"Senhoras e senhores, são onze e quarenta e cinco da manhã e a temperatura local é de 89 graus Farenheit. Foi um prazer voar com vocês até aqui. Sejam bem vindos à Califórnia".
Saí do avião ligeiramente extasiado. Quase não acreditava que ali estava após tantos anos, vendo aquele céu azulzinho e as cores tão límpidas de todas as coisas. Os painéis de vidro permitiam que entrassem os raios de sol e as grandes portas entreabertas me traziam o vento. Aquela brisa anunciava o que estava por vir.
Não sabia se ela já teria chegado e por isso procurei manter a calma. As mãos suando e as pernas ligeiramente bambas dificultavam meu trabalho. Com algum esforço arrastava a mala ao mesmo tempo em que segurava a rosa que resistiu a tudo. Desta vez, eu não a esqueci.
Retirei então do bolso o bilhete, que havia escrito rapidamente, com o endereço daquele restaurante que ela tanto gostava. Era pra lá que eu deveria ir, sem pestanejar.
E é claro que eu fui.
As ruas da cidade me traziam boas lembranças misturadas com certa curiosidade. Uma curiosidade adolescente, bonita e sem ressalvas. Como ela estaria depois de todos esses anos? Me lembrei que, por alguns anos, ainda trocávamos cartas com mensagens boas e, vez em quando, algumas fotos. Depois de tudo o que aconteceu, precisava encontrar um jeito de dizer a ela, de explicar, que suas cartas foram furtadas, perdidas, incineradas, sem mesmo terem me dado a chance de lê-las. A dor era, sim, aterrorizante.
Ainda sim, inexplicavelmente, sabia que ela estaria lá. Era quinta-feira, era o fim do verão, era seu lugar e sua vista preferida. O que poderia dar errado?
Eis que o taxista gente boa me contou, entre histórias incríveis, que esse endereço costumava ser muito popular cinco ou dez anos atrás. E entre prestar a atenção na emoção das suas palavras e tentar imaginar o rosto dela, chegamos ali. Era um prédio daqueles com visual antigo, como dos filmes, fazendo meu coração bater aqui na garganta.
Paguei com calma, agradeci. É bom quando a vida está a favor.
Ao subir, tentei não fazer alarde, queria que fosse uma surpresa boa. Entrei pelo saguão e já avistei seus cabelos, o castanho com o loiro trazia uma combinação que sempre lhe foi única. Parei por alguns minutos, já havia sentido que era ela. E se ainda somos quem somos, logo ela iria - de alguma maneira, que nunca soubemos explicar - perceber que eu estava no mesmo ambiente. Uma energia incrível nos conectava.
Então tratei de me esconder atrás de um dos pilares no canto do balcão. Chamei o garçom:
- Por favor, você pode entregar esta flor para aquela mulher sentada ali?
- Desculpe senhor, não fazemos isso aqui.
- Por favor, é uma ocasião especial, não vai haver qualquer confusão!
- Er...ok. Por favor mantenha tudo calmo por aqui, este é um lugar de respeito
Ainda que de costas, era como se pudesse ver sua expressão de surpresa, o sorriso imediato, logo contido pela timidez. Ela estava ali. Era ela. Que ao esticar o braço para receber a rosa, mostrou-me os singelos movimentos que ainda reconheceria a tantos metros de distância, imagine então assim, tão de pertinho.
A partir dali, tentei conter a ansiedade daquele abraço enquanto a acompanhava, virando para lá e para cá, procurando as possibilidades. De onde teria vindo essa flor?
O restaurante não estava lotado mas era impossível distinguir quem de fato seria o admirador.
Não aguentei muito tempo, confesso. Não podia mais segurar.
Fui até sua mesa e apenas parei. Sua cabeça abaixada e o olhar fixo nas linhas do seu livro, enquanto segurava com a outra mão a rosa bem perto do rosto, sentindo seu cheiro, a impediram de me olhar diretamente. Então pude fitar seu rosto por alguns segundos, que para mim, duraram uma vida inteira, me fizeram memorizar essa imagem e guardá-la para sempre.
