terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Número da sorte

Resolvi tomar aquela chuva
Ora, chuva
Uma chuvinha
Sempre tive muito certo como a chuva
Quando bate no meu rosto
Me incomoda
Mas não hoje, por Deus, hoje não

Caminhei algumas quadras
Pra encontrar Mariazinha
Desfrutar dos seus prazeres
Beber do suco, chupar a fruta
Enquanto penso só na lua
Me lambuzo, bem taurino
Mando uma mensagem 
Digo
Vem me ver

E não é que ela vem mesmo?

Celebrar da minha sorte
A nossa sorte
Estamos vivos, e vivendo
Estamos tendo muita calma
E paciência
Porque amor, só, não é tudo
Mas amor só, ainda é pouco

Imito Clarice, e assim digo
O que eu sinto ainda não tem nome

Por dentro, organizo a casa
Arrumo a confusão, a bagunça
Tiro o lixo, que semana a semana
Acumula
Porém sei, tenho tentado
Deixar tudo bem limpinho
Que é pra lua dormir bem
Que é pra eu dormir bem, também.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Não tenho tempo

Poema de Zeca Baleiro, pra lembrar que nem o medo, nem o tempo, são alheios a mim.



Eu não tenho tempo
Eu não sei voar
Dias passam como nuvens
Em brancas nuvens
Eu não vou passar

Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
Eu não sei voar

Eu tenho um sapato
Eu tenho um sapato branco
Eu tenho um cavalo
Eu tenho um cavalo branco
E um riso, um riso amarelo

Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
De me ouvir cantar

Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
De me ver chorar 

Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
E eu não sei voar

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Ensaio sobre a ingenuidade


Fazia tempo

Que não recebia, em visita

Tamanha tristeza


As dores no corpo

E também na cabeça

O choro incessante 

Deitado na cama, em posição fetal

Tentando entender

O porquê de coisas que não têm porquê 


A cama mudou

Também o hemisfério 

A vida tentou

E tentou, e tentou

Até conseguir, de uma vez, me mostrar

Como dói ser sério

E quão caro é o preço 

Da ingenuidade 


Entregar-se todo, transformar o mundo

Nunca foi bom plano

Por que panos limpos?

A troco de quê?


Se tudo ao final será má surpresa


A segunda vez é ainda pior

A queda em vertigem me roubando o ar 

Já que, só a subida, era um salto de fé


Agora o adeus

Que achei que seria difícil dizer

Foi silencioso 

Com palavras falsas

Choro vergonhoso

De quem sabe a culpa

De que vale a culpa?


Agora que não dá mais para mudar. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Conflito - O retorno

 por Fagner, de Petrucio Maio / Clodo



Ai, meu coração que não entende
O compasso do meu pensamento

O pensamento se protege
E o coração se entrega inteiro, sem razão

Se o pensamento foge dela 
o coração a busca, aflito

E o corpo todo sai tremendo, 
massacrado e ferido no conflito




terça-feira, 22 de novembro de 2022

Pintura

Fiz meu café sem vontade

Nem de beber

Nem de viver

Limpei a sala e a cozinha

Tirei tudo de mau que havia

Olhei pro lado e me vi tão triste

Ainda


Recolhi cacos e pedacinhos

Daquela que seria

A melhor obra

Olhei pra tela, que leva meu nome 

E que,

mesmo assim

Insiste em parecer sorrir

Embora violentada


Parece um pouco comigo, afinal


segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Leve Desespero [2]

Eu não consigo mais me concentrar 
Eu vou tentar alguma coisa para melhorar 
É importante, todos me dizem 
Mas nada me acontece como eu queria 


Estou perdido, sei que estou 
Cego para assuntos banais 
Problemas do cotidiano 
Eu já não sei como resolver


Sob um leve desespero 
Que me leva, que me leva daqui 


Então é outra noite num bar 
Um copo atrás do outro 
Procuro trocados no meu bolso 
Dá pra me arrumar um cigarro? 


Eu não consigo mais me concentrar 
Eu vou tentar alguma coisa para melhorar 
Já estou vendo TV como companhia 

Talvez se você entendesse
O que está acontecendo 
Poderia me explicar 


Eu não saio do meu canto 
As paredes me impedem 
Eu só queria me divertir 
As paredes me impedem 
Eu já estou vendo TV como companhia 


Sob um leve desespero 
Que me leva, que me leva daqui

Avalanche

Saber ser racional
E escolher não ser
Me custa a vida.

