sábado, 24 de setembro de 2022

Treze

Aquele sorriso mudou tudo.

De fato, eu mal podia imaginar. Talvez pra não ser tão quadrado assim, preferi não desenhar a cena na minha cabeça. Diferente de tudo o que vinha e venho fazendo até hoje, resolvi não prever. Iria acontecer de qualquer maneira, afinal. 
E aconteceu.
Não deu pra acreditar quando te vi, ali, assim, depois de tanto tempo. 

Quanto tempo, afinal? 
Nem nós mesmos sabemos. 

Ainda sim, você veio. Cara...Você veio!

Eu já sabia que você não enxergava bem. Então abusei do meu poder e, claro, tirei meus minutos para te olhar de longe. 

E lá estava você.

Não sei como, mas eu não me lembrava do teu sorriso. Acho que eu teria tido uma vida mais feliz se pudesse pensar em ti. Por alguns segundos, num reflexo louco, te vi e pensei: 
" - Uau!"

Aquele sorriso mudou tudo.

E agora, então, já sem medo, me aproximei como quem diz: "Olha só, eu sei que eu demorei, mas tava um trânsito absurdo ali na região dos rios do esquecimento". Só que meu humor peculiar é uma das coisas que você mais gostava, em todas as outras vidas. 
E aconteceu.
Cheguei mais perto, que é pra você lembrar, de como eu sou tão grande perto de você tão miúda e, ainda sim, tão linda.

Naquele abraço nos reconhecemos. 
Senti sua falta. 
Sentimos.

O encaixe, o toque, a pele, o cheiro, o jeito, a vibração, os batimentos e a respiração.
Eu sei, talvez houvesse bem mais que isso ali, no bolo todo.

Mas aquilo ali, pra mim, definitivamente era você. 
Você que nunca poderia ser um alguém novo já que, normalmente, a gente tem que conhecer, perceber, entender, e aprender a lidar.
E ali já estava claro que entre nós, de fato, não. Não era o caso.

Depois de tantas vidas, finalmente, eu te encontrei.
Finalmente eu te reencontrei.

Que bom que eu não estava procurando. 

Que bom que a vida, às vezes, faz assim. 

E traz de volta aquilo que nunca se foi.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Os três mal amados

João Cabral de Melo Neto. Avassalador.



O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Eu não sei.

Você se foi.
Por Deus, que morte horrível. Que dia horrível. 
O dia em que você teve que morrer.
O dia em que eu resolvi que você teria que morrer.
Para mim.

Você se foi.
Mas não antes de destruir o meu psicológico. A minha auto-estima. A minha segurança.
Confundir-me os sentidos, me reduzir a nada.
Poluir-me o romance, a crença nos outros, a fé.
Me levar pra voar, porém sem dar-se ao luxo
De me segurar a mão.

Me lembro com tantos detalhes dessa noite, que sou capaz de descrevê-la como se tivesse sido agora, pouco antes de acordar. 
Estávamos deitados naquela cama estreita. Eu com bons quilos a menos, e ainda sim, grande. Você eu já descrevi tantas vezes por aqui que não vou me dar ao trabalho. Quase nenhuma roupa. E a nudez que ultrapassava o corpo, escancarando portas e janelas, dentro de mim. 
Olhávamos para o teto ou para a TV de tubo de quatorze polegadas, porém só eu sei. Eu não estava ali.
Levantei-me como um raio e corri para o banheiro pequeno, rente ao quarto. E vomitei desesperadamente. Coloquei para fora o que tinha e o que não tinha. Meu corpo tentava me avisar de tantas formas, até que finalmente, conseguiu.
Você como sempre, se manteve ali. Pareceu, de fato, ser uma decisão difícil entre tentar entender o que havia e acompanhar as curiosidades por Paulo Henrique Amorim. E eu abraçando a privada pensava morrer quando, na verdade, estava matando.