Quando, então, levantou a cabeça e pôde me encarar, olhos nos olhos, é que o mundo passou a fazer sentido, finalmente.
A vida acontece o tempo todo. E a gente se encontra é nos intervalos.
terça-feira, 22 de outubro de 2019
Ela e eu
Então sobramos nós de novo.
A noite e eu.
Afinal, era exatamente isso o que eu queria. E assim desejei, imaginei, projetei e o fiz real. Aquele velho conselho estava certo, quando dizia: "Cuidado com o que você deseja. Porque acontece".
E aconteceu.
Me lembro do dia que calmamente sentei na beirada da cama olhando para a parede dividida pelas duas janelas de lata. O salmon da parede com o bege das janelas me trazia pouca ou nenhuma distração, me fazendo naturalmente pensar, e pensar, e pensar.
Embora no fundo soubesse que, o que devia estar pensando era, de fato, em uma solução ou um caminho pelo qual pudéssemos seguir - eu e alguém, até então - de qualquer maneira, não. Eu não conseguia.
Na verdade, confesso, nem tentava. Já estava tudo tão certo para mim, como já vinha sendo certo por semanas, talvez meses. Talvez não, com certeza, meses a fio e eu sabendo exatamente o final do filme como se desenrolaria, enfim.
Era a hora de ir.
Por isso durante aqueles longos minutos, quiçá uma hora, pensava mesmo era em como iria fazer dali pra frente. O que iria fazer, e com quem, e por quanto tempo. Um checklist mental super detalhado, calculado e organizado delicadamente pela minha cabeça metódica e fria. Imaginava minha nova velha vida, sonhos que podia realizar, planos que concretizar-se-iam a partir de então. Refletia também sobre o porquê de isso não me causar absolutamente qualquer dor, quando deveria.
O que foi que aconteceu com a dor do amor?
Bem...não pode existir dor de amor quando não existe amor.
Mas assim? Simplesmente se foi? - me questionava sem lembrar de toda a tortura e das agruras que o tal do amor me trouxe.
Até que lembrei.
E fui. Ao encontro dela, minha eterna companheira, que embora me faça só, jamais me deixa só.
Então somos somente eu e ela. Somente ela.
E eu.
A noite e eu.
Afinal, era exatamente isso o que eu queria. E assim desejei, imaginei, projetei e o fiz real. Aquele velho conselho estava certo, quando dizia: "Cuidado com o que você deseja. Porque acontece".
E aconteceu.
Me lembro do dia que calmamente sentei na beirada da cama olhando para a parede dividida pelas duas janelas de lata. O salmon da parede com o bege das janelas me trazia pouca ou nenhuma distração, me fazendo naturalmente pensar, e pensar, e pensar.
Embora no fundo soubesse que, o que devia estar pensando era, de fato, em uma solução ou um caminho pelo qual pudéssemos seguir - eu e alguém, até então - de qualquer maneira, não. Eu não conseguia.
Na verdade, confesso, nem tentava. Já estava tudo tão certo para mim, como já vinha sendo certo por semanas, talvez meses. Talvez não, com certeza, meses a fio e eu sabendo exatamente o final do filme como se desenrolaria, enfim.
Era a hora de ir.
Por isso durante aqueles longos minutos, quiçá uma hora, pensava mesmo era em como iria fazer dali pra frente. O que iria fazer, e com quem, e por quanto tempo. Um checklist mental super detalhado, calculado e organizado delicadamente pela minha cabeça metódica e fria. Imaginava minha nova velha vida, sonhos que podia realizar, planos que concretizar-se-iam a partir de então. Refletia também sobre o porquê de isso não me causar absolutamente qualquer dor, quando deveria.
O que foi que aconteceu com a dor do amor?
Bem...não pode existir dor de amor quando não existe amor.
Mas assim? Simplesmente se foi? - me questionava sem lembrar de toda a tortura e das agruras que o tal do amor me trouxe.
Até que lembrei.
E fui. Ao encontro dela, minha eterna companheira, que embora me faça só, jamais me deixa só.
Então somos somente eu e ela. Somente ela.
E eu.
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