quarta-feira, 5 de abril de 2023

Fui eu

Já que o amor imperfeito deixa a gente brega, e é difícil ser mais brega do que eu, José Augusto que fale por mim.


É mais um dia sem você
Mais uma noite que eu espero
Se alguém no mundo quis você, fui eu

Te dei os sonhos que eu sonhei
Te imaginei prá vida inteira
Se alguém fez tudo por você, fui eu
Diz agora o que é que eu faço pra viver
Se a cada dia é mais difícil te esquecer
Tudo isso faz doer demais
Eu queria só voltar atrás, ficar contigo
Diz agora o que é que eu faço prá aceitar
Será que existe outra pessoa em meu lugar?
Mais o tempo vai te convencer
E um dia vai reconhecer
Que sem mim não pode mais viver
Sentimento
Dói por dentro
E a solidão não quer parar de machucar
Sentimento, Dói por dentro
Meu coração não quer ninguém no teu lugar

terça-feira, 4 de abril de 2023

Póstumas

Então desta vez, foi só isso mesmo que ficou, não foi?
Das cartas que enviei, a mais bonita, você fez como Adriana Calcanhoto sugeriu.
Das flores que mandei, cada pétala secou, sem dó nem misericórdia.
Guardamos para nós palavras duras, de raiva, de ciúme, e de paixão. Verdades tão difíceis de engolir, registro da maneira tão bruta e absurda que viemos a nos perder.
Perdemo-nos no tempo, nos planos, no passado e no futuro. Você se perdeu no personagem e eu me perdi em tuas quase-verdades. 
Restou então, em casa, algum detalhe. Já que tudo foi-se embora com a faxina, mas ainda existem doces movimentos irreparáveis entre o espelho da suíte e a gaveta do criado. 
Permitimos finalmente fechar as portas daquilo que para nós foi o céu e o inferno. Mas que no fim, deixamos voz apenas aos demônios, já que o paraíso estava tão bem guardado. Para quê, afinal, olhar para ele, não é mesmo?
Mostramos a nós mesmos incapazes. Desde o meu jeito algoz de descobrir tuas inverdades até a sua fúria em meu portão. Ferimo-nos de todas as maneiras: psico, emocional, e também física. Matamo-nos de tanto nos amarmos. Um furacão quebrando a tua arte, a minha porta, e finalmente a admiração.
Voltamos pro buraco que viemos. Deveríamos mesmo ter saído?
Da cama do hospital, em um breve piscar de olhos, então a pista de dança.
Desafiando o corpo e autodestruindo minh'alma. Despeço-me de ti e de todas as noites mal dormidas tentando encontrar sentido em teus mistérios.
Que por fim se mostraram mais um drama adolescente.
Um dia me disseram que eu passaria a gostar das mais novinhas. Só não achei que essa era tua cabeça.
Jamais assumirei minhas histórias. Segredos aqui guardados pra sempre, preservando a doçura do teu sorriso apaixonante e mágico, que só quem conheceu, eu sei, fui eu.
E já que quem te amou, mesmo, fui eu, permito-me aceitar tua sugestão. Parar de perder tempo, e sim, seguir. Deixar-te livre ao que te é compatível. 
Escrever tua história.
Sobrepô-la a esta nossa.
Faxinar o restante.
Porque é impossível superar o que jamais será superado. 
Nem apagar de novo o que já foi apagado.
Pouco a pouco do nosso viver.

Do fundo do meu coração

Porque definitivamente, tem vezes que só Roberto Carlos.


Eu, cada vez que vi você chegarMe fazer sorrir e me deixarDecidido eu disse: nunca maisMas, novamente, estupido proveiDesse doce amargo quando eu seiCada volta sua o que me faz
Vi todo o meu orgulho em sua mãoDeslizar, se espatifar no chãoVi o meu amor tratado assimMas basta agora o que você me fezAcabe com essa droga de uma vezNão volte nunca mais pra mim
Mais uma vez aquiOlhando as cicatrizes desse amorEu vou ficar aquiE sei que vou chorar a mesma dor
Agora eu tenho que saberO que é viver sem você
Eu, toda vez que vi você voltarEu pensei que fosse pra ficarE mais uma vez falei que simMas, já depois de tanta solidãoDo fundo do meu coraçãoNão volte nunca mais pra mim
Mais uma vez aquiOlhando as cicatrizes desse amorEu vou ficar aquiE sei que vou chorar a mesma dor
Se você me perguntar se ainda é seuTodo o meu amor, eu sei que euCertamente vou dizer que simMas, já depois de tanta solidãoDo fundo do meu coraçãoNão volte nunca mais para mim
Do fundo do meu coraçãoNão volte nunca mais para mim

domingo, 2 de abril de 2023

Inferno

Estar ali era providencial
Como é difícil viver assim
Sempre à sombra
No escuro
Sem pistas
Sem dicas
Sem qualquer informação que poderia,
Sim
Ser facilmente dita

Porém, não
Me vejo deixado assim, perdido na selva
E o pior, propositalmente
Talvez com o mais cruel dos fins
Que é o de me torturar
De me ver a buscar
Sofrendo, e no fim, rastejando
Por um pouco de luz
Neste túnel

Estar ali era necessário
E providencial
Pra poder olhar toda aquela gente dançando
Cuja expressão denunciava a quantia de álcool
E o rebolado, a quicada, a dancinha
As fazia esquecerem seus valores
Sim, eu tinha que ver
Seus olhares sedentos por algo
Fosse eu ou qualquer um ali

Pude reproduzir cada detalhe em si
Recriar toda a cena que já havia visto
Daquele desrespeito em carne crua
Da pouca habilidade em ser vadia
Coisa que um dia já valorizei, e muito
Olhar pelas paredes, procurá-la
Imaginar os olhos imaturos
E os outros que naturalmente julgavam
Aquela que parecia tão comportada

Então, joguei o jogo
Usei as mesmas cartas, bem criança
E vi que a consideração é mesmo, minha
Que na vez dela, é claro, não daria certo
Jamais me atenderia, ou abriria a porta
A cada vez que me vejo sozinho
Percebo a narcisista patinando
Não sei se consigo ter alguma pena, ou algum dó
Deste inferno que um dia hei de sair

sábado, 1 de abril de 2023

Spring cleaning

Resolvi limpar

Fazer a faxina

Livrar-me de tudo

Dar fim, finalmente


A fronha que ainda

Trazia seu cheiro

Se foi para o cesto, já de tão usada


Varri toda a casa

Encontrei cabelos

A toalha manchada

E algumas tarrachas


Pedaços de linha

Das mais variadas cores

Também os varri 


Troquei os lençóis 

Com fluidos de nós 

Por todas as partes

Se foram também 


A camisa cinza

Voltou, chegou ontem

O que era seu toque

Deu lugar ao doce do amaciante


Apaguei as fotos

Os vídeos, os áudios

[E todas as cartas que eu nunca vi]

Apaguei as redes

E, então, o contato


Ficou o cigarro

Que sigo comprando

E também a lua

Do meu Tom Jobim

Pois nada melhor ter deixado-me um vício

E um astro no céu que não dá pra varrer