terça-feira, 29 de junho de 2021

I wish I could

Eu já sabia. 

De algum jeito, eu estava sentindo. E não podia falar pra ninguém porque isso significaria ter uma postura, não sei, pessimista? Talvez. Ou ainda como se eu estivesse desejando...por Deus, longe de mim. Mesmo assim, de alguma forma, eu sabia. Já havia sentido, pressentido, premeditado, sido informado. De alguma forma.

E quando recebi a notícia, meu corpo, meu coração, e minha mente, brigaram avidamente pela primeira reação. A carinha triste na mensagem nem fazia tanto efeito perto da tristeza que eu já vinha sentindo há semanas. 

Ele faleceu. 

Triste de nós que estamos vivendo este período. Porque semanas, sim, são suficientes para você perder alguém querido. Ouvi histórias de gente que foram até dias. Nem sei se dá pra comprar em uma situação dessas.

O que eu, sim, sei, é que naquela semana, numa dessas noites conturbadas de menos de cinco horas de sono, ali estávamos. Todos os amigos juntos, em uma mesa longa (dessas de recreio), não lembro bem se jantávamos, mas sei que bebíamos, e tudo parecia mais com um banquete. Dentro de um avião! hahaha sim, dá pra crer?

Uma mesa enorme dentro de um avião, tipo aqueles do exército que vemos em filmes - mesmo porque eu nunca estive em um - bebendo, rindo, falando alto, contando piadas...é, neste caso, falando por mim. Eu contando piadas, e todos rindo. 

Acordei sem entender muito bem, mas pensei ser meu subconsciente tentando me dizer que tínhamos coisas incríveis, memoráveis, inesquecíveis juntos. 

O tempo passou. Algumas semanas, mês e pouco, não sei ao certo.

Até que, desta vez em uma noite de sono bem longa e satisfatória, nos encontramos de verdade. E foi real, de um jeito que eu nem sei explicar. Tem vezes que estou na vida real e parece que aquilo é um sonho, e que a qualquer momento vou acordar. Foi isso, só que ao contrário.

Para contextualizar e ser bem breve: em algum momento do sonho, eu morri. Ou melhor - ou pior, no caso - fui morto. Levei um tiro porque sabia demais. Provavelmente, alguma série policial fazendo as vezes no meu inconsciente.

Quando me dei conta, estava aqui. No mesmo lugar, na mesma cidade, no bairro vizinho inclusive. Porém, o céu estava preto, preto, preto, como só acontece nos meses de inverno, pouco antes do amanhecer.

Sim, era a terra dos mortos.

Logo que percebi do que se tratava, pensei: preciso encontrá-lo!

E não deu outra. Andei pelas ruas, que por sinal conheço tão bem, já que cresci aqui. Procurando, com emoção e esperança. Não demorou muito e encontrei. Era ele. Ali, praticando algum esporte, na rua mesmo, entre outros, naturalmente, mortos também. 

Ele se aproximou, me cumprimentou como sempre fazia, nos abraçamos, eu com profunda emoção, ele tão, tão natural. Como se nada de especial estivesse acontecendo. Falou comigo, disse que tava "tudo beleza", falei pra ele o quanto era bom vê-lo, e ele respondeu, também ficou feliz.

Nem sei o que senti quando acordei. Não conseguia descrever.

Queria encontrá-lo mais vezes. Queria que que ele entrasse pela porta agora mesmo e a gente começasse a rir e conversar, como as coisas sempre foram. 

E isso faz toda a diferença. 

Em tudo!

Como eu queria...


domingo, 27 de junho de 2021

Faro

Isso mesmo, mais seis meses de silêncio. 

Muito álcool, pouco assunto. Muita dúvida, pouca inspiração.

Quase nenhuma.

E lá vamos nós de novo, de onde paramos ou - também conhecido como - de fato, de onde nunca deveríamos ter saído. 

A folha em branco. 

Entre inúmeras tentativas, adiando o inevitável e sucumbindo - como sempre - às paixões da carne, o que uma hora haveria de ser, foi. 

Acho que...é. 

Sabe...existe uma certa tara pela profundidade. 

Do lago, ou do poço. Que seja. Mas é ali, onde nada acontece e tudo pode acontecer.

É olhando pro lago que Narciso vê a si mesmo. Outros, vêem a lua, as estrelas. Ainda outros, enxergam as coisas. 

Desta vez, não podia ser diferente.

Aquilo que as estrelas mostraram, o medo levou embora. Só ficou, então, o silêncio. Bendito mundo moderno!

E aquilo que a lua sempre carregou e nunca deixou ir, até voltou, veja só.

Agora...em vez do lago, encaro o poço. E adivinha! 

O faro, o instinto, a visão, as cicatrizes e os macetes, esses sim. 

Continuam aqui. 

Nunca se vão, ao mesmo tempo em que não deixam nada se aproximar. 

Nada perigoso.

Tudo é perigoso.