O tempo segue se esvaindo, correndo pelos dedos e descendo pelo ralo. Etiquetas agora controlam a minha vida, e tudo - será que tudo? - tem validade. Não dou conta de olhar o relógio, perdi o controle faz muito tempo. Deixo as palavras saírem entre um café gostoso que passei e o tempo do próximo apitar, desta vez não do trem, mas da reunião. Online. Aliás, a única coisa que me impede de ter um surto por completo, que é lembrar do trabalho, do esforço e da recompensa. Dos objetos de decoração que mais gosto, ali está a ampulheta. Tão charmosa e fina que até esqueci que só serve mesmo para isso: medir o tempo. Que se esvai e, quando percebo, tenho que comer aquele queijo. Mesmo sem fome. Nem era isso que eu queria comer hoje. Apesar, que, não ando com muito espaço na agenda pra comer, por que me daria ao luxo? O rádio me diz que não é tarde demais, mas não são nem sete e eu já sinto o peso do mundo sobre as minhas costas. E me lembro que fui feito de sangue, suor e lágrimas. Ora, que mais posso esperar do que viver trabalhando? Talvez morrer trabalhando seja um destino certo. Quem sabe em cima de um palco, sorrindo e cantando, em vez de exercitando a paciência dia após dia, hora após hora. E quem sabe todos os amores que o mundo me deu estejam mesmo dentro daquele coração, concentrados num só. Já o meu, de tanto apanhar, não sabe mais identificar. Cansa lutar contra os demônios a noite e depois acordar às cinco. Não deveria fazer isso todo dia, contudo, o objetivo por fim se confundiu tantas vezes que agora meus olhos são sequer capazes de reconhecê-lo. Ligo o piloto automático, aliás liguei, há alguns meses. É só essa ladeira que não tem fim e que, ainda, me dá a impressão de que dará na beira dos trilhos. Ao som de Marvin Gaye ou Sandra de Sá, me fazendo um último pedido, que é pro trem não passar por cima de mim de uma vez. Talvez eu é que seja o trem, e se for o caso, definitivamente é o meu ídolo Denzel na locomotiva. Sigo o som das batidas, do coração e das teclas do piano. Chegou a hora.
terça-feira, 21 de setembro de 2021
domingo, 12 de setembro de 2021
The great pretender
Ora, é claro, que sigo sofrendo
Mas que posso, eu, fazer?
Se as vezes é a folha em branco e só
E todos os poemas
As prosas e canções
Que me vieram logo ao acordar
Ou no meio do banho, outro dia
Desapareceram
Junto com todos os outros
Que volta e meia me deixam sozinho
Já que sabem que sozinho, nunca estou
Já que não sabem onde está o limiar
Depois, rapidamente, os culpo
E finjo que não fui eu
Quem fugiu.
sexta-feira, 10 de setembro de 2021
Mau
Sinto seu corpo.
Queria poder mesmo sentir, ainda mais
Seu cheiro
Então ouço sua voz
Numa gravação barata e ilegal, feita e gravada pela minha mente suja e vil
Vejo seus olhos
Quando fecho os meus
Já que conto nos dedos os olhos que vêm
E que me deixam ir, assim, profundamente
Penetrante
Desde o primeiro dia em que os vi.
Então saio louco
E te procuro pela cidade
Onde, naturalmente, você não está
Eu sei.
Vou aos lugares em que você estaria
E onde não estaria também
Essa cidade é muito grande, é madrugada
A música no rádio não é mais como antes
No tempo em que havia outros amores
E que eras só uma criança, sofrendo os traumas que hoje te afligem
Apesar de, eu rodo, por aí,
Pelas ruas escuras, becos e bares
Onde você, novamente, não está
Me culpo e me rasgo, por fora e por dentro
Quando sinto o cheiro
Do gozo da moça, ainda em minha barba
Daquele quadril ainda em meu corpo
Sem nenhum sentido
Como sempre foi.
E te imagino a explorar mil possibilidades
Quantas frustrações ainda a se viver
No auge da casa dos vinte
E todas as chances de acordares
Com o travesseiro todo molhado e borrado
Pensando: de novo.
Num último respiro
Mau
Desejo-te mais dessa pena
Por não estar
Aqui.
quinta-feira, 9 de setembro de 2021
Fly away from here
Hoje acordei de um sonho bom
E nem foi sonho de amor
Tampouco teve tesão
Não, devo me corrigir
Putaria é o que não teve
Contudo, um tesão em viver
Acordei rindo, gargalhando
Nem lembro a última vez
Que coisa absurda!
A sensação é incrível
E eu nem sabia mais
Coitado
Ainda sim, sei, que é assim
Às vezes
Dançávamos na construção
Um velho amigo, eu, e o rapaz
O motorista do taxi
Que tinha um carro bom
Bom demais pra dirigir pra outro alguém
E eu mal podia acreditar
Como se parecia
Com meu Monza Tubarão, noventa e quatro
Aquele verde, brega, horrível
Que me apresentou madrugada adentro
E que eu amava
Sabia que era um sonho
Lúcido como todos os meus
Porém, tocava o estofado na porta
Me sentia em paz
Logo estávamos ali, em meio aos tijolos
Falando de coisas sem importância
Dançando aquela música
Que vinha, sabe Deus, da onde
Uma leveza inexplicável
Que eu nunca mais senti
Ou havia sentido
Mesmo no inconsciente
Quem dirá, aqui
Hoje acordei de um sonho bom
E logo pensei na canção
Do Aerosmith.
quarta-feira, 8 de setembro de 2021
Cowboy
Em algum momento tive que entender que, por mais lindo que seja, que fosse ou que tivesse sido, o tempo fez se desencontrarem as coisas. E ainda por mais bem resolvido que pareça, foi um entendimento doloroso, profundo e cruel. Dói pelo tanto que foi bom. Dói tanto pelo bom que nem foi. Que nem chegou a ser.
