sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Samba e Amor

Porque eu não sei se eu já vi o Chico errar algum dia.


Eu faço samba e amor até mais tardeE tenho muito sono de manhãEscuto a correria da cidade, que ardeE apressa o dia de amanhã
De madrugada a gente ainda se amaE a fábrica começa a buzinarO trânsito contorna a nossa cama, reclamaDo nosso eterno espreguiçar
No colo da bem-vinda companheiraNo corpo do bendito violãoEu faço samba e amor a noite inteiraNão tenho a quem prestar satisfação
Eu faço samba e amor até mais tardeE tenho muito mais o que fazerEscuto a correria da cidade, que alardeSerá que é tão difícil amanhecer?
Não sei se preguiçoso ou se covardeDebaixo do meu cobertor de lãEu faço samba e amor até mais tardeE tenho muito sono de manhã

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Aqui

Sempre que preciso fugir
Venho pra cá
Pra folha em branco
Pra velha máquina
Pro canto escuro do quarto e
Pra luminária bem fraquinha

Escrevo poemas que não rimam
Não tenho feito prosas, tem anos
Me culpo por isso
Me culpo por mais
Um tantão de coisas aqui
E ali

Espalho os discos no tapete
O café vai esfriando
Sigo pensando, pensando

Se sempre que eu quero sumir
Venho pra cá, tem anos
Para onde é que eu vou, porém
Sempre que preciso fugir
Daqui?

Fincado no chão
Pesado, me acomodo, e fico
Queria voar
Eu gosto de voar
Às vezes.
Acontece que não sei, 
Nunca dei de aprender
Então quando vou, é sempre uma queda
Brusca, violenta, desajeitada

Percebo os sinais que não quero entender
Antes de fugir eu devia aprender
A voar sem temer a queda
Sem buscar algo pra me prender
Quem voa é assim, não está nem aí
Eu não sou assim
Se tem um lugar que sim, eu estou.
É aí.



quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Virgo

A luz do sol entrou pela varanda
Invadiu o quarto e a retina
Calor lá fora e aqui dentro.

Primavera se atrasou
Planejou trazer, e trouxe
A bela flor
Amada, flor
A senhora do verão.

Antes mesmo de riscar 
O velho bloco
Sobre aquele pesadelo tão terrível
Pegara água o mordomo
No poço que nunca seca

Perdemos a hora
A noção e o juízo
Perdemos o medo
Abrimos as portas
Deixamos vir tudo
De fora pra dentro

Quando dizes: vem
Não há mais segredos
Tu sabes, não nego
Te quero de novo
E tu me acompanhas
Trocamos as letras
Do carma com cá
Da mulher com pê

Imito o deus sol
E invado teus olhos
Teu corpo, tua vida
E teus belos cortes
Como recompensa
Me limpa e me prova
Teu gosto e o meu
Misturam-se à boca

Não há mais segredos
Sabemos de tudo
Nos olhos e ouvidos
Quando toco as cordas
E mostro-te todo

Até que me toques
Até que eu te morda
O perigo bate a porta
Já traçamos os planos
Tão calmos e serenos
É bom não ter mais medo

Ao menos nessa lua. 

sábado, 15 de outubro de 2022

Caderninho

A ruptura é um processo delicado
Penso que não 
Não escrevo para mim, 
mas sim, para quem lê 
Preocupado

Dancei bolero até as 4
Manhã, noite afora, e o vento
Me afoguei la pras 3
Me enganei até as 2
Paixão, veio forte, até a 1
Cantei e aplaudi
Meia noite

Eu gosto da fúria do Tim Maia
Mas confesso ter vindo aqui pelo Rei
Conservador não sou, mas sim, sei ser
E também não sei amar, mas quero bem

Canto amanhã de manhã mesmo que meu café 
não tenha açúcar
Ouço a respiração da moça que me dará crias
Já que a cerveja congelou, e o vinho, bebi todo
Saíram do controle as coisas, sim, de novo

Capricórnio sempre deixa-me, assim
bem longe dos vícios
E eu adoro provocar leitores céticos
Mas o mapa da loirinha me assustou
E já sinto-me ansioso, esse futuro

Risco guardanapos velhos à caneta
Depois eu passo tudo pro teclado
Lembro da rodoviária na Nações
E tanta confusão que lá vivi

Bolero a ensino a dançar
Boletos ensino-a a pagar
E perco-me todo, me humilho, e me lasco
Pois não quero crer
Que ainda serei
Sozinho de novo
Eu não sei.

Meus poemas sempre 
Se acabam assim
Não lembro quem foi
Mas sei, foi, pra mim

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

À queima roupa

Me reconheço e dói
Não me conheço, e sofro
Choro e tremo, 
Choro e bebo
Choro mesmo
Com motivo.

Fantasmas que um dia temi
Que lutei, me cortei, 
Que pensei que venci
Ainda seguem comigo
Ainda seguem aqui

Percebo-me e, sim
Conheço-me novo
Havia um tapete
Talvez um capacho
Feito um Maracanã 
Pra eu varrer a meu bel prazer

E eu varri. 
Sem medir.
Sem pensar.
Mas o que esperar 
da indescritível certeza da alma jovem e imatura, 
afinal?

