terça-feira, 31 de dezembro de 2019

A quase dor

As vezes a gente simplesmente vibra em uma frequência diferente daquela de sempre.

E é quando acontece.

É neste tipo de noite que todas memórias ruins misteriosamente desaparecem.
Como num passe de mágica, tudo aquilo que machucou, que feriu, que doeu, que humilhou, que arrancou a pele, o couro, o tempo, a vida...simplesmente some e nem que a gente busque, vai para um lugar que sequer sabemos onde é.

Pois bem, e o que é que fica?

Ficam as coisas lindas, sim. Martelando, dando voltas e voltas nos pensamentos, populando e marcando presença de maneira eficaz. Covarde, eu diria.
Já hoje, lembrei dos passeios por aquela avenida.
Lembrei da neve.
Do horário do trem. Exato, como sempre.
Lembrei de umas comidas boas que a gente encontrou entre tanta coisa esquisita que a gente tinha que comer (das quais, por sinal, nem me lembro)
Os olhos enchem-se de lágrimas, o nariz entope, a vista fica molhada e turva e mesmo assim sequer paro de bater na velha máquina.
Pensei em escrever no papel mas sabia a bagunça que iria ser quando tudo isso ficasse assim, molhado, como já está a mesa.

A cabeça insiste em me trucidar.

Trazendo de imediato tantos momentos bonitos, de sorriso e de promessas tão profundas e, até então, sinceras.
Só eu sei o que eu prometi.
Eu não sei porque não deixo finalmente você ir embora da minha cabeça. Eu sei que no fundo, racionalmente, eu não te quero mais. Então porque insisto em pensar dessa maneira? Porque não consigo resgatar com a mesma facilidade tudo o que me fez sofrer e finalmente esquecer. Seguir em frente, não é o que dizem?
Por que é que ainda estou a ouvir essas músicas?

Parece que chegou aquela hora que eu temia, depois de alguns longos meses da partida, em que eu iria padecer.
Apesar que, pensando bem, houve outro dia em que chorava como hoje, em prantos rolando na cama, enquanto você me manipulava e me fazia sofrer sem o menor pudor.
Que coisa horrível que é, num estalo, resgatar isso.

As lágrimas secaram, meu Deus.

Já estive aqui outras vezes. Ou pelo menos penso que sim. Que já conheço o passo a passo, a ordem das coisas, os próximos capítulos.
Não consigo, de fato, discernir, se o que vem depois é o que eu penso que vem depois.
É um estranho sofrer por não sofrer.

Quase morrer por não sentir aquela vontade de morrer.

Dói porque não há razão para sentir dor.

Ai, se pelo menos, doesse...



segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Fui eu

É mais um dia sem você
Mais uma noite que eu espero
Se alguém no mundo quis você, fui eu

Te dei os sonhos que eu sonhei
Te imaginei prá vida inteira
Se alguém fez tudo por você, fui eu
Diz agora o que é que eu faço prá viver
Se a cada dia é mais difícil te esquecer
Tudo isso faz doer demais
Eu queria só voltar atrás, ficar contigo
Diz agora o que é que eu faço prá aceitar
Será que existe outra pessoa em meu lugar?
Mais o tempo vai te convencer
E um dia vai reconhecer
Que sem mim não pode mais viver
Sentimento
Dói por dentro
E a solidão não quer parar de machucar
Sentimento, Dói por dentro
Meu coração não quer ninguém no teu lugar

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Don't dream

Nem sei o quanto é estranho dizer
o que penso em dizer,
muito menos,
sentir o que pareço sentir.
Ouço canções tristes
e fico tão triste
Ouço canções felizes
e não fico, assim,
tão feliz.
Parece que o momento, finalmente, chegou.
Não quero você de volta.
E agora, por isso,
a tristeza é diferente.
Porque as coisas às quais me apegava
Então, deixaram de fazer sentido.
Não entendo direito
porque te ligo,
porque te atendo,
porque respondo suas perguntas,
enfim
E se a música triste
me deixa tão triste
É porque não queria estar assim
Tá bom, que ninguém quer, também
Mas é que...
O que era tão complicado,
de repente,
ficou tão simples
Que se esvaiu, até que
Deixou aqui o nada,
esse vazio,
esse silêncio
e até uma falta de ar
Contudo eu juro,
nem sei pelo quê
Que não quero que você preencha.
E é porque a água que tu trazes
e que mata minha sede,
também me envenena.
O amor que trazes
e que arranca-me o gozo,
também me suga.
A cada coisa
que me ofereces,
acompanha ali algo
escondido,
que há de me matar,
pouco a pouco
Como um dia começou e
como não deixei
que terminasse,
não deixarei mais.



sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Um qualquer

A tristeza é um sentimento.
Como todo outro,
como qualquer outro.
A sensação de solidão,
(que é pior que qualquer solidão)
não deixa de ser, assim
também
apenas um sentimento.
Por que quando explodimos
de felicidade
Não queremos que acabe nunca
E então,
acaba.
E você não se lembra mais
Ou lembra?
Assim o é, então, com ela
a tristeza.
Você se consome
rola na cama
Encharca o travesseiro
quase morre.
Porém...
você esquece.
Do dia,
do motivo,
da época.
Conta pra mim, como foi?
Quando é que foi
a pior vez
Aquela dor mais funda
Que seu coração
Quase parou
E você quis matar,
quis morrer,
há exatos cinco anos.
Se for mais fundo, vai ver
Há um ano.
Lembrou?
Lembrou nada.
Porque a tristeza é um sentimento
Como todo, outro, qualquer
E você se lembra, sim, que ficou triste
Um dia
Ali
Por causa daquilo
E tudo, e tal.
Mas
Você
Esquece.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Game over

Dei o último gole, que desceu morno, amargo, horrível. Devo ter feito aquela careta que os bêbados fazem e nunca percebem. Também porque nunca se importam, mas vá lá.
Parece que o jogo de poder, por fim, cessou. Definitiva ou temporariamente, não importa muito, na verdade. O que sobrou mesmo foi um silêncio, um breu, um vácuo. Todo esse espaço que estava sendo muito mal preenchido, afinal. Não posso esquecer.
Até que, não aos poucos, mas abruptamente deixou ir toda a loucura, a falta de respeito, de controle, de maturidade.
Tanta falta pra sobrar a sua falta. Que ironia mais típica.
Será que nos cansamos de brincar de quem é que manda? Confesso que estava mesmo ficando cansado de, hora me sentir no topo, hora me sentir no lixo. Toda uma carga que não fazia o menor sentido de ser.
Agora me sinto no lixo e é só isso mesmo.
Acendo um cigarro, e olha que eu nem fumo. Vislumbro os vultos das pessoas pelo corredor, ouço a música no fundo, e continuo refletindo mesmo que já tenha passado - já há algum tempo - das duas e meia da manhã.
Eu gosto do lixo.
Eu gosto daqui.

Continue?
>YES



segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Cólera

Ardeu-me a garganta.
Encheu meus olhos d'água.
Pensei que fosse tristeza. [tal acostumado ultimamente estou]
Não era.
Ergui a cabeça e tentei respirar. Quase não pratico.
Não adiantou.
Meu corpo preparou-me como a natureza o fez.
Mãos e pés formigando, suando, frios.
Ah, se ainda estivéssemos em tempos de ameaça eminente...mas, não.
A ameaça do cotidiano é aquela que a gente busca.
Senti o calor subindo...

Cólera.

Fechei e apertei os olhos.
As mãos prepararam golpes então as cruzei frente ao peito.
Trancado no quarto, podia gritar.
E gritei.
A fera escapou e veio, como toda besta, destruindo tudo sem distinção.
Abri os olhos, juntei-me à velha máquina.
Vi seu endereço num velho envelope, engoli em seco

E escrevi.

Uma sequência de mágoas surgiu como uma metralhadora.
Palavrões de diferentes origens e numa ordem que, conforme vinham, iam.
Perdi a cabeça.
Os minutos mais rápidos da minha vida se passaram ali, enquanto esmurrava o teclado sem o menor propósito, que não, ferir.
Lentamente. Profundamente.
Era o mal.

Cólera.

Quase que como numa luta, após o efeito da adrenalina, padeci.
Chorei. De soluçar.
Não havia música que me segurasse.
Virei pra lá e pra cá como criança.
E como dizem, há sempre um pouco de mal no bem, e um pouco de bem no mal.

A carta enfim pronta.

Uma folha de papel com dez quilos de ódio e rancor.
Peguei-a nas mãos e a tingi. Com lágrimas.
Botei-a de lado. Na mesa, no canto.
E na manhã seguinte, entre a lata de lixo e o isqueiro,
Postei.


terça-feira, 22 de outubro de 2019

Califórnia

"Senhoras e senhores,  são onze e quarenta e cinco da manhã e a temperatura local é de 89 graus Farenheit. Foi um prazer voar com vocês até aqui. Sejam bem vindos à Califórnia".

