segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Quem você pensa que é? - Parte 2

Parece impossível pensar que alguém gostaria de descer daquele degrau.

Pensava que estava apaixonado e que valeria pena o esforço pois a recompensa, ou seja, o novo estilo de vida iria ser tão ou mais intenso – de todas as maneiras diferentes que isso pudesse significar. 
Hoje quando olho e dou uma varrida naquelas cenas, tento incansavelmente procurar razões inconscientes que me levaram a fazer isso. Não é possível que eu tenha sido derrubado assim. (Ou é?) 
Talvez quisesse sentir como é fazer as coisas direito ao menos uma vez na vida. Esse é um argumento forte, me lembro de ter passado por ele. 
Talvez, não sei, estivesse cansado e com o velho pensamento de que já havia provado tudo o que poderia provar do lado de lá. 
De fato é válido, continuo concordando com isso.

No fundo o que gostaria de dizer é que, o que quer que tenha me trazido até aqui, foi muito mal administrado e hoje me encontro no caos.

O que eu penso que sou?
Posso correr todo o dicionário para responder essa pergunta e não vou encontrar a palavra “foda”. 
Não sou mais isso. 
Perdi aqueles poderes, por menos interessantes que fossem. 
Perdi minha identidade.
Não sei o que eu sou porque não sei quem sou. Me perdi em algum ponto no caminho, não sei exatamente qual, mas misturo três ou quatro músicas em minha cabeça e aos poucos surgem flashes isolados daqueles momentos...

...se foram os sonhos
...se foi o trabalho
...se foram os planos
...se foram os amigos
...se foram as economias
...se foi a gentileza
...se foi a malandragem
...se foi a autoestima
...se foi a família
...se foi a consideração
...se foi o respeito
...se foi o interesse
...se foi o calor
...se foram os sorrisos
...se foram os motivos

Onde encontrar o que se é, quando se perde tanto? 
Se tudo o que foi perdido servir para ganhar depois, então uma limpeza há de acontecer, agora ou depois, pra que eu possa me encontrar com o que eu realmente seja.

Por enquanto, não sou nada.

Apenas vou.

Estou.

domingo, 11 de agosto de 2019

Quem você pensa que é? - Parte 1

“O que uma pessoa pensa ser, diz muito sobre o que ela realmente é”.

Nunca a matemática das palavras me pareceu tão simples. Quase nem consigo acreditar que tudo o que aconteceu e, principalmente, acontece, é culpa integralmente minha.
Sem ser piegas, não estou falando sobre ser vítima de nada. Mas sim, sobre deixar uma série de situações externas te afetarem e assim te fazerem sentir que é o que é. Ou, a partir do ponto de vista bom, tudo o que se acredita ser e que se constrói baseado no que quer que seja, te fará tornar-se então, o fruto deste pensamento forte. 
Pelo bem ou pelo mal, não importa o que os outros pensem ou falem, você assim será até que – conscientemente ou não – queira e decida mudar. 

Chega a ser curioso até, lembrar de como me via no espelho. Por mais arrogante ou sarcástico que pareça pensar nisso, só eu sei o quanto afetou minha imagem para aqueles ao meu redor. Não, não que eles me achassem “foda” como eu pensava ser. Hahahaha, isso é ridículo. Mas que essa minha força de pensamento me fazia fazer coisas foda, ter uma postura foda – muito longe de babaca ou escrota, te garanto, estou falando de foda, mesmo! – e com que as pessoas por aí olhassem e, por alguma razão, soubessem como eu acreditava no meu taco. A ponto de se convencerem.

Houve fases boas e também terríveis. Profundos abismos e intensos recomeços. Ganância, luxúria, gula, ira, preguiça, inveja, estavam quase todos ali. 
Olho com carinho e clareza agora para saber que isso só foi possível de fato porque assim eu o quis. Assim eu me fiz. E reforço, não me entenda mal, era só um jeito louco de acreditar nas coisas e que por alguma razão fazia com que as coisas acontecessem. 

...

O que sei é que eu quis. Decidi.
E mudei.

continua...

sábado, 10 de agosto de 2019

Dentro da caixa de vidro


Me deparei com este pensamento por esses dias, e, por Deus, quanto isso me tocou. 
Não só pelas coisas como estão hoje, afinal, o que tenho pensado sobre mim mesmo tem sido tão pobre e vazio que acordo todos os dias me sentindo um lixo. Não tenho a menor disposição, muito menos energia, para sair da cama e encarar o dia. Não me orgulho, mas passo dias ali deitado na cama, como diria o poeta contemporâneo: Olhando para o nada, pensando em tudo. Penso, penso, e tenho consciência de que no fundo não quero uma conclusão. Não há qualquer atitude resultante. O outro dia vem e com ele a mesma vontade de não afetar e não ser afetado por nada nem ninguém. 
Não quero morrer. Só não tenho, lá, muita vontade de viver. De fazer algo interessante, ou mesmo desinteressante, tsc, tsc. Nada! Nadinha. 
Chega a ser impressionante de tão bosta, já com o perdão do termo.