Não gosto de viver pouco
De controlar o esforço
De medir a energia
[Pra quê?]
Para não me machucar

São essas as consequências
De aceitar o convite do amor
Para um vôo longo e bonito
Rasgando o céu, tão limpo

Me leva sempre mais alto
Não tenho medo da queda
Não gosto de viver pouco
Vamos pro infinito

Depois acontece isso
O amor só sabe ser leve
A gente é que estraga tudo
E apanha com violência
Sem nenhuma explicação
Gritos, passos, ofensas
Nos arrastam pelo chão

Depois acontece isso.
A boca que cheira a sangue
Não para o tremor das mãos
No quarto um eco estranho
A falta e a vergonha lutam
O pesadelo que nunca vai embora

Sonhei com um pôr-de-sol lindo
Acordei com saudade e esperança
Vi as coisas jogadas no chão
E tudo desmoronou
E vai desmoronar
Todo dia.
Até quando?

domingo, 6 de novembro de 2022

Faro [2]

O mundo aos poucos
Me mostrou
O quanto é bom
Estar do lado certo
Não ter que explicar
O que aconteceu
Ou porque é que pensas 
Daquela tal forma

O mundo aos poucos
Me mostrou
Como achar os vermes e monstros
E como ler
As bocas trêmulas
Olhares perdidos
Mãos inquietas
Pálpebras moles
E tantos outros 
Sinais.

O mundo aos poucos
Me levou
Pra rua.
E a rua aos poucos
Me ensinou
A ter tato
E a identificar toda
Categoria
De longe.

Tem talarico
Vagabunda
Caloteiro
Playboy lixo
Tem de tudo
E eu sinto logo
É pelo cheiro

Não há o que me engane.
O faro é certo
Tal qual cachorro
Que, sim, eu sou
Já me disseram
Sou bom de faro
Até ofensivo
Mas sei, sou bom, e
Não erro uma
Nem nunca errei

A arte vive

Não importa o tamanho da decepção.
Já tive de um metro e sessenta
Já tive de menos ainda
Não sou a favor
De deletar os textos
Afinal a arte está ali
Pra quem quer que veja
E talvez não doa pra todos que a vêem
Mas dói pra quem cria
Dói pra quem recebe
Pertence então, a todos
Ou não.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Samba e Amor

Porque eu não sei se eu já vi o Chico errar algum dia.


Eu faço samba e amor até mais tardeE tenho muito sono de manhãEscuto a correria da cidade, que ardeE apressa o dia de amanhã
De madrugada a gente ainda se amaE a fábrica começa a buzinarO trânsito contorna a nossa cama, reclamaDo nosso eterno espreguiçar
No colo da bem-vinda companheiraNo corpo do bendito violãoEu faço samba e amor a noite inteiraNão tenho a quem prestar satisfação
Eu faço samba e amor até mais tardeE tenho muito mais o que fazerEscuto a correria da cidade, que alardeSerá que é tão difícil amanhecer?
Não sei se preguiçoso ou se covardeDebaixo do meu cobertor de lãEu faço samba e amor até mais tardeE tenho muito sono de manhã

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Aqui

Sempre que preciso fugir
Venho pra cá
Pra folha em branco
Pra velha máquina
Pro canto escuro do quarto e
Pra luminária bem fraquinha

Escrevo poemas que não rimam
Não tenho feito prosas, tem anos
Me culpo por isso
Me culpo por mais
Um tantão de coisas aqui
E ali

Espalho os discos no tapete
O café vai esfriando
Sigo pensando, pensando

Se sempre que eu quero sumir
Venho pra cá, tem anos
Para onde é que eu vou, porém
Sempre que preciso fugir
Daqui?

Fincado no chão
Pesado, me acomodo, e fico
Queria voar
Eu gosto de voar
Às vezes.
Acontece que não sei, 
Nunca dei de aprender
Então quando vou, é sempre uma queda
Brusca, violenta, desajeitada

Percebo os sinais que não quero entender
Antes de fugir eu devia aprender
A voar sem temer a queda
Sem buscar algo pra me prender
Quem voa é assim, não está nem aí
Eu não sou assim
Se tem um lugar que sim, eu estou.
É aí.



quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Virgo

A luz do sol entrou pela varanda
Invadiu o quarto e a retina
Calor lá fora e aqui dentro.

Primavera se atrasou
Planejou trazer, e trouxe
A bela flor
Amada, flor
A senhora do verão.