Aprendi, desde então, a voar sozinho. Já que, no amor, é só o que me resta a fazer além de fingir não ter sentimentos.
Aprendi tão bem a fazê-lo que ninguém mais acreditou. Me perdi no personagem. 
E segui. Voando. 
Algum poeta já disse mas não custa reforçar, que não há sentido algum em caminhar quando se está perdido. Imagine voar.

Essa noite não dormi direito. Tomei do velho veneno e abri espaço para novas velhas dores. Fiz tudo errado. Tudo de novo. Uma máquina do tempo estacionada em dois mil e oito, me ajudando a perceber como, às vezes, parece que eu não aprendi coisa alguma.

Ah, se eu soubesse tudo o que sei agora. 
Ah, se eu soubesse o quanto, eu não sabia de nada.
E agora que eu sei, só o que eu sei, é que eu sei menos ainda.

Eu não sei de nada.

Eu não sei.

Nada.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Culpa

É muito difícil conviver
Com aquilo que fizeram
De nós.

Ter que tratar as feridas
Ter que se tratar
Depois daquilo que fizeram
A nós.

É muito difícil partilhar
Saber que um dia, alguém
Ao te humilhar
Deu nós.

No estômago
No âmago
E no peito.

É muito difícil se olhar
Assim como deixarem te olhar
Depois que já mancharam nosso espelho
De pós.

Ter que provar a vergonha
Engolir as palavras, todas
O que é que rima com -onha?
Já sei
Medo.

Levantar bem cedo, 
Abrir um novo livro velho
Passar um café preto

É muito difícil levar
A vida que se quer levar

Deixar essa gente aí
Plena e livre ao viver
Não ter nada o que fazer
Além de tratar as feridas
Que um dia puseram em nós

E ainda engolir a culpa
Como se no fundo ela fosse
Nossa.

sábado, 10 de setembro de 2022

Somos assim

A vida do artista tem muitos mistérios
Que ultrapassam todos os outros mistérios
Já hoje me chamaram de cristão
Ofensa maior recusei
Só porque, tão burros, que são
Não entenderam quando brinquei
"Me chamem quando estiverem falando de Deus"

Te juro. Dá pra crer?

Por isso não me misturo com essa gente
Por isso rio da cara
Dos que, de algum jeito, sabem
Como superiores são.

Eu ando pelos caminhos sinuosos
Colho flores, girassóis
Vejo cores e luzes
No nascer do sol

Eu falo com andarilhos, putas, mendigos
Eu sou a ralé, a plebe, o pé rapado
Ando de terno cortado 
E me infiltro entre os gran finos
Abuso de seu mal gosto
Bebo e rio com meus parceiros da cozinha
Eu carrego o que for
Pra nunca negar onde estou

Eu vejo alguns pretos de terno 
No meio do rolê, e penso
Em quantas línguas vocês nos ofendem
Os latino americanos
Sou índio e morri como aqueles que, sim
Sobrevivem todos os dias comigo
Já que ajudo como posso, com álcool e amor
Parceiros das ruas, onde estive, então
Ninguém sabe o que eu não quiser contar

Desabafo sobre a guerra fria
Viajo amanhã 
Nem sei se volto mais
E levo quem quero comigo
Antes contava em uma mão
Hoje fecho os olhos
Quem aqui estiver
Aqui estará

A noite foi quente
Como é bom sair sem jaqueta
Como é bom viver com a paz dos poetas

Nunca confundir outras vozes com a tua
Nunca mais pensar que minha cama é a rua
Tocar notas graves, fazer o meu nome
Ajudar meu povo a saciar a fome
Ajudar meu ego a disfarçar a fome
Dizer-te as verdades que sinto no peito
Já que assim, serão, e assim sempre, são
Há uma mesa posta esperando 
Xadrez vermelha e branca
Tal cantina italiana
Me esbaldo
Te bebo
Até ficar sem ar
Me puxe os cabelos
Me deixe sem ar

