domingo, 19 de julho de 2020

You are good

Estava quase anoitecendo quando resolvemos colocar o plano em prática. 
A operação já durava meses e tudo havia sido tão bem calculado que não dava pra errar. Bem...digamos que a chance era pequena. 
Vesti minha roupa como quem se apronta para o baile. Uma camisa social não muito justa, a calça na medida que é pro revolver encaixar bem nas costas, o suporte das pistolas e das balas por dentro do terno. Só o sapato social preto mais velho porque sabia que iria precisar de algo confortável. Olhei para a cama e lá estava o colete à prova de balas...o encarei por alguns segundos e virei as costas. Depois de alguns anos na corporação a gente meio que ignora certos protocolos. 
Excesso de autoconfiança ou apenas tolice de um velho rabugento? Não sei, ambos presentes da experiência.

Pois bem.

Dirigi por cerca de uma hora até chegar no endereço. Tudo já estava sendo monitorado e por isso, dentro do que imaginamos, era ali mesmo. Parei o carro em uma das vielas entre os prédios sem chamar muito a atenção, duas ruas antes do local. Se eu precisasse, duas quadras seria aquilo que eu ainda aguento correr atirando. No más.
Andei por aquelas calçadas largas pensando em tanta coisa que não conseguiria colocar aqui, muito menos em ordem. Da bateria do carro que precisa ser trocada à aquelas férias rápidas na praia. Da minha possível promoção ao resolver esse caso à conta do telefone que não tenho certeza se foi paga. 

Até que cheguei.

Parei ao lado da porta dos fundos do prédio e acendi um cigarro. O plano era esperar alguém sair até que pudesse aproveitar a porta aberta, por isso, sabia que poderia demorar um pouco. Não se pode ter pressa pra morrer, uma vez aprendi isso. Procurei lembrar.
Quando então, ouvi passos lentos vindo de dentro e me posicionei. Alguns metros antes da porta, pra poder vir andandinho e simular minha chegada. Deu certo, a senhora que saiu para jogar o lixo nem olhou na minha cara. Traço desses tempos, onde as pessoas sequer sabem quem mora no seu próprio prédio. Nem sempre foi assim.

Enfim. 

Andei por aquele corredor escuro, um tipo de subsolo, e subi dois lances pequenos de escada, quatro ou cinco degraus, até chegar no que seria o térreo. Entrei pela porta da escadaria e comecei a subir, ainda bem que escolhi os sapatos certos, pensei. Um longo caminho até o sétimo andar, meu Deus. Se bem que, após uma sequência novinha em folha de pensamentos aleatórios, lá estava o número que eu queria. Então é aqui que vai ser o show, no 702. 
Não surprendente, a porta estava entreaberta. Só um vãozinho, pra dar o recado de que sabiam e que me esperavam. Olhei. As luzes pareciam apagadas e muita luz entrava pelas janelas do apartamento. Sabe como é, né? Andar baixo, downtown, não se pode viver sempre com as cortinas abertas. Fui abrindo a porta devagarzinho, e sentindo os pés e as mãos começando a ficar gelados. Nosso sensor aranha, nunca falha. Já do lado de dentro, voltei a porta para a posição e esperei meus olhos se acostumarem com a pouca luz.

Não deu tempo.

Só senti o movimento do ar e logo o golpe. De cima pra baixo, no meu pescoço, de um jeito que cambaleei para frente e logo me virei pra procurá-lo. Ele estava na espreita, eu deveria saber. Talvez a intenção tivesse sido me deixar inconsciente com o karatê, mas o fato é que não funcionou, e logo em seguida, agora de frente, vi sua sombra vindo pra cima de mim. 
Não era muito alto, talvez 1.70, magro, porém muito rápido. Veio logo com as mãos de cima pra baixo novamente, então segurei seu braço e o torci, o jogando por cima do sofá. Ele caiu em pé como um gato, pulou com uma voadora bem no meio do meu peito, me jogando na parede, então armei um soco e dei. Talvez pela pouca luz, não acertei, mas foi tempo suficiente para ele enfiar a mão por dentro do meu terno e tentar puxar uma das armas. Estava presa, mas segurei seu braço e dei uma joelhada direto na boca do estômago. 

E foi aí que começou a ficar estranho. 

Quando abaixou pela dor do golpe, é que pude olhar direito. Suas roupas eram apertadas, tudo preto como o escuro da sala, mas um homem reconhece esse tipo de coisa a cem metros de distância. Antes que pudesse concluir alguma coisa, correu para a porta, e aí é que pude ver com mais clareza pela mesma luz que vinha da janela: curvas. Sabia que minha cabeça não estava me enganando, e eu nem tinha bebido aquele dia. 

A roupa justa formou uma silhueta feminina desenhada, delicada, em cima. Pude reparar bem no formato do seu corpo segurando a porta antes mesmo de fazer qualquer movimento - agora, na verdade, não sei se conseguiria. Na academia aprendemos muito cedo que não se bate em mulher nem com uma rosa. Vai dar muito trabalho para me convencer de que eu não sabia que era uma mulher e só por isso lutamos. Bem, é pra isso eu pago meu terapeuta. 

Depois de se recuperar da briga e principalmente da joelhada, numa fração de segundo e já de frente pra porta, me disse:

 - Você é bom.

Uma voz aberta e nada delicada. Pelo sotaque, uma agente russa. Uma modelo russa de passarela dentro de um collant preto indescritível e com habilidades em artes marciais. Perigosa. E rápida. 
Saiu e, num piscar de olhos, virou um vulto. Até corri para a porta - agora, escancarada - e ao olhar no corredor percebi que ela simplesmente desapareceu. Sem pistas de onde poderia estar. Sem ruídos. 

Poderia ter ido atrás. Mas optei apenas por tirar o rádio do bolso. 
 - QRL. 
 - QAP.
 - Ela se foi. 



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