Antes mesmo de riscar 
O velho bloco
Sobre aquele pesadelo tão terrível
Pegara água o mordomo
No poço que nunca seca

Perdemos a hora
A noção e o juízo
Perdemos o medo
Abrimos as portas
Deixamos vir tudo
De fora pra dentro

Quando dizes: vem
Não há mais segredos
Tu sabes, não nego
Te quero de novo
E tu me acompanhas
Trocamos as letras
Do carma com cá
Da mulher com pê

Imito o deus sol
E invado teus olhos
Teu corpo, tua vida
E teus belos cortes
Como recompensa
Me limpa e me prova
Teu gosto e o meu
Misturam-se à boca

Não há mais segredos
Sabemos de tudo
Nos olhos e ouvidos
Quando toco as cordas
E mostro-te todo

Até que me toques
Até que eu te morda
O perigo bate a porta
Já traçamos os planos
Tão calmos e serenos
É bom não ter mais medo

Ao menos nessa lua. 

sábado, 15 de outubro de 2022

Caderninho

A ruptura é um processo delicado
Penso que não 
Não escrevo para mim, 
mas sim, para quem lê 
Preocupado

Dancei bolero até as 4
Manhã, noite afora, e o vento
Me afoguei la pras 3
Me enganei até as 2
Paixão, veio forte, até a 1
Cantei e aplaudi
Meia noite

Eu gosto da fúria do Tim Maia
Mas confesso ter vindo aqui pelo Rei
Conservador não sou, mas sim, sei ser
E também não sei amar, mas quero bem

Canto amanhã de manhã mesmo que meu café 
não tenha açúcar
Ouço a respiração da moça que me dará crias
Já que a cerveja congelou, e o vinho, bebi todo
Saíram do controle as coisas, sim, de novo

Capricórnio sempre deixa-me, assim
bem longe dos vícios
E eu adoro provocar leitores céticos
Mas o mapa da loirinha me assustou
E já sinto-me ansioso, esse futuro

Risco guardanapos velhos à caneta
Depois eu passo tudo pro teclado
Lembro da rodoviária na Nações
E tanta confusão que lá vivi

Bolero a ensino a dançar
Boletos ensino-a a pagar
E perco-me todo, me humilho, e me lasco
Pois não quero crer
Que ainda serei
Sozinho de novo
Eu não sei.

Meus poemas sempre 
Se acabam assim
Não lembro quem foi
Mas sei, foi, pra mim

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

À queima roupa

Me reconheço e dói
Não me conheço, e sofro
Choro e tremo, 
Choro e bebo
Choro mesmo
Com motivo.

Fantasmas que um dia temi
Que lutei, me cortei, 
Que pensei que venci
Ainda seguem comigo
Ainda seguem aqui

Percebo-me e, sim
Conheço-me novo
Havia um tapete
Talvez um capacho
Feito um Maracanã 
Pra eu varrer a meu bel prazer

E eu varri. 
Sem medir.
Sem pensar.
Mas o que esperar 
da indescritível certeza da alma jovem e imatura, 
afinal?

Não há mais outro jeito de viver
Senão arrancá-los a força
Verdades à queima roupa
Palavras à sangue frio
No fundo dos seus olhos.

Imito Pessoa, o poeta
Dispo-me das roupas velhas
Parece mais uma pele
Sinto rasgar-me o peito
Jobim me trouxe um presente
Me deu finalmente a cura.

Veio a lua cheia então, e vi
Sempre a amei, sequer a conheci
Também, como poderia?
Se o céu era logo ali
Faltava-me a mim, apenas
Olhos feitos pra enxergar

