quinta-feira, 16 de junho de 2022

Ângulo

A vida se repete.

Só que, desta vez, ao contrário. 

Meu Deus, que coisa mais maluca.

De todos os papéis que eu, um dia, pensei que teria, jamais imaginei - mesmo! - que teria que viver o dela.

A parte boa deste registro bloguístico é essa: nem preciso contextualizar, basta o leitor voltar e me ler lá em 2007.

Quinze anos. Quinze.

E então, os papéis se invertem. 

Temo, primeiro, do alto do meu pedestal machista e orgulhoso, se os sinais teriam se invertido completamente. Afinal, só eu sei como é carregar a culpa do que fiz, de como fiz, de quantas vezes fiz. Grosseiro. Enfim.

No fundo, até acredito que não.

Sigo, então, lembrando daquela cena no jardim. Quando ela me trouxe todas as minhas coisas em uma caixa. Afinal, ela não me queria mais em sua casa, e eu, de fato, entendia suas razões. Essa parte diverge um pouco, infelizmente.

A caixa, entretanto, reapareceu. Só não tive as mesmas bolas que ela teve de vir entregar-me em mãos. Sei também o porquê disso tudo - é bem mais fácil lidar com alguém independente, o que não foi o caso, na minha vez. Mudanças de roteiro, certamente, aconteceram.

Por mim, ela se foi. Desapareceu do mapa. A vida viajando o mundo. E adivinhe só o que eu estou fazendo agora? 

Pois é.

Enquanto isso, meu outro eu se perdia entre mil camas, duas, três, ou quatro mil pernas, além de todo o álcool e quaisquer substâncias.

Sabe lá se isso é real agora. Pra mim, daqui de cima, certamente que sim.

Desejo que sim, no mais profundo eu. E imagino, como queria estar vendo de perto, do sofá de canto bem posicionado no quarto.

Melhor não desviar os pensamentos.

E se tudo der certo, em alguns anos, estaremos lá. Naquele quarto de hotel, trocando juras de amor, e celebrando aquilo que nunca mais vai existir.

Mas que, ao mesmo, vai existir pra sempre.

Enquanto a vida se repetir.

E ela irá. 


segunda-feira, 6 de junho de 2022

Libra e Leão

O cheiro da rua

O cheiro do óleo

O cheiro de mijo

O cheiro dos gatos

O cheiro do esgoto

O cheiro do lixo

Cheiro de marofa

Cheiro de canela


O cheiro do incenso

O cheiro da pele

O cheiro da boca

O cheiro da cama

O cheiro do gozo

O cheiro do sexo

Cheiro do seu mel

Cheirando na barba


O cheiro do flagra

O cheiro do tempo

O cheiro do espelho

O cheiro da luz

O cheiro do ego

O cheiro da idade

O cheiro do poço

Cheiro de Leão


quinta-feira, 2 de junho de 2022

C₉H₁₃NO₃

Senti de novo. Não deu pra evitar.

Pra ser honesto, até que estava com saudade. É fácil pra'queles acostumados ao flagelo gratuito e deliberado.

Ah, a dor. Mesmo nos dias de hoje, mais fácil de se conseguir alguma do que qualquer bagulho que dê barato.

Pois bem. Mas não é disso que estou falando. Ou é quase.

Depois de uma intensa adrenalina - e se o leitor voltar alguns anos neste blog, vai perceber que tenho propriedade no assunto - vem a queda livre. 

O que aconteceu, nos últimos vinte dias, foi uma dose longa, enorme, e intensa da mais bonita adrenalina. Ao contrário daquela que eu estava acostumado: suja, viril, potente, perturbada, confusa, louca e arrepiante, não. Essa foi diferente. Pude experimentar algo novo: uma adrenalina intensa, bonita, doce, honesta, sincera, direta, simples...diferente. 

Fora da realidade. Ao menos, da minha.

Então, ao voltar, passei de fato a me questionar. Por que? É claro que eu haveria de voltar, afinal, estou sempre indo, e sempre voltando. Mas a que custo, desta vez? 

Novamente, leitores acostumados com este do lado de cá, sabem que lido bem, bem demais, até, com a tal da solidão.

Porém, depois dessa dose incrivelmente profunda de uma adrenalina nova no (meu) mercado...a solidão não pareceu tão gostosa assim.

Veio amarga, penosa, triste e dura. De fato, como já estive aqui, nada novo além de mim mesmo, ali, olhando para a folha em branco e datilografando freneticamente em busca da porta. 

Ouvindo um mundo ideal.

E encarando a realidade de que as almas boas estão ali, estratégica e milimetricamente posicionadas para salvar seres como eu. 

Penso em todas as vezes que fui o salvador.

E equilibro com aqueles que, por opção, decidiram por não.

Por isso, no fundo, estamos todos tão sozinhos. E assim continuaremos.

Exceto aqueles que me foram anjos. Estes porque me ensinam a sê-lo, e para todos eles, tudo o que eu puder. A salvação da minha alma pelas suas, meus amigos.

Aos outros, o rigor da lei.