domingo, 2 de fevereiro de 2020

Quando

Aqui, com minha velha companheira, a madrugada...ouvindo músicas tristes - o velho vício, de se afundar - até que, então, surge a tal frase:

"...But now, baby I need your love right now, I can't go on."

E a primeira coisa que me veio à cabeça foi aquele carnaval. Creio que foi há dez, talvez onze anos. 
Palco grande, um belo estádio, eu lá em cima, até que jovem, animando junto à banda cerca de dez mil pessoas na noite mais movimentada. Tempos bons, de vacas gordas em todo o país, e dos melhores carnavais. Engraçado essa lembrança vir justo agora, pertinho da mesma época, enfim...

O momento que me veio foi de uma baita música dançante, porém carregada de uma harmonia linda, romântica, e uma letra sincera. No auge da minha sensibilidade, tocava a música e olhava os rostos - principalmente das meninas, quase que natural - fechando os olhinhos e cantando a poesia, mão direita no coração, mão esquerda segurando a espuma, bochechas brilhantes, faixa na cabeça, shorts jeans curtinhos e uma expressão toda cheia de sentimento, tocada por aquela canção. 

E eu?
Bem...

Eu, nada. 

Me lembro bem que a música falava de saudade. Também me lembro como se tivesse acabado de descer do palco minutos atrás, do meu pensamento durante aquela "ponte" - para quem não sabe, o pedacinho de música entre a estrofe e o refrão - quando refleti e cheguei à seguinte conclusão: Que coisa...não sinto saudade de ninguém.

Como foi duro. Difícil, demais. Uma música tão bonita, tocando e emocionando tantas pessoas ali, uma letra doce, falando de saudade, e eu simplesmente não podia partilhar desse sentimento adequadamente.

E é como me sinto agora, guardadas as proporções. Sinto certas saudades, de fato, sim. Sentimentos, inclusive, que nem entendo bem o porquê de estarem aqui, existindo todo um lado cruel e sombrio do qual jamais desejo estar próximo na vida. Uma confusão terrível.

Mas é que...quando vem a música fatídica, de declaração, pra qualquer um cantar de joelhos frente ao seu grande amor, é que me vejo olhando para a letra e pensando: Peraí...eu não posso cantar isso. Cantá-la-ei um dia, porém não hoje, por não ser o que sinto. Porque não há figura na qual eu possa pensar, que me traga vontade, lá do fundo, de recitar uma música assim. 

Sabe, de verdade, é bem triste essa sensação de neutralidade perante às coisas. Prefiro o outro eu, sofrido, dolorido, agonizando. 

Olhar pra si mesmo, assim, tão frio, torna as coisas um tanto quanto sem graça. 

Mentalizo, então, meus braços abertos. E deixo que tudo venha. Sem me importar.

Quando.



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