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Amor, Amor

Porque aprender a ouvir Bethânia é transcender


Quando o mar

Quando o mar tem mais segredo

Não é quando ele se agita

Nem é quando é tempestade

Nem é quando é ventania

Quando o mar tem mais segredo

É quando é calmaria


Quando o amor

Quando o amor tem mais perigo

Não é quando ele se arrisca

Nem é quando ele se ausenta

Nem quando eu me desespero

Quando o amor tem mais perigo

é quando ele é sincero

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Há um lugar seguro, tranquilo e calmo, bem ali, depois daquela esquina. Só mais uma quadra e viramos.
Depois daquela quadra, onde bate o vento forte, que não dá nem pra sentir quando te abraço e te protejo além do frio. 
Chegamos nesse ponto ao mesmo tempo. Abrimos essa porta devagar, quase que juntos. 
Sinto muito. Queria ser discreto e simplesmente não consigo, dizer que descobri tudo sozinho, não posso ser tão mau vilão assim.
Que bom que saímos do raso.
Mergulhei querendo tocar o fundo, já que sempre sou assim, tão denso e sentimental. Quando vi, como errei rude, que bobeira ter pensado que ainda era o mesmo de antes. 
Esse plano fica mesmo no ar.
E foi lá que, então, encontramos. Tudo o que queria descobrir, mas tinha medo. Tudo o que há de lindo desde agora e assim será. Meu lado racional insiste e luta: como pode?
Acontece que eu vejo tudo. Eu sinto tudo. Não é imaginação nem fantasia, não é sonho nem desejo, não é alucinação, já que contigo eu nem preciso.
Te vi tão linda, me esperando, tão redonda, lua. No melhor sentido. Toquei teu corpo, envolvi-te inteira, até sentir tua pele, teu calor, e os batimentos confusos, rápido e lento, então, reconheci.
Era ela.
Que antes de chegar já recebeu todo o amor que ousei te dar de tantas formas, cheiros, gostos, e de tantos jeitos que jamais provei - já que tua pele nunca esteve por aqui. 
Lá, pudemos nos envolver, sentir o calor, tocar as coxas, sentir a forma, o cheiro, o gosto, e todo o mel vindo e voltando, sem pressa, e em excesso, de dentro pra fora, e como sempre, misturando tudo o que é amor com promiscuidade sem perder qualquer detalhe.
De novo e sem a menor previsão de retorno, estamos lá, uma vez que o tempo, lá, corre diferente. De um jeito que, de repente, me entregaste tudo o que eu temia já ter sentido contigo, tudo o que já fazia sentido. Sei que preferes ele, mas sabes que quem vem mesmo é ela, e que ela vem que vem com tudo. Destruindo a casa e te fazendo de besta daquele jeito que só você sabe ser.
Não saímos de lá, já que é lá, que ela brilha, e te olha nos olhos, entre o azul e o cinza, um ser insuportável. Daqueles que dá raiva de tanto amar. 
E você ama.
E eu amo.
Até explodirmos e voltarmos para a terra sem sabermos exatamente o que fazer com isso tudo. O resultado? Claro, positivo para febre. Com força. De um jeito que o algoritmo já sabe até as cores que queremos. Conjunto completo. Dinossauro ou fada bailarina. A minha gostava do Hulk. Mas a Lua? Jamais saberemos. 
Um dia, talvez.
Sairemos de lá. 
E estaremos aqui. Prontos.
Sem pensar no porquê, sem tentar entender. 
O rock n' roll não para e no final você vem e aparece. Vocês, de um jeito de outro, vêm aqui me beijar. Que é pro tempo parar. Pro som sumir, e pra gente se ouvir, num só.
Você está aqui. 
Vocês estão.
Lá.

Blue eyes

 Elton John, for God's sake. I can't believe it.


Blue eyes
Baby's got blue eyes
Like a deep blue sea
On a blue blue day

Blue eyes
Baby's got blue eyes
When the morning comes
I'll be far away

And I say

Blue eyes
Holding back the tears
Holding back the pain
Baby's got blue eyes
And she's alone again

Blue eyes
Baby's got blue eyes
Like a clear blue sky
Watching over me

Blue eyes
I love blue eyes
When I'm by her side
Where I long to be

I will see

Blue eyes laughing in the sun
Laughing in the rain
Baby's got blue eyes
And I am home, and I am home again

sábado, 24 de setembro de 2022

Treze

Aquele sorriso mudou tudo.

De fato, eu mal podia imaginar. Talvez pra não ser tão quadrado assim, preferi não desenhar a cena na minha cabeça. Diferente de tudo o que vinha e venho fazendo até hoje, resolvi não prever. Iria acontecer de qualquer maneira, afinal. 
E aconteceu.
Não deu pra acreditar quando te vi, ali, assim, depois de tanto tempo. 

Quanto tempo, afinal? 
Nem nós mesmos sabemos. 

Ainda sim, você veio. Cara...Você veio!

Eu já sabia que você não enxergava bem. Então abusei do meu poder e, claro, tirei meus minutos para te olhar de longe. 

E lá estava você.

Não sei como, mas eu não me lembrava do teu sorriso. Acho que eu teria tido uma vida mais feliz se pudesse pensar em ti. Por alguns segundos, num reflexo louco, te vi e pensei: 
" - Uau!"

Aquele sorriso mudou tudo.

E agora, então, já sem medo, me aproximei como quem diz: "Olha só, eu sei que eu demorei, mas tava um trânsito absurdo ali na região dos rios do esquecimento". Só que meu humor peculiar é uma das coisas que você mais gostava, em todas as outras vidas. 
E aconteceu.
Cheguei mais perto, que é pra você lembrar, de como eu sou tão grande perto de você tão miúda e, ainda sim, tão linda.

Naquele abraço nos reconhecemos. 
Senti sua falta. 
Sentimos.

O encaixe, o toque, a pele, o cheiro, o jeito, a vibração, os batimentos e a respiração.
Eu sei, talvez houvesse bem mais que isso ali, no bolo todo.

Mas aquilo ali, pra mim, definitivamente era você. 
Você que nunca poderia ser um alguém novo já que, normalmente, a gente tem que conhecer, perceber, entender, e aprender a lidar.
E ali já estava claro que entre nós, de fato, não. Não era o caso.