Saí do avião ligeiramente extasiado. Quase não acreditava que ali estava após tantos anos, vendo aquele céu azulzinho e as cores tão límpidas de todas as coisas. Os painéis de vidro permitiam que entrassem os raios de sol e as grandes portas entreabertas me traziam o vento. Aquela brisa anunciava o que estava por vir.

Não sabia se ela já teria chegado e por isso procurei manter a calma. As mãos suando e as pernas ligeiramente bambas dificultavam meu trabalho. Com algum esforço arrastava a mala ao mesmo tempo em que segurava a rosa que resistiu a tudo. Desta vez, eu não a esqueci.

Retirei então do bolso o bilhete, que havia escrito rapidamente, com o endereço daquele restaurante que ela tanto gostava. Era pra lá que eu deveria ir, sem pestanejar.

E é claro que eu fui.

As ruas da cidade me traziam boas lembranças misturadas com certa curiosidade. Uma curiosidade adolescente, bonita e sem ressalvas. Como ela estaria depois de todos esses anos? Me lembrei que, por alguns anos, ainda trocávamos cartas com mensagens boas e, vez em quando, algumas fotos. Depois de tudo o que aconteceu, precisava encontrar um jeito de dizer a ela, de explicar, que suas cartas foram furtadas, perdidas, incineradas, sem mesmo terem me dado a chance de lê-las. A dor era, sim, aterrorizante.

Ainda sim, inexplicavelmente, sabia que ela estaria lá. Era quinta-feira, era o fim do verão, era seu lugar e sua vista preferida. O que poderia dar errado?

Eis que o taxista gente boa me contou, entre histórias incríveis, que esse endereço costumava ser muito popular cinco ou dez anos atrás. E entre prestar a atenção na emoção das suas palavras e tentar imaginar o rosto dela, chegamos ali. Era um prédio daqueles com visual antigo, como dos filmes, fazendo meu coração bater aqui na garganta.

Paguei com calma, agradeci. É bom quando a vida está a favor.

Ao subir, tentei não fazer alarde, queria que fosse uma surpresa boa. Entrei pelo saguão e já avistei seus cabelos, o castanho com o loiro trazia uma combinação que sempre lhe foi única. Parei por alguns minutos, já havia sentido que era ela. E se ainda somos quem somos, logo ela iria - de alguma maneira, que nunca soubemos explicar - perceber que eu estava no mesmo ambiente. Uma energia incrível nos conectava.

Então tratei de me esconder atrás de um dos pilares no canto do balcão. Chamei o garçom:
 - Por favor, você pode entregar esta flor para aquela mulher sentada ali?
 - Desculpe senhor, não fazemos isso aqui.
 - Por favor, é uma ocasião especial, não vai haver qualquer confusão!
 - Er...ok. Por favor mantenha tudo calmo por aqui, este é um lugar de respeito

Ainda que de costas, era como se pudesse ver sua expressão de surpresa, o sorriso imediato, logo contido pela timidez. Ela estava ali. Era ela. Que ao esticar o braço para receber a rosa, mostrou-me os singelos movimentos que ainda reconheceria a tantos metros de distância, imagine então assim, tão de pertinho.

A partir dali, tentei conter a ansiedade daquele abraço enquanto a acompanhava, virando para lá e para cá, procurando as possibilidades. De onde teria vindo essa flor?
O restaurante não estava lotado mas era impossível distinguir quem de fato seria o admirador.
Não aguentei muito tempo, confesso. Não podia mais segurar.

Fui até sua mesa e apenas parei. Sua cabeça abaixada e o olhar fixo nas linhas do seu livro, enquanto segurava com a outra mão a rosa bem perto do rosto, sentindo seu cheiro, a impediram de me olhar diretamente. Então pude fitar seu rosto por alguns segundos, que para mim, duraram uma vida inteira, me fizeram memorizar essa imagem e guardá-la para sempre.

Quando, então, levantou a cabeça e pôde me encarar, olhos nos olhos, é que o mundo passou a fazer sentido, finalmente.

A vida acontece o tempo todo. E a gente se encontra é nos intervalos.


Ela e eu

Então sobramos nós de novo.
A noite e eu.