Lembrando que sei que estou escrevendo, gritando aos sete ventos, enchendo os pulmões, para ninguém. Me sinto dentro de uma caixa de vidro onde todos podem me ver de fora mas eu não sei de ninguém que está ali. Eles não podem me ouvir, tampouco posso eu. Podem sim me ver mas não exatamente saber o que está acontecendo. 

Então só finjo que estou bem para que não tenham pena. 

Só finjo.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Tão Jovem

“Hoje não sou mais tão jovem, quando sabia de tudo”

Passa por mim então a frase do Oscar Wilde, ainda que não seja exatamente assim. E assim me lembro do quão inocente eu era quando escrevia por aqui, desse jeito, tão atemporal. Eu era jovem e, para minha ingênua e inexperiente forma de ver as coisas, o único tempo que, de fato, existia, era o meu. 
Ledo engano. Tão bobo erro. 
Sabe de uma coisa? Eu gostava do anonimato. E por isso optei por continuar aqui, nesse formato, mesmo sabendo do tão pouco alcance. Vá lá! Vomitar palavras com o único intuito de atingir alguém não pode ser algo respeitável – ao menos para minha cabeça dura, isso sim, nunca muda.
Recordo-me com saudade de uma espécie de confraria que se sustentava de forma tão bonita: com palavras, poesias, canções. Medos, confissões, apoio, mistério e descoberta, procura por respostas e ainda mais perguntas. Tudo aqui, nesse quase submundo onde só era possível encontrar alguém se, definitivamente, se procurasse. 
Porém como procurar por algo que nem se sabe o que é?
...
Pois é. Era assim.
Era assim e era lindo só por causa disso.

Lembro também de como variada, crítica, confusa e sincera era a interação de nós, os assim assumidos donos das palavras. Não sabíamos quem éramos, quantos anos tinha o outro nem mesmo qual seria seu sobrenome. E essa não invasão, digamos assim, do espaço do outro, fazia com que a magia continuasse existindo. Às vezes o contato até se aprofundava um pouco, mas raramente se estendia.
O ponto é que me lembro de quão “adultos” pareciam todos os textos, inclusive os meus, ali beirando os vinte anos. Era tão bonito ler todo mundo, e imaginar quanta coisa aquela pessoa viveu, tudo o que passou, o que deixou aquele cara tão ranzinza e amargo, ou qual foi a decepção tão grande que fez alguém desistir e nunca mais tentar. 

Agora me sinto adulto. Quando olho pra folha branca, tenho convicção de que sou eu. Quando penso muito, quase rasgo a tela e jogo na cesta de lixo. 

Pensando bem, talvez isso não tenha mudado tanto também.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Código Morse

Pensei que seria mais difícil começar. 

De fato, nunca foi algo assim, tão surpreendente – ao menos para mim. Ainda sim, só de olhar a folha branca quase que dançando como na velha máquina de escrever todavia esteja nessa versão super digital com retina e tal e coisa, confesso que me emociono.
Quase escrevi que não sei porque fiquei tanto tempo sem esse vício que são as palavras. Entretanto, como mentir assim, descaradamente, depois de todos esses anos? Uau, anos! 
Cá entre nós, eu sei, sim, porque deixei de escrever. E ainda espero abrir o coração pra falar disso sem medo ou culpa.
Por enquanto, o que importa de verdade é que estou aqui e...ah, estou me sentindo vivo. 

É uma fuga, e eu preciso dizer. Estou no território proibido, na zona perigosa, na mira, no alvo. Ao escrever, dispo-me às três da manhã e caminho pela Paulista. Abro os braços agora cheios de marcas e imploro: “Me mutile! Me violente! Até me matar!”. 
Escrever é o primeiro ato de coragem em meio aos tantos acovardamentos dos últimos dias, meses. Anos (ao menos, por hora) não. 

Deixo as palavras correrem pelo meu corpo. Abro as portas do meu coração para que saiam, percorram o caminho natural da consciência, passem pelas mãos cuidadosas e artesãs do pensamento, até deslizarem pelos meus nervos para que assim então caiam como uma luva nas pontas dos meus dedos. 
Penso em como teria sido diferente se elas tivessem caído, em vez disso, na minha língua, prontas para serem disparadas como uma metralhadora sem controle nas mãos do recruta. 
Não.
Não sou mais um iniciante. E por causa disso, tenho dores de garganta tão frequentes. 

Despeço-me esclarecendo a você que lê, que enquanto escrevo e posto, você não estará lendo. Não posso, não podemos. Não é seguro (já até disse, não?). Obrigado por ler o que não podia ler até então. 

Que todos entendam o que eu não consigo.