Depois de tantas vidas, finalmente, eu te encontrei.
Finalmente eu te reencontrei.

Que bom que eu não estava procurando. 

Que bom que a vida, às vezes, faz assim. 

E traz de volta aquilo que nunca se foi.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Os três mal amados

João Cabral de Melo Neto. Avassalador.



O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Eu não sei.

Você se foi.
Por Deus, que morte horrível. Que dia horrível. 
O dia em que você teve que morrer.
O dia em que eu resolvi que você teria que morrer.
Para mim.

Você se foi.
Mas não antes de destruir o meu psicológico. A minha auto-estima. A minha segurança.
Confundir-me os sentidos, me reduzir a nada.
Poluir-me o romance, a crença nos outros, a fé.
Me levar pra voar, porém sem dar-se ao luxo
De me segurar a mão.

Me lembro com tantos detalhes dessa noite, que sou capaz de descrevê-la como se tivesse sido agora, pouco antes de acordar. 
Estávamos deitados naquela cama estreita. Eu com bons quilos a menos, e ainda sim, grande. Você eu já descrevi tantas vezes por aqui que não vou me dar ao trabalho. Quase nenhuma roupa. E a nudez que ultrapassava o corpo, escancarando portas e janelas, dentro de mim. 
Olhávamos para o teto ou para a TV de tubo de quatorze polegadas, porém só eu sei. Eu não estava ali.
Levantei-me como um raio e corri para o banheiro pequeno, rente ao quarto. E vomitei desesperadamente. Coloquei para fora o que tinha e o que não tinha. Meu corpo tentava me avisar de tantas formas, até que finalmente, conseguiu.
Você como sempre, se manteve ali. Pareceu, de fato, ser uma decisão difícil entre tentar entender o que havia e acompanhar as curiosidades por Paulo Henrique Amorim. E eu abraçando a privada pensava morrer quando, na verdade, estava matando.

Aprendi, desde então, a voar sozinho. Já que, no amor, é só o que me resta a fazer além de fingir não ter sentimentos.
Aprendi tão bem a fazê-lo que ninguém mais acreditou. Me perdi no personagem. 
E segui. Voando. 
Algum poeta já disse mas não custa reforçar, que não há sentido algum em caminhar quando se está perdido. Imagine voar.

Essa noite não dormi direito. Tomei do velho veneno e abri espaço para novas velhas dores. Fiz tudo errado. Tudo de novo. Uma máquina do tempo estacionada em dois mil e oito, me ajudando a perceber como, às vezes, parece que eu não aprendi coisa alguma.

Ah, se eu soubesse tudo o que sei agora. 
Ah, se eu soubesse o quanto, eu não sabia de nada.
E agora que eu sei, só o que eu sei, é que eu sei menos ainda.

Eu não sei de nada.

Eu não sei.

Nada.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Culpa

É muito difícil conviver
Com aquilo que fizeram
De nós.

Ter que tratar as feridas
Ter que se tratar
Depois daquilo que fizeram
A nós.

É muito difícil partilhar
Saber que um dia, alguém
Ao te humilhar
Deu nós.

No estômago
No âmago
E no peito.

É muito difícil se olhar
Assim como deixarem te olhar
Depois que já mancharam nosso espelho
De pós.

Ter que provar a vergonha
Engolir as palavras, todas
O que é que rima com -onha?
Já sei
Medo.

Levantar bem cedo, 
Abrir um novo livro velho
Passar um café preto

É muito difícil levar
A vida que se quer levar

Deixar essa gente aí
Plena e livre ao viver
Não ter nada o que fazer
Além de tratar as feridas
Que um dia puseram em nós

E ainda engolir a culpa
Como se no fundo ela fosse
Nossa.

sábado, 10 de setembro de 2022

Somos assim

A vida do artista tem muitos mistérios
Que ultrapassam todos os outros mistérios
Já hoje me chamaram de cristão
Ofensa maior recusei
Só porque, tão burros, que são
Não entenderam quando brinquei
"Me chamem quando estiverem falando de Deus"

Te juro. Dá pra crer?

Por isso não me misturo com essa gente
Por isso rio da cara
Dos que, de algum jeito, sabem
Como superiores são.

