As coisas, enfim, se perderam.
Sensações e filosofias até então divididas apenas naquelas madrugadas quentes, em mesas amarelas e de números pares, resolveram imperar, vir para o foco principal, assumir seu verdadeiro papel. Por que será que isso nunca pareceu ser possível?
O inferno continua sendo os outros. Ele não errou, não mesmo. Agora, errou sim o compositor do "viver é melhor que sonhar". Enquanto as idéias estão desenhadas, discutidas, arquitetadas e assim então construídas, as coisas efetivamente funcionam. No mundo real, não.
Pode-se odiar o que, ou quem quiser, enquanto se pensa. Pode-se matar, morrer e até voltar, se quiser. Afogar-se no sereno, voar pelo vidro do carro e então acordar na cama, molhado de suor. Ainda sim, se está vivo. Repito, ainda sim, se está vivo sem se viver nada. Basta pensar nas coisas.
E então, neste caso, o grande ponto foi a sustentação da ira, desprezo, desesperança e enojamento para com as pessoas. Os outros. Tudo estava estável até esse coquetel atravessar o portal e vir a estacionar aqui: no trânsito, nos bares e restaurantes, recepções de consultórios médicos e uma lista de et ceteras quase que interminável.
Sei que se as coisas saíram do pensamento e tomaram um lugar físico, palpável, visível até, a culpa foi minha. De alguma forma - que, infelizmente, não sei explicar - tudo se tornou tão real, tão perto, que não consigo mais enxergar solução.
Mesmo porque, se eu soubesse explicar, já teria resolvido isso.
Há alguns meses, me disseram - em meio a um caminhão de besteiras - algo mais ou menos assim: "Se você perder a fé nas pessoas, vai perder o afeto. E o afeto é a solução para que, se é que ainda é possível, o mundo possa voltar ao normal. O afeto é o que vai trazer as pessoas de volta". Enquanto minha opinião (sobre as esquisitisses aí de fora) estava apenas incluída no ritual da mesa, e das TVs dessincronizadas, estava tudo bem. Agora, é só olhar pela janela, que já vem aquela sensação de que eu posso ativar uma bomba nuclear que está dentro do meu estômago.
Por fim, o caminho escolhido, foi o exílio. Recolhimento quase que total, e que será efetivo, sei disso com clareza. O que não sei ao certo é como vou resolver. Será que vou conseguir guardar tudo de novo, dentro de uma caixa?
Melhor esperar até lá, até que as coisas e eu estejamos a sós.