Não há mais outro jeito de viver
Senão arrancá-los a força
Verdades à queima roupa
Palavras à sangue frio
No fundo dos seus olhos.

Imito Pessoa, o poeta
Dispo-me das roupas velhas
Parece mais uma pele
Sinto rasgar-me o peito
Jobim me trouxe um presente
Me deu finalmente a cura.

Veio a lua cheia então, e vi
Sempre a amei, sequer a conheci
Também, como poderia?
Se o céu era logo ali
Faltava-me a mim, apenas
Olhos feitos pra enxergar

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Amor, Amor

Porque aprender a ouvir Bethânia é transcender


Quando o mar

Quando o mar tem mais segredo

Não é quando ele se agita

Nem é quando é tempestade

Nem é quando é ventania

Quando o mar tem mais segredo

É quando é calmaria


Quando o amor

Quando o amor tem mais perigo

Não é quando ele se arrisca

Nem é quando ele se ausenta

Nem quando eu me desespero

Quando o amor tem mais perigo

é quando ele é sincero

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Há um lugar seguro, tranquilo e calmo, bem ali, depois daquela esquina. Só mais uma quadra e viramos.
Depois daquela quadra, onde bate o vento forte, que não dá nem pra sentir quando te abraço e te protejo além do frio. 
Chegamos nesse ponto ao mesmo tempo. Abrimos essa porta devagar, quase que juntos. 
Sinto muito. Queria ser discreto e simplesmente não consigo, dizer que descobri tudo sozinho, não posso ser tão mau vilão assim.
Que bom que saímos do raso.
Mergulhei querendo tocar o fundo, já que sempre sou assim, tão denso e sentimental. Quando vi, como errei rude, que bobeira ter pensado que ainda era o mesmo de antes. 
Esse plano fica mesmo no ar.
E foi lá que, então, encontramos. Tudo o que queria descobrir, mas tinha medo. Tudo o que há de lindo desde agora e assim será. Meu lado racional insiste e luta: como pode?
Acontece que eu vejo tudo. Eu sinto tudo. Não é imaginação nem fantasia, não é sonho nem desejo, não é alucinação, já que contigo eu nem preciso.
Te vi tão linda, me esperando, tão redonda, lua. No melhor sentido. Toquei teu corpo, envolvi-te inteira, até sentir tua pele, teu calor, e os batimentos confusos, rápido e lento, então, reconheci.
Era ela.
Que antes de chegar já recebeu todo o amor que ousei te dar de tantas formas, cheiros, gostos, e de tantos jeitos que jamais provei - já que tua pele nunca esteve por aqui. 
Lá, pudemos nos envolver, sentir o calor, tocar as coxas, sentir a forma, o cheiro, o gosto, e todo o mel vindo e voltando, sem pressa, e em excesso, de dentro pra fora, e como sempre, misturando tudo o que é amor com promiscuidade sem perder qualquer detalhe.
De novo e sem a menor previsão de retorno, estamos lá, uma vez que o tempo, lá, corre diferente. De um jeito que, de repente, me entregaste tudo o que eu temia já ter sentido contigo, tudo o que já fazia sentido. Sei que preferes ele, mas sabes que quem vem mesmo é ela, e que ela vem que vem com tudo. Destruindo a casa e te fazendo de besta daquele jeito que só você sabe ser.
Não saímos de lá, já que é lá, que ela brilha, e te olha nos olhos, entre o azul e o cinza, um ser insuportável. Daqueles que dá raiva de tanto amar. 
E você ama.
E eu amo.
Até explodirmos e voltarmos para a terra sem sabermos exatamente o que fazer com isso tudo. O resultado? Claro, positivo para febre. Com força. De um jeito que o algoritmo já sabe até as cores que queremos. Conjunto completo. Dinossauro ou fada bailarina. A minha gostava do Hulk. Mas a Lua? Jamais saberemos. 
Um dia, talvez.
Sairemos de lá. 
E estaremos aqui. Prontos.
Sem pensar no porquê, sem tentar entender. 
O rock n' roll não para e no final você vem e aparece. Vocês, de um jeito de outro, vêm aqui me beijar. Que é pro tempo parar. Pro som sumir, e pra gente se ouvir, num só.
Você está aqui. 
Vocês estão.
Lá.

Blue eyes

 Elton John, for God's sake. I can't believe it.


Blue eyes
Baby's got blue eyes
Like a deep blue sea
On a blue blue day

Blue eyes
Baby's got blue eyes
When the morning comes
I'll be far away

And I say

Blue eyes
Holding back the tears
Holding back the pain
Baby's got blue eyes
And she's alone again

Blue eyes
Baby's got blue eyes
Like a clear blue sky
Watching over me

Blue eyes
I love blue eyes
When I'm by her side
Where I long to be

I will see

Blue eyes laughing in the sun
Laughing in the rain
Baby's got blue eyes
And I am home, and I am home again