Afinal, era exatamente isso o que eu queria. E assim desejei, imaginei, projetei e o fiz real. Aquele velho conselho estava certo, quando dizia: "Cuidado com o que você deseja. Porque acontece".
E aconteceu.
Me lembro do dia que calmamente sentei na beirada da cama olhando para a parede dividida pelas duas janelas de lata. O salmon da parede com o bege das janelas me trazia pouca ou nenhuma distração, me fazendo naturalmente pensar, e pensar, e pensar.
Embora no fundo soubesse que, o que devia estar pensando era, de fato, em uma solução ou um caminho pelo qual pudéssemos seguir - eu e alguém, até então - de qualquer maneira, não. Eu não conseguia.
Na verdade, confesso, nem tentava. Já estava tudo tão certo para mim, como já vinha sendo certo por semanas, talvez meses. Talvez não, com certeza, meses a fio e eu sabendo exatamente o final do filme como se desenrolaria, enfim.
Era a hora de ir.
Por isso durante aqueles longos minutos, quiçá uma hora, pensava mesmo era em como iria fazer dali pra frente. O que iria fazer, e com quem, e por quanto tempo. Um checklist mental super detalhado, calculado e organizado delicadamente pela minha cabeça metódica e fria. Imaginava minha nova velha vida, sonhos que podia realizar, planos que concretizar-se-iam a partir de então. Refletia também sobre o porquê de isso não me causar absolutamente qualquer dor, quando deveria.
O que foi que aconteceu com a dor do amor?
Bem...não pode existir dor de amor quando não existe amor.

Mas assim? Simplesmente se foi? - me questionava sem lembrar de toda a tortura e das agruras que o tal do amor me trouxe.

Até que lembrei.

E fui. Ao encontro dela, minha eterna companheira, que embora me faça só, jamais me deixa só.

Então somos somente eu e ela. Somente ela.

E eu.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

O reflexo na água

As luzes se apagaram. A cortina se fechou e, finalmente, era hora de ir para os braços da noite. A boa e velha. A minha eterna anfitriã, ah, como senti saudade.
A lua cresceu pela metade na tardezinha daquela segunda-feira. Como diria o inesquecível poeta: vermelha e amarela. Porém, após a hora do espetáculo, ela já estava brilhante e linda no topo do céu. Um imenso farol.
Decidi então ir até a beira daquele lago, pensando durante o caminho se ainda estaria lá me esperando depois de todo esse tempo. Apesar da minha boa relação com eles, não entendo nada de lagos. Mas como nada daria errado para mim naquela noite, parei o carro e caminhei por dez, talvez quinze minutos naquela trilha, iluminada apenas por Luiza.
E quando cheguei, quase que não podia acreditar. As árvores em volta haviam crescido, formando duas paisagens. Uma real, e outra projetada ali, nas águas silenciosas e totalmente imóveis. Um espelho, uma pintura, no sentido mais literal da palavra, incrível.
Cheguei mais perto. Olhei para o lago e, tal como o abismo, ele me olhou profundamente. E me mostrou tudo aquilo que eu precisava, então, ver com meus próprios olhos.
Era eu.
Aqueles olhos penetrando os meus e a angústia que nunca some. Os cabelos agora longos e as mãos grandes na posição do pensador.
Eu estava ali.
E ali fiquei. Em um processo de reconhecimento constante, olhando as diferenças e percebendo os detalhes que ainda permaneciam. Foi longo. Foi louco. E ainda que ja esteja aqui de frente para a folha branca, a imagem do lago não me sai da cabeça e a continuo contemplando.
Sem deixar que me engula como engoliu Narciso. Sem deixar que me leve para o fundo, eu olho em tom de admiração. Por uma estrada que me levou para tão longe, mas que agora me trouxe de volta.
Que o lago nunca seque.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Quem você pensa que é? - Parte 2

Parece impossível pensar que alguém gostaria de descer daquele degrau.

Pensava que estava apaixonado e que valeria pena o esforço pois a recompensa, ou seja, o novo estilo de vida iria ser tão ou mais intenso – de todas as maneiras diferentes que isso pudesse significar. 
Hoje quando olho e dou uma varrida naquelas cenas, tento incansavelmente procurar razões inconscientes que me levaram a fazer isso. Não é possível que eu tenha sido derrubado assim. (Ou é?) 
Talvez quisesse sentir como é fazer as coisas direito ao menos uma vez na vida. Esse é um argumento forte, me lembro de ter passado por ele. 
Talvez, não sei, estivesse cansado e com o velho pensamento de que já havia provado tudo o que poderia provar do lado de lá. 
De fato é válido, continuo concordando com isso.