Também tive - e ouso dizer, tenho - que entender, e processar, mastigar e engolir, toda manhã, após acordar de qualquer versão do mesmo sonho e ficar ali, me questionando diversos porquês, por minutos que vêm como horas. Até a rotina da simpatia do trabalho me sequestrar e só me devolver a noite, destruído, sem qualquer energia pra deixar o choro sair.
Porque a vida me deu cicatrizes e traumas que aqui estarão para sempre. Entendo também que, afinal, isso não é nenhuma exclusividade minha. Não desejo tal sofrimento a ninguém. Contudo, se alguém não passou por nada disso, como os poderia compreender?
Por isso me concentro, sim, em entender - mais uma vez - essa limitação em observar o universo do outro, e o lamentar que sempre aparece no final, tão pobre em sentimento, palavra e compaixão. Ninguém lamenta de verdade se não pode imaginar, nem de perto, o que está acontecendo.
Tento também explicar, de alguma forma, como tudo me parece razoável e, por isso, não há razão para levantar um dedo mas que, apesar disso, me quebra inteiro por dentro como uma vidraça de filme americano, em pedacinhos, que eu já aprendi que nunca mais podem se juntar.
Começo as frases e sequer as termino. Penso no velho Buk, e que talvez uma dose de uísque sem gelo ás oito da manhã me faria colocar as palavras nos seus devidos lugares.
Me releio e não estou fazendo muito sentido. Reconheço também que, lá na frente, vai fazer menos ainda.
Ainda bem.
terça-feira, 7 de setembro de 2021
Don't fall in love with a dreamer
by Kenny Rogers and Kim Carnes
Just look at you sitting there
You never looked better than tonight
And it'd be so easy to tell ya I'd stay
You never looked better than tonight
And it'd be so easy to tell ya I'd stay
Like I've done so many times
I was so sure this would be the night
You'd close the door and want to stay with me
I was so sure this would be the night
You'd close the door and want to stay with me
And it'd be so easy to tell ya I'll stay
Like I've done so many times
Don't fall in love with a dreamer
'Cause he'll always take you in
Just when you think you've really changed him
He'll leave you again
Don't fall in love with a dreamer
'Cause he'll break you every time
Like I've done so many times
Don't fall in love with a dreamer
'Cause he'll always take you in
Just when you think you've really changed him
He'll leave you again
Don't fall in love with a dreamer
'Cause he'll break you every time
Oh, put out the light
Just hold on
Before we say goodbye
Now it's mornin' and the phone rings
Just hold on
Before we say goodbye
Now it's mornin' and the phone rings
And you say you've gotta get your things together
You just gotta leave before ya change your mind
And if ya knew what I was thinkin', girl
I'd turn around if you'd just ask me one more time
Don't fall in love with a dreamer
'Cause he'll always take you in
Just when you think you've really changed him
You just gotta leave before ya change your mind
And if ya knew what I was thinkin', girl
I'd turn around if you'd just ask me one more time
Don't fall in love with a dreamer
'Cause he'll always take you in
Just when you think you've really changed him
He'll leave you again
Don't fall in love with a dreamer
'Cause he'll break you every time
Oh, put out the light
Just hold on
Before we say goodbye
Before we say goodbye
'Cause he'll break you every time
Oh, put out the light
Just hold on
Before we say goodbye
Before we say goodbye
Goodbye
quarta-feira, 1 de setembro de 2021
Time machine [2]
- Oi
- Nossa, você tá um lixo
- Não tenho dormido muito bem
- Como sempre?
- Como nunca.
- Você precisa parar de beber
- Eu faço melhor. Cuido da minha própria vida e só
- Não precisa ser grosso
- ...
- Er...bem
- É nessa hora que você sai e não volta nunca mais?
- Eu sempre volto
- Já percebi que você não é especialista nisso
- Com você, não dá.
- Você está igual
- Igual?
- É. Ouça a voz do lixo
- Não sei o que é pior. De verdade. Você mudou, de novo. Já são vinte anos e você continua mudando. Quando é que será que você vai parar?
- Acho que nunca vou nem tentar.
- Você se acostumou com a mudança. Por isso não pára em lugar nenhum.
- Jamais suportaria. Não entendo como você pode, tão jovem, pensar em estabilidade. Sossego, segurança.
- ...é confortável
- É pequeno.
- Sempre me vi em você, talvez esse tenha sido meu erro. Sempre quis ser você. Mas não, eu não sou você.
- Eu, tal qual, ainda me vejo em você. Só que agora estou triste. Não por mim, mas por você, mesmo. Agora é a hora que começam os erros. Já te vejo no meio dessa avalanche de decisões erradas e, de alguma forma, queria conseguir impedir. Mudar o curso do destino. Suavizar as consequências.
- Não preciso da sua compaixão
- É claro que você iria recusar. Eu também era um grande imbecil nessa época.
- Nisso, não sei se mudou muito
- Eu pareço bem?
- Você tá um trapo.
- Se prepare.
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