdadeiro
confuso e biscateiro
como em toda situação

tinha de ter remorso
e um querer e não posso
e toda essa aflição

tinha de me dar pancada
e eu cantar não dói nem nada
com um radinho na mão

tinha de fazer ameça
que é pra poder ter mais graça
como toda relação

tinha de ser dolorido
rasgar um pouco o meu vestido
depois me pedir perdão

e como em todo melodrama
terminar na minha cama
até por falta de opção.


poema de Bruna Lombardi, e provavelmente uma chuva dela aqui, porque é simplesmente de perder o fôlego