Quando a vi ali parada, quase nem acreditei.
É bem estranho tentar escrever sobre encontros por acaso em tempos de Tinder. Mas vá lá, sigamos.
Pois bem.
Nunca havia visto aqueles olhinhos sorridentes de perto. Assim meio puxados, desenhados e brilhantes, por detrás das lentes grandes dos seus óculos de pernas finas, dando ar com a luz que vinha. Eu gosto de gente que sorri com os olhos e esse, definitivamente, é o caso.
Coisa de cinema.
Por vezes me contentei com certas fotos espalhadas por aí, naquela história de amigos, dos amigos, dos amigos. Ninguém é amigo de quase ninguém nas tais das redes mas, de forma inusitada, vamos nos conectando. Às vezes aleatoriamente, às vezes por um algoritmo.
As definições de destino foram atualizadas.
[Penso em propor que troquemos a expressão idiomática "Era pra ser assim" por "O tio Mark já sabia antes de nós". Entendedores, entenderão...mas bem, este é outro assunto.]
O que eu sei é que ela continuava ali, encostada no batente do vão entre o hall e o salão, segurando sua bebida - um coquetel daqueles bonitos que eu não gosto. Devia ser vermelho ou laranja ou rosa, não reparei bem, com alguns adereços misturados ao gelo e aromatizando alguma bebida ruim até que ela fique boa. Ou quase boa. Ainda sim, delicadamente colocados nas suas mãozinhas pequenas, cruzando com a meia-luz amarelada, foi a foto perfeita que minha retina fez questão de tirar.
Sabia seu nome, é claro. Fiz a lição de casa.
Então fiquei por perto. De onde eu estava, logo ali, dava pra ver a banda e ainda encostar de canto numa mesinha daquelas que não servem pra muita coisa. A via dançar de um jeito difícil de descrever. Algum ponto entre o suave e o desajeitado, seus cabelos lisos balançavam pra lá e pra cá, seu queixo levantava e os olhinhos bonitos se fechavam. Ela sentia a música. E eu sentia. Tudo.
É sempre muito mais sexy quando não quer ser, penso.
Até que encostei no balcão. Depois, então, de duas ou três frases com o dono do bar, eis que ela chega e suavemente pousa seu drink por perto. Entre fingir que não percebi e sentir aquele arrepio do "é agora", peço a ele:
- Me vê mais uma verdinha, meu consagrado!
- Uma pra mim também! - ouço sua voz cheia de energia. Escorpião ou Áries, talvez?
- Boa pedida! - rebato - Essa sua bebida aí é muito ruim, tá sabendo?
Ganhei sua atenção, pelos poucos segundos que precisava. Era a grande chance de subir um pequeno degrau ou de cair no precipício...
Ela sorriu e seus olhinhos pequenos se abriram:
- Ah é? Por que?
- De tão ruim que é, no comercial de TV em vez de as pessoas na festa beberem, eles a jogam um na roupa do outro!
- Ahhhhhhhhh!
Ela riu.
Gargalhou.
Mais um pouco.
Fazer uma mulher bonita sorrir é a bola pra fora de Baggio. É especial, é o ápice, é tudo e, ao mesmo tempo, só o que se precisa.
Levantamos as garrafinhas, brindamos e bebemos. Por fim, antes de seguir pelo bar, dara ela novamente aquele sorriso.
A noite tem dessas, afinal.
[Não sei se um dia minhas histórias de amor irão deixar de começar em balcões de bares. Continuarei torcendo para que não.]
quinta-feira, 21 de maio de 2020
quarta-feira, 13 de maio de 2020
Tutti Frutti
Senti o perfume da flor. Tão leve e gostoso foi, que não deu nem tempo de pensar em não se apaixonar.
Um dia, lá atrás, um bom amigo, desses que a gente nunca mais vê, não sabe mais quem é, e ainda sim lembra e preserva aquilo que, um dia, existiu, enfim, me disse: você vai ver.
Agora eu vi. Confesso, sim, que não foi sequer um pouco difícil assumir.
A juventude encanta.
A ingenuidade em sua posição mais vulnerável tem uma potência que não dá pra medir. Aquele olhar penetrante de admiração chega a estremecer as pernas dessa alma ligeiramente cansada. Então se misturam os dois e o resultado dessa alquimia é um olhar de curiosidade que, quando depois de alguns segundos, encanta e seduz.