No fundo o que gostaria de dizer é que, o que quer que tenha me trazido até aqui, foi muito mal administrado e hoje me encontro no caos.

O que eu penso que sou?
Posso correr todo o dicionário para responder essa pergunta e não vou encontrar a palavra “foda”. 
Não sou mais isso. 
Perdi aqueles poderes, por menos interessantes que fossem. 
Perdi minha identidade.
Não sei o que eu sou porque não sei quem sou. Me perdi em algum ponto no caminho, não sei exatamente qual, mas misturo três ou quatro músicas em minha cabeça e aos poucos surgem flashes isolados daqueles momentos...

...se foram os sonhos
...se foi o trabalho
...se foram os planos
...se foram os amigos
...se foram as economias
...se foi a gentileza
...se foi a malandragem
...se foi a autoestima
...se foi a família
...se foi a consideração
...se foi o respeito
...se foi o interesse
...se foi o calor
...se foram os sorrisos
...se foram os motivos

Onde encontrar o que se é, quando se perde tanto? 
Se tudo o que foi perdido servir para ganhar depois, então uma limpeza há de acontecer, agora ou depois, pra que eu possa me encontrar com o que eu realmente seja.

Por enquanto, não sou nada.

Apenas vou.

Estou.

domingo, 11 de agosto de 2019

Quem você pensa que é? - Parte 1

“O que uma pessoa pensa ser, diz muito sobre o que ela realmente é”.

Nunca a matemática das palavras me pareceu tão simples. Quase nem consigo acreditar que tudo o que aconteceu e, principalmente, acontece, é culpa integralmente minha.
Sem ser piegas, não estou falando sobre ser vítima de nada. Mas sim, sobre deixar uma série de situações externas te afetarem e assim te fazerem sentir que é o que é. Ou, a partir do ponto de vista bom, tudo o que se acredita ser e que se constrói baseado no que quer que seja, te fará tornar-se então, o fruto deste pensamento forte. 
Pelo bem ou pelo mal, não importa o que os outros pensem ou falem, você assim será até que – conscientemente ou não – queira e decida mudar. 

Chega a ser curioso até, lembrar de como me via no espelho. Por mais arrogante ou sarcástico que pareça pensar nisso, só eu sei o quanto afetou minha imagem para aqueles ao meu redor. Não, não que eles me achassem “foda” como eu pensava ser. Hahahaha, isso é ridículo. Mas que essa minha força de pensamento me fazia fazer coisas foda, ter uma postura foda – muito longe de babaca ou escrota, te garanto, estou falando de foda, mesmo! – e com que as pessoas por aí olhassem e, por alguma razão, soubessem como eu acreditava no meu taco. A ponto de se convencerem.

Houve fases boas e também terríveis. Profundos abismos e intensos recomeços. Ganância, luxúria, gula, ira, preguiça, inveja, estavam quase todos ali. 
Olho com carinho e clareza agora para saber que isso só foi possível de fato porque assim eu o quis. Assim eu me fiz. E reforço, não me entenda mal, era só um jeito louco de acreditar nas coisas e que por alguma razão fazia com que as coisas acontecessem. 

...

O que sei é que eu quis. Decidi.
E mudei.

continua...

sábado, 10 de agosto de 2019

Dentro da caixa de vidro


Me deparei com este pensamento por esses dias, e, por Deus, quanto isso me tocou. 
Não só pelas coisas como estão hoje, afinal, o que tenho pensado sobre mim mesmo tem sido tão pobre e vazio que acordo todos os dias me sentindo um lixo. Não tenho a menor disposição, muito menos energia, para sair da cama e encarar o dia. Não me orgulho, mas passo dias ali deitado na cama, como diria o poeta contemporâneo: Olhando para o nada, pensando em tudo. Penso, penso, e tenho consciência de que no fundo não quero uma conclusão. Não há qualquer atitude resultante. O outro dia vem e com ele a mesma vontade de não afetar e não ser afetado por nada nem ninguém. 
Não quero morrer. Só não tenho, lá, muita vontade de viver. De fazer algo interessante, ou mesmo desinteressante, tsc, tsc. Nada! Nadinha. 
Chega a ser impressionante de tão bosta, já com o perdão do termo.

Lembrando que sei que estou escrevendo, gritando aos sete ventos, enchendo os pulmões, para ninguém. Me sinto dentro de uma caixa de vidro onde todos podem me ver de fora mas eu não sei de ninguém que está ali. Eles não podem me ouvir, tampouco posso eu. Podem sim me ver mas não exatamente saber o que está acontecendo. 

