quinta-feira, 21 de maio de 2020

Ela sorriu

Quando a vi ali parada, quase nem acreditei.
É bem estranho tentar escrever sobre encontros por acaso em tempos de Tinder. Mas vá lá, sigamos.

Pois bem.

Nunca havia visto aqueles olhinhos sorridentes de perto. Assim meio puxados, desenhados e brilhantes, por detrás das lentes grandes dos seus óculos de pernas finas, dando ar com a luz que vinha. Eu gosto de gente que sorri com os olhos e esse, definitivamente, é o caso.
Coisa de cinema.
Por vezes me contentei com certas fotos espalhadas por aí, naquela história de amigos, dos amigos, dos amigos. Ninguém é amigo de quase ninguém nas tais das redes mas, de forma inusitada, vamos nos conectando. Às vezes aleatoriamente, às vezes por um algoritmo.

As definições de destino foram atualizadas.

[Penso em propor que troquemos a expressão idiomática "Era pra ser assim" por "O tio Mark já sabia antes de nós". Entendedores, entenderão...mas bem, este é outro assunto.]

O que eu sei é que ela continuava ali, encostada no batente do vão entre o hall e o salão, segurando sua bebida - um coquetel daqueles bonitos que eu não gosto. Devia ser vermelho ou laranja ou rosa, não reparei bem, com alguns adereços misturados ao gelo e aromatizando alguma bebida ruim até que ela fique boa. Ou quase boa. Ainda sim, delicadamente colocados nas suas mãozinhas pequenas, cruzando com a meia-luz amarelada, foi a foto perfeita que minha retina fez questão de tirar.

Sabia seu nome, é claro. Fiz a lição de casa.

Então fiquei por perto. De onde eu estava, logo ali, dava pra ver a banda e ainda encostar de canto numa mesinha daquelas que não servem pra muita coisa. A via dançar de um jeito difícil de descrever. Algum ponto entre o suave e o desajeitado, seus cabelos lisos balançavam pra lá e pra cá, seu queixo levantava e os olhinhos bonitos se fechavam. Ela sentia a música. E eu sentia. Tudo.
É sempre muito mais sexy quando não quer ser, penso.

Até que encostei no balcão. Depois, então, de duas ou três frases com o dono do bar, eis que ela chega e suavemente pousa seu drink por perto. Entre fingir que não percebi e sentir aquele arrepio do "é agora", peço a ele:

 - Me vê mais uma verdinha, meu consagrado!
 - Uma pra mim também! - ouço sua voz cheia de energia. Escorpião ou Áries, talvez?
 - Boa pedida! - rebato - Essa sua bebida aí é muito ruim, tá sabendo?

Ganhei sua atenção, pelos poucos segundos que precisava. Era a grande chance de subir um pequeno degrau ou de cair no precipício...

Ela sorriu e seus olhinhos pequenos se abriram:
 - Ah é? Por que?
 - De tão ruim que é, no comercial de TV em vez de as pessoas na festa beberem, eles a jogam um na roupa do outro!
 - Ahhhhhhhhh!

Ela riu.
Gargalhou.
Mais um pouco.

Fazer uma mulher bonita sorrir é a bola pra fora de Baggio. É especial, é o ápice, é tudo e, ao mesmo tempo, só o que se precisa.
Levantamos as garrafinhas, brindamos e bebemos. Por fim, antes de seguir pelo bar, dara ela novamente aquele sorriso.

A noite tem dessas, afinal.

[Não sei se um dia minhas histórias de amor irão deixar de começar em balcões de bares. Continuarei torcendo para que não.]


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