Tem brilho.
Acompanhando essa energia atraente e bela vem uma onda lá de dentro que quase grita. É ela, a insegurança da mente jovem, que tentamos tanto esconder - você se lembra? - e que agora, olhando de longe, parece um carro alegórico. Por dentro eu rio de gargalhar, de tão bonito que chega a ser. É preciso mostrar, falar, convencer. E o discurso é tão bonito quando bem feito que eu nunca, nunquinha, iria me dar ao luxo de interromper.
A juventude encanta porque ela é, mesmo, linda de morrer.
A paixão no olhar de quem (ainda) tem todos os sonhos na palma das mãos me enche os olhos d'água. Não posso ser hipócrita em dizer que não reavivou em mim uma vontade louca de ganhar o mundo. De novo!
A força das palavras que vêm lá de dentro e saem rasgando feito um punhal. Quem não estiver preparado, que lute. As palavras jovens e pouco pensadas não vão longe, porém chegam carregadas de uma intenção admirável.
O recheio disso tudo acaba sendo a capacidade de enxergar, ou de não fazê-lo, mas enfim, de ver que tudo é possível e que o mundo é um lugar incrível para se viver. Quase convence.
A juventude encanta porque ela sempre estará aqui, de alguma forma.
Vem então a cereja do bolo, que é aquilo que só os olhos vêem. A sutileza da pele, lisa e perigosa, um caminho nada sinuoso - pelo contrário - que a gente viaja, flutua. Uma textura suave que tantas vezes já vimos mas que só deu pra reparar mesmo, foi agora. As mãozinhas pequenas, leves, bonitas, carinhosas, que tocam com medo, descoberta, desejo. Cabelos, pescoço, nuca. Cintura fina, pernas rijas, pezinhos macios perfeitos. A doçura dos movimentos e o riso solto em meio ao prazer. A força do impulso sem o conhecimento pra administrá-lo bem. Uma obra de arte.
É muito fácil ceder ao cheiro e aceitar o coquetel.
Fácil de um jeito que a gente nem luta.
terça-feira, 12 de maio de 2020
Todas são iguais
É, não adianta. Somos assim tão profundamente ligados que, mesmo que por um tempo tentando ficar longe, ainda que pela mais nobre razão, você sempre volta.
Me chama. Me acorda. Me faz levantar e olhar para a escuridão de cada canto desse quarto, e então me lembra de quem você é.
Mesmo na luz não há quem possa se esconder no escuro, já disse o cancioneiro popular.
Então estamos nós, aqui de novo. Madrugada, vela acesa, céu de outono, e a boa e velha máquina de escrever com as folhas ligeiramente mal colocadas esperando o toque, hora carinhoso, hora feroz e selvagem dos meus dedos. Ah, meu amor, escrever em você é como ter lindas e longas noites inundadas de suor, que só terminam depois do café preto e da luz do sol a entrar pela janela.
Todas as noites são iguais, e o melhor continua sendo que, querendo ou não, todas são diferentes à sua maneira.
E eu, que sou sempre o mesmo, assim também, jamais serei o mesmo. Porque, como me ensinou uma criatura terrível, megera e impiedosa (sobre a qual pensei na palavra bruxa, porém tenho profundo respeito pelas bruxas, então me abstenho): Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.
A primavera bem virá depois do inverno.
Até lá, seguimos com reflexões que mais parecem um caminhante sem rumo. Que pura e simplesmente anda. Que vai. Não importando muito bem para onde nem mesmo com quem, mas olhando em volta e admirando a paisagem. Sentindo as mudanças na pele: brisa fria, vento forte, chuva fraca, sol ardente, sombra gélida, pouca vista, o crepúsculo.
Chegamos.
Olho então e contemplo a vista do pôr-do-sol do ponto mais alto da montanha. A lua, que é velha companheira, já veio colocar a mão sobre meu ombro direito. Me viro então e a vejo chegando, bela, imponente, toda sensual em seu caminhar pelo imenso céu negro. Observada com admiração e aplaudida pelas estrelas, cá está ela, a Luiza de Jobim, que agora e desde sempre tornou-se minha também.