Eu ando pelos caminhos sinuosos
Colho flores, girassóis
Vejo cores e luzes
No nascer do sol

Eu falo com andarilhos, putas, mendigos
Eu sou a ralé, a plebe, o pé rapado
Ando de terno cortado 
E me infiltro entre os gran finos
Abuso de seu mal gosto
Bebo e rio com meus parceiros da cozinha
Eu carrego o que for
Pra nunca negar onde estou

Eu vejo alguns pretos de terno 
No meio do rolê, e penso
Em quantas línguas vocês nos ofendem
Os latino americanos
Sou índio e morri como aqueles que, sim
Sobrevivem todos os dias comigo
Já que ajudo como posso, com álcool e amor
Parceiros das ruas, onde estive, então
Ninguém sabe o que eu não quiser contar

Desabafo sobre a guerra fria
Viajo amanhã 
Nem sei se volto mais
E levo quem quero comigo
Antes contava em uma mão
Hoje fecho os olhos
Quem aqui estiver
Aqui estará

A noite foi quente
Como é bom sair sem jaqueta
Como é bom viver com a paz dos poetas

Nunca confundir outras vozes com a tua
Nunca mais pensar que minha cama é a rua
Tocar notas graves, fazer o meu nome
Ajudar meu povo a saciar a fome
Ajudar meu ego a disfarçar a fome
Dizer-te as verdades que sinto no peito
Já que assim, serão, e assim sempre, são
Há uma mesa posta esperando 
Xadrez vermelha e branca
Tal cantina italiana
Me esbaldo
Te bebo
Até ficar sem ar
Me puxe os cabelos
Me deixe sem ar

Nós somos da noite
Nós somos artistas
E a vida do artista
Tem muitos mistérios
Descubramos todos
Pois somos tão bons, tão únicos, juntos
Nem importa tanto
O que está se passando
Com essa cabeça

Vomito palavras
Engulo a saliva
Engulo-te toda
Afogo sem medo
Mas não durmo cedo

Não faço sentido
Nem pra quem lê
Nem pr'eu que aqui, escrevo

E não é só porque eu canto todas as músicas do Nirvana em alto e bom som, ficando sem voz, suando e chamando a atenção 
Que não trocaria tudo por voltar pra vida na estrada, porém, desta vez, sentindo aquele cheiro, mordendo, e chorando de emoção, sempre que me pedes

Me faz

E não dizes mais nada
Que filha da puta
Tu sabes de tudo
O que eu também sei
Me abraça bem perto
Já tenho os bilhetes
Oh, Let's jump a train
Que somos assim

Nós dóis
Desde sempre
Somos
Desde sempre
Nós dóis
Nós somos
Somos
Nós dois
Simplesmente
Assim

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

A todos vocês poetas jovens

sua arte
não é a quantidade de pessoas 
que gostam do seu trabalho 
sua arte
é
o que seu coração acha do seu trabalho 
o que sua alma acha do seu trabalho 
é a honestidade 
que você tem consigo 
e você
nunca deve
trocar honestidade 
por identificação 

- a todos vocês poetas jovens 

No livro "Outros Jeitos De Usar A Boca", de Rupi Kaur

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Bagunça

Me perco no tempo quando você acontece.
És um evento.
Não posso entender algo que nunca vi. Demoro, confesso, mas não tenho pressa. Honestamente, ainda bem, porque eu odiaria ter que passar rápido por esse abraço. De modo que seu corpo não dançasse no tapete uma valsa comigo, ao menos. 
Fecho as janelas para que teu cheiro permaneça por mais tempo. Na gola da jaqueta, na blusa velha, no travesseiro. De um jeito proposital te aperto como uma fruta - já que estás no ponto e teu gosto é todo doce. Te descasco e mordo, desfruto do teu sumo, e com carícias, deito-me com teu perfume. 
Adormeço.
Desperto e seu corpo percebe, tem sede, me pede. A pele não nega, e as curvas entregam, o tempo é agora. Do tudo e do nada. Escolhemos tudo, já que temos essa alma louca e pouco puritana.
Focamos na perfeição e ali passamos horas, dias. Um dia, eu sei, serão, semanas. Nada religiosos, peregrinamos, a pão e água. Ou quase.
Eu que amo as palavras tento aos poucos perceber o cinema mudo em que acabei caindo. É um espetáculo à parte, sei reconhecer. Sei tudo de ti quando os olhos não piscam, e assim, passeamos, indo e vindo, em nossos universos. 
Depois passo dias juntando a bagunça. Recolho os pedaços, peças, retalhos, dos flashes da noite, quase como cortes de um filme noir
Onde o poema acaba sem deixar registros de onde começou e ameaçando, volta-e-meia, nunca mais estar.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Eu te amo

Ah, se já perdemos a noção da horaSe juntos já jogamos tudo foraMe conta agora como hei de partir
Ah, se ao te conhecerDei pra sonhar, fiz tantos desvariosRompi com o mundo, queimei meus naviosMe diz pra onde é que 'inda posso ir
Se nós nas travessuras das noites eternasJá confundimos tanto as nossas pernasDiz com que pernas eu devo seguir
Se entornaste a nossa sorte pelo chãoSe na bagunça do teu coraçãoMeu sangue errou de veia e se perdeu
Como, se na desordem do armário embutidoMeu paletó enlaça o teu vestidoE o meu sapato 'inda pisa no teu
Como, se nos amamos feito dois pagãosTeus seios 'inda estão nas minhas mãosMe explica com que cara eu vou sair
Não, acho que estás te fazendo de tontaTe dei meus olhos pra tomares contaAgora conta como hei de partir

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Quem atrai quem?