Nós somos da noite
Nós somos artistas
E a vida do artista
Tem muitos mistérios
Descubramos todos
Pois somos tão bons, tão únicos, juntos
Nem importa tanto
O que está se passando
Com essa cabeça

Vomito palavras
Engulo a saliva
Engulo-te toda
Afogo sem medo
Mas não durmo cedo

Não faço sentido
Nem pra quem lê
Nem pr'eu que aqui, escrevo

E não é só porque eu canto todas as músicas do Nirvana em alto e bom som, ficando sem voz, suando e chamando a atenção 
Que não trocaria tudo por voltar pra vida na estrada, porém, desta vez, sentindo aquele cheiro, mordendo, e chorando de emoção, sempre que me pedes

Me faz

E não dizes mais nada
Que filha da puta
Tu sabes de tudo
O que eu também sei
Me abraça bem perto
Já tenho os bilhetes
Oh, Let's jump a train
Que somos assim

Nós dóis
Desde sempre
Somos
Desde sempre
Nós dóis
Nós somos
Somos
Nós dois
Simplesmente
Assim

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

A todos vocês poetas jovens

sua arte
não é a quantidade de pessoas 
que gostam do seu trabalho 
sua arte
é
o que seu coração acha do seu trabalho 
o que sua alma acha do seu trabalho 
é a honestidade 
que você tem consigo 
e você
nunca deve
trocar honestidade 
por identificação 

- a todos vocês poetas jovens 

No livro "Outros Jeitos De Usar A Boca", de Rupi Kaur

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Bagunça

Me perco no tempo quando você acontece.
És um evento.
Não posso entender algo que nunca vi. Demoro, confesso, mas não tenho pressa. Honestamente, ainda bem, porque eu odiaria ter que passar rápido por esse abraço. De modo que seu corpo não dançasse no tapete uma valsa comigo, ao menos. 
Fecho as janelas para que teu cheiro permaneça por mais tempo. Na gola da jaqueta, na blusa velha, no travesseiro. De um jeito proposital te aperto como uma fruta - já que estás no ponto e teu gosto é todo doce. Te descasco e mordo, desfruto do teu sumo, e com carícias, deito-me com teu perfume. 
Adormeço.
Desperto e seu corpo percebe, tem sede, me pede. A pele não nega, e as curvas entregam, o tempo é agora. Do tudo e do nada. Escolhemos tudo, já que temos essa alma louca e pouco puritana.
Focamos na perfeição e ali passamos horas, dias. Um dia, eu sei, serão, semanas. Nada religiosos, peregrinamos, a pão e água. Ou quase.
Eu que amo as palavras tento aos poucos perceber o cinema mudo em que acabei caindo. É um espetáculo à parte, sei reconhecer. Sei tudo de ti quando os olhos não piscam, e assim, passeamos, indo e vindo, em nossos universos. 
Depois passo dias juntando a bagunça. Recolho os pedaços, peças, retalhos, dos flashes da noite, quase como cortes de um filme noir
Onde o poema acaba sem deixar registros de onde começou e ameaçando, volta-e-meia, nunca mais estar.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Eu te amo

Ah, se já perdemos a noção da horaSe juntos já jogamos tudo foraMe conta agora como hei de partir
Ah, se ao te conhecerDei pra sonhar, fiz tantos desvariosRompi com o mundo, queimei meus naviosMe diz pra onde é que 'inda posso ir
Se nós nas travessuras das noites eternasJá confundimos tanto as nossas pernasDiz com que pernas eu devo seguir
Se entornaste a nossa sorte pelo chãoSe na bagunça do teu coraçãoMeu sangue errou de veia e se perdeu
Como, se na desordem do armário embutidoMeu paletó enlaça o teu vestidoE o meu sapato 'inda pisa no teu
Como, se nos amamos feito dois pagãosTeus seios 'inda estão nas minhas mãosMe explica com que cara eu vou sair
Não, acho que estás te fazendo de tontaTe dei meus olhos pra tomares contaAgora conta como hei de partir