sexta-feira, 20 de junho de 2025

Doença [1]

Me lembro bem d'um dia em que, lá em dois mil e dezenove, um grande amigo me falou:

 - Se prepare, pois estamos entrando em uma nova geração. O que vai valer, agora e então, não são mais as doenças do coração. Preparemo-nos pra darmos boas vindas para os, até então, conhecidos como "distúrbios", "transtornos", "condição". 

Falando com clareza, disse ele em, alto e bom tom: as doenças da cabeça, nosso mal, assim, serão.
Doenças psicológicas.
Imagine.
Em 2019.

Que previsão maluca foi essa?

Março de dois mil e vinte, chega a tal da pandemia.
Nem preciso mencionar a lista de transformações.

Mas eu sei, meu grande amigo, j'acertou.

Vacinamos-nos, quase todos, nós.
Sobrevivemos e - só por isso - escrevemos, parte de nós.
Qu'acabou, graças a Deus, passou. passou.

Só que não nos perguntaram, já depois do chamado "novo normal", como é que estavam nossos nós. Exigiram que voltássemos com tudo. Bem alegres, meio mudos, por sermos sobreviventes do que um dia antes, diziam ser fatal.

Foi fatal pra muita gente, matando principalmente, nossos poucos, porém, bons.

Agora paro.
Respiro.
Reflito.

O mundo se tornou um lugar bem do esquisito.
Nunca soubemos quem somos, disso eu sei. E o que vejo é que agora piorou.
Empatia nunca foi uma questão
A gente só dava um jeito, uma maneira
A gente só fingia muito bem
E no final
No fim das contas
Não conheço quem dá conta
De nos explicar porquê

Adoecemos cada uma à sua maneira
Nenhum doente é igual
Nos perdemos desdenhando a brincadeira
A folhinha presa, ali, na geladeira
Marca os dias (quem diria!)
Denuncia, quase grita





domingo, 8 de junho de 2025

Divã

Chorar no divã, por si só, é de fato algo ruim de lidar.

Ao chorarmos em casa, estamos blindados. 
Podemos berrar, espernear, deitar no chão, em posição fetal, e então
Só então
Permitirmos, abrir o bocão

No tapete da sala
Debaixo do chuveiro
Talvez no travesseiro
Viramos criança

O que nos faz chorar
Depois de soluçar
Perde sua posição
De primeiro lugar

A vergonha é se ver
E se ouvir, se entender
Ao chorar só pra si
Se quiseres parar, vais saber

Entretanto, eu bem sei
Olhando pra parede, no divã de alguém
Chorar de soluçar
[é normal, já devia saber, mas porém]
Dói bem mais
Dói de um jeito 
De tirar-nos do eixo
E nem teu analista trazendo algum lenço
Resolve a sua dor

Ao falar em voz alta
Ao falar e se ouvir
Ao verbalizar tudo aquilo que acha que sabe
Vemos nós, no divã, feito nus
Só que muito mais nus
Que uma roupa haverá de esconder

Ao se ouvir, e dali, perceber
O que foi, o que é, e talvez
Haveria de ser
Tudo aquilo em que a gente crê
Pelos dedos, se escapa, se vai
Dando espaço pr'aquilo que, hoje, é você
E ao chorar no divã, seu eu, cai

Pra voltar
Levantar
Bem melhor
Que alguns meses atrás.