“O controlador atrai o dependente.
O agressivo atrai o submisso.
O isolado atrai o solitário.
O desconfiado atrai o mentiroso.
O egoísta atrai o orgulhoso.
O irônico atrai o debochado.
O sabe-tudo atrai o ignorante.
O nervoso atrai o irritado.
A vítima atrai o culpado.

O inteligente atrai o sábio.
O próspero atrai a riqueza.
O desejo atrai o calor.
O gentil atrai a delicadeza.
O aconchego atrai o alivio.
A dedicação atrai o reconhecimento.
A atenção atrai o amor.
A simpatia atrai o carisma.
A alegria atrai o bom humor.
O silêncio atrai o discernimento.
A maturidade atrai o bom senso.”

(Autor desconhecido)

domingo, 28 de agosto de 2022

It's a sin

Não sei dizer o que eu não daria
Para tê-la hoje, ali
Comigo
Naquele momento.
Talvez ela nem gostaria tanto, confesso
Sei que não vê, lá, tanta graça
Mas eu adoraria tê-la ali
Por perto
E eu sei que mudaria totalmente
Aquele show.
Acho que no fundo eu já sabia
Já que me deu as dicas que também, no fundo
Sabia que não viria
Sei que eu sentiria ciúme
Havia alguns escrotos no caminho
E eu nunca a vi sabendo desviar
Embora honestamente ache que sim
Ainda sim
Olhei
E vasculhei
Escaneei
Todos os cantos
Não havia ninguém onde eu queria
Claro que não podia aparecer
E eu sei que há nobre razão
Queria não escrever tantas linhas
Só pra contar o quanto senti sua falta
Parece um pecado estar aqui
Sozinho no sofá da sala
Poetizando dores e incertezas
Que eu jamais gostaria de sentir
Mas que sinto, e não nego
Acho que nunca produzi tanto
Pelo menos não para um só alguém
Talvez me lembre da última vez
E lembro que doía pra caramba
Mas esse olhar é diferente
E não sei bem o que fazer com isso
Só sei que, já que já passei dos trinta
Vergonha é algo que não tenho mais
Então seja o que Deus quiser
A toalha ainda está aqui
Mas não dormirá embaixo de mim

Nós

Jamais imaginei que tu me lias
Nunca pensei que tu
Meu bem
Um dia
Estarias aqui.

Paro e penso, que sim, não há limites
Pra toda a vida que
Nós dois
Queremos
Viver, e vamos, sim

Choro na chuva
Danço entre canções
Quebro padrões
Querias tu
Onde é que estás?

Pego um guardanapo
O abro, escrevo
Com a caneta bic do garçom
Poemas que nunca te entregaria

E por algumas horas, sim, sou Deus
Me olham, vangloriam, se admiram
Assumo a posição, sabes que eu gosto
Mas no fundo eu só olhava a porta
No fundo eu esperei por tua surpresa

Depois sem nem eu perceber 
Já estou lá naquele inferno
Desvio de tudo o que não presta
Espero teus sinais
Que nunca chegam

Queria desatar os nós
Que eu mesmo criei
Os nós que nós criamos
E emaranhamos
Mais e mais
Toda semana

Desvendar nossos mistérios
Nossos nós, são tão bem feitos
Que nós já não sabemos
Onde estamos
Onde estão
Nossos 
Nós

Chico

As seis e pouco da manhã, volto pro Chico que sempre nos mata e salva na mesma medida.

O meu amorTem um jeito manso que é só seuE que me deixa loucaQuando me beija a bocaA minha pele toda fica arrepiadaE me beija com calma e fundoAté minh'alma se sentir beijada, ai
O meu amorTem um jeito manso que é só seuQue rouba os meus sentidosViola os meus ouvidosCom tantos segredos lindos e indecentesDepois brinca comigoRi do meu umbigoE me crava os dentes, ai
Eu sou sua menina, viu?E ele é o meu rapazMeu corpo é testemunhaDo bem que ele me fazO meu amorTem um jeito manso que é só seuDe me deixar malucaQuando me roça a nucaE quase me machuca com a barba malfeitaE de pousar as coxas entre as minhas coxas quando ele se deita
Ai
O meu amorTem um jeito manso que é só seuDe me fazer rodeiosDe me beijar os seiosMe beijar o ventreE me deixar em brasaDesfruta do meu corpoComo se o meu corpo fosse a sua casa, ai

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Fica à vontade - pt. 2

Chega de poema.