Na trilha sonora, o piano delicado de "Dezembros". Em tempos modernos, lmgtfy. Em tempos pós modernos, se tudo tiver sido levado e este for o registro físico, desejo aqui deste ano, do fundo do meu coração, que você encontre este disco e o ouça com atenção.
Tudo isso, é claro, sem sair da posição. A cadeira ligeiramente inclinada, a taça de vinho em equilíbrio e trazendo equilíbrio também, as pernas esticadas sobre o canto da mesa por entre alguns papéis e, além da imaginação, nada.
Mais uma noite igual as outras. Mais uma noite
Diferente.
domingo, 10 de maio de 2020
Rocket
Só porque Elton John não tem saído da minha cabeça...
You could never know what it's like
Your blood like winter freezes just like ice
And there's a cold lonely light that shines from you
You'll wind up like the wreck you hide behind that mask you use
Your blood like winter freezes just like ice
And there's a cold lonely light that shines from you
You'll wind up like the wreck you hide behind that mask you use
And did you think this fool could never win
Well look at me, I'm coming back again
I got a taste of love in a simple way
And if you need to know while I'm still standing you just fade away
Well look at me, I'm coming back again
I got a taste of love in a simple way
And if you need to know while I'm still standing you just fade away
Don't you know I'm still standing better than I ever did
Looking like a true survivor, feeling like a little kid
I'm still standing after all this time
Picking up the pieces of my life without you on my mind
Looking like a true survivor, feeling like a little kid
I'm still standing after all this time
Picking up the pieces of my life without you on my mind
I'm still standing yeah yeah yeah
I'm still standing yeah yeah yeah
I'm still standing yeah yeah yeah
Once I never could hope to win
You starting down the road leaving me again
The threats you made were meant to cut me down
And if our love was just a circus you'd be a clown by now
You starting down the road leaving me again
The threats you made were meant to cut me down
And if our love was just a circus you'd be a clown by now
You know I'm still standing better than I ever did
Looking like a true survivor, feeling like a little kid
I'm still standing after all this time
Picking up the pieces of my life without you on my mind
Looking like a true survivor, feeling like a little kid
I'm still standing after all this time
Picking up the pieces of my life without you on my mind
I'm still standing yeah yeah yeah
I'm still standing yeah yeah yeah
I'm still standing yeah yeah yeah
Don't you know I'm still standing better than I ever did
Looking like a true survivor, feeling like a little kid
I'm still standing after all this time
Picking up the pieces of my life without you on my mind
Looking like a true survivor, feeling like a little kid
I'm still standing after all this time
Picking up the pieces of my life without you on my mind
I'm still standing yeah yeah yeah
I'm still standing yeah yeah yeah
I'm still standing yeah yeah yeah
terça-feira, 5 de maio de 2020
Vida Noturna
E uma curta homenagem ao, agora saudoso, Aldir Blanc...
Acendo um cigarro molhado de chuva até os ossos
E alguém me pede fogo - é um dos nossos
Eu sigo na chuva de mão no bolso e sorrio
Eu estou de bem comigo e isto é difícil
Eu tenho no bolso uma carta
Uma estúpida esponja de pó-de-arroz
E um retrato meu e dela
Que vale muito mais do que nós dois
Eu disse ao garçom que quero que ela morra
Olho as luas gêmeas dos faróis
E assobio, somos todos sós
Mas hoje eu estou de bem comigo
E isso é difícil
Ah, vida noturna
Eu sou a borboleta mais vadia
Na doce flor da tua hipocrisia
Acendo um cigarro molhado de chuva até os ossos
E alguém me pede fogo - é um dos nossos
Eu sigo na chuva de mão no bolso e sorrio
Eu estou de bem comigo e isto é difícil
Eu tenho no bolso uma carta
Uma estúpida esponja de pó-de-arroz
E um retrato meu e dela
Que vale muito mais do que nós dois
Eu disse ao garçom que quero que ela morra
Olho as luas gêmeas dos faróis
E assobio, somos todos sós
Mas hoje eu estou de bem comigo
E isso é difícil
Ah, vida noturna
Eu sou a borboleta mais vadia
Na doce flor da tua hipocrisia
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