Então só finjo que estou bem para que não tenham pena. 

Só finjo.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Tão Jovem

“Hoje não sou mais tão jovem, quando sabia de tudo”

Passa por mim então a frase do Oscar Wilde, ainda que não seja exatamente assim. E assim me lembro do quão inocente eu era quando escrevia por aqui, desse jeito, tão atemporal. Eu era jovem e, para minha ingênua e inexperiente forma de ver as coisas, o único tempo que, de fato, existia, era o meu. 
Ledo engano. Tão bobo erro. 
Sabe de uma coisa? Eu gostava do anonimato. E por isso optei por continuar aqui, nesse formato, mesmo sabendo do tão pouco alcance. Vá lá! Vomitar palavras com o único intuito de atingir alguém não pode ser algo respeitável – ao menos para minha cabeça dura, isso sim, nunca muda.
Recordo-me com saudade de uma espécie de confraria que se sustentava de forma tão bonita: com palavras, poesias, canções. Medos, confissões, apoio, mistério e descoberta, procura por respostas e ainda mais perguntas. Tudo aqui, nesse quase submundo onde só era possível encontrar alguém se, definitivamente, se procurasse. 
Porém como procurar por algo que nem se sabe o que é?
...
Pois é. Era assim.
Era assim e era lindo só por causa disso.

Lembro também de como variada, crítica, confusa e sincera era a interação de nós, os assim assumidos donos das palavras. Não sabíamos quem éramos, quantos anos tinha o outro nem mesmo qual seria seu sobrenome. E essa não invasão, digamos assim, do espaço do outro, fazia com que a magia continuasse existindo. Às vezes o contato até se aprofundava um pouco, mas raramente se estendia.
O ponto é que me lembro de quão “adultos” pareciam todos os textos, inclusive os meus, ali beirando os vinte anos. Era tão bonito ler todo mundo, e imaginar quanta coisa aquela pessoa viveu, tudo o que passou, o que deixou aquele cara tão ranzinza e amargo, ou qual foi a decepção tão grande que fez alguém desistir e nunca mais tentar. 

Agora me sinto adulto. Quando olho pra folha branca, tenho convicção de que sou eu. Quando penso muito, quase rasgo a tela e jogo na cesta de lixo. 

Pensando bem, talvez isso não tenha mudado tanto também.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Código Morse

Pensei que seria mais difícil começar. 

De fato, nunca foi algo assim, tão surpreendente – ao menos para mim. Ainda sim, só de olhar a folha branca quase que dançando como na velha máquina de escrever todavia esteja nessa versão super digital com retina e tal e coisa, confesso que me emociono.
Quase escrevi que não sei porque fiquei tanto tempo sem esse vício que são as palavras. Entretanto, como mentir assim, descaradamente, depois de todos esses anos? Uau, anos! 
Cá entre nós, eu sei, sim, porque deixei de escrever. E ainda espero abrir o coração pra falar disso sem medo ou culpa.
Por enquanto, o que importa de verdade é que estou aqui e...ah, estou me sentindo vivo. 

É uma fuga, e eu preciso dizer. Estou no território proibido, na zona perigosa, na mira, no alvo. Ao escrever, dispo-me às três da manhã e caminho pela Paulista. Abro os braços agora cheios de marcas e imploro: “Me mutile! Me violente! Até me matar!”. 
Escrever é o primeiro ato de coragem em meio aos tantos acovardamentos dos últimos dias, meses. Anos (ao menos, por hora) não. 

Deixo as palavras correrem pelo meu corpo. Abro as portas do meu coração para que saiam, percorram o caminho natural da consciência, passem pelas mãos cuidadosas e artesãs do pensamento, até deslizarem pelos meus nervos para que assim então caiam como uma luva nas pontas dos meus dedos. 
Penso em como teria sido diferente se elas tivessem caído, em vez disso, na minha língua, prontas para serem disparadas como uma metralhadora sem controle nas mãos do recruta. 
Não.
Não sou mais um iniciante. E por causa disso, tenho dores de garganta tão frequentes. 

Despeço-me esclarecendo a você que lê, que enquanto escrevo e posto, você não estará lendo. Não posso, não podemos. Não é seguro (já até disse, não?). Obrigado por ler o que não podia ler até então. 

Que todos entendam o que eu não consigo.