Encaixamos.

Seu cheiro, que já estava todo em mim, se espalhou por minha roupa, e pela sala toda. Respirei fundo e trouxe todo aquele aroma em mim. Senti certo arrepio ali, em meus pelos, todos. Tratei de não usar minhas mãos pra que outros sentidos viessem primeiro. No fim, não deu, te abracei por inteiro. 

Encaixamos.

Sabíamos dos panos entre nós e nem assim nos importamos. Mantive-te ali, estável. Envolvi-te a cintura com meus longos braços, até prender-te, toda, em pulso firme, como sim, sei que tu gostas.
Ainda não sei, ao certo, se foi sonho ou se seus olhos grandes vieram mesmo, tão pertinho ali, de mim.
O que eu, sim, sei, é que aquilo que disseram, sobre o tempo parar, passou a fazer mais sentido, agora.

Meu corpo é grande e, ao sentar, fica ainda maior. Seu corpo é lindo e doce e, ao sentar, fica ainda menor. De repente, de algum jeito, ali estamos. Sabemos, dali, não queremos sair, nunca mais. Penso no teu toque doce, em suas mãos bonitas, tua boca, e claro, em teus quadris. Nem sou capaz de escrever bem se lembro de como respiras, insisto ainda sim, pois tenho tempo.

Parou o tempo, a canção, a hora e a fala. Parou tudo o que estava em volta. Prendemos o ar por um instante, olhamo-nos nos olhos só mais uma vez. Segundos que viraram horas. Vi em ti mil personagens e estórias, mil poemas, mil canções. No ápice meti a mão em tua nuca, olhei mais firme, cheguei perto até sentirmos bem o ar de nossas bocas. Nem lembrando tão bem sei que fizemos isso. Sabendo que nos merecemos, não fomos capazes, jamais, de desviar o olhar por um sequer segundo.

Sim, poderia descrever aqueles segundos, por horas. Nem sei mesmo se foram segundos ou horas que estivemos ali, procurando por algo que a gente nunca soube que existiu. Por que é que as coisas têm que ser assim já que as feridas prometeram ser pra sempre e, por algum milagre do destino - pelo menos pra quem acredita - sequer existem ao te dar colo?

Temo sim, que essas palavras, façam pouco ou nenhum sentido. Sei que quem lê possui bem mais que quem escreve, e ah, se eu pudesse, ao menos, descrever.

Nossos mundos diferentes se fundiram então. Distâncias de anos luz se estreitaram, enfim. Dias se converteram em meses e uma semana é tão longa quando um faroeste caboclo. E quando chega a sexta estamos tão cansados, putos, exaustos, que só queremos morrer. Acontece que morrer contigo é bem melhor. 

E se estás cansada entra, vem, fica a vontade. 
Senta. 
Que encaixaremos e começaremos, sim, tudo de novo. 
Enquanto tivermos tempo. 
E temos.

Fica à vontade - pt. 1

Seria, de fato, impossível
Descrever o que é que foi aquilo
No fundo eu gosto, adoro, e ouso
Dizer que sim, que amo
Embora não possa contar

Então atravesso a noite
Bebo muito, e como, consumo
Como se não houvesse amanhã
Mas o que eu sei é que sempre
Como em toda noite em claro
Sempre há

Só que o amanhã de qual falo, 
Sol do meu girassol
Será diferente
Já que em teu olhar há de haver
Aquela luz de outro dia
Por que não dizer que sim
Que tenho em meu olhar também?
Além de lágrimas contidas,
Dor de traumas e emoções 
Que estão tão bem escondidos
Sabemos bem como são
Sabemos bem que é assim
Que a banda toca por aqui

Respiro fundo e lembro, bem atento
Confundo pensamentos, e palavras, e gestos
Nada disso pode ser mentira,
Eu sei que não
Já que tudo é tão real, de um jeito, que entendemos
Nunca, jamais, ter, assim, sido
Nunca foi

Então eu sei que nem cansada estavas
Mas imaginei ou disse,
Olhando claro, e firme
Bem, talvez com algum sotaque carioca
Se está cansada,
Vem
Fica a vontade
E senta.

Aí é claro, conhecendo você 
E tuas quinze personalidades
Procurando, de algum jeito, tua segunda
Ou talvez sendo, ali, apresentado
Só recebo, tranquilo e calmo, teu sentar