quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

O túnel

A partir deste momento. Enquanto eu viver. Eu te prometo...

Segui pelas ruas ouvindo grandes declarações de amor sem a menor pretensão. Resolvi manter o rotineiro hábito, ainda que no corpo novo, e parei naquela boa e velha conveniência. A única que ainda existe, e que sobreviveu após estes longos e intensos (quase) quinze anos.
Uma coca. Dois sonhos de valsa. Uma água, porque agora sou adulto, e você sabe como as coisas são quando se é adulto.
Após uma leve manobra, na mesma rádio - ressuscitada da época - o clássico, Voyage Voyage. Ainda nem acredito que essa era a música mais tocada no dia que eu nasci. Bendito site.

Mais uma vez, desço a rampa. Desta vez, rumo ao outro lado da cidade.

Quando percebo, no meio daquela rua que - quase como uma artéria - corta e atravessa a cidade tal qual uma flecha, lá vem ela de novo. A máquina do tempo.

Entro em um túnel todo iluminado, bonito, as cores amarelas me trazendo junto a aquele som característico, uma certa transformação...

E ao sair...lá estou!

Naquela pracinha perto do hospital. O carro numa travessa escura, tudo muito silencioso à volta, quando de repente ouço uma voz doce e inocente, pura, limpa, quase não ouvida - ao menos nos últimos dez ou quinze anos - claro, a sua voz. Disse: põe aquela do Beethoven.
Começa então a canção da luz da lua, e num piscar de olhos, já estou no banco de trás.

Estamos.

Uau! A vida pode ser maravilhosa em qualquer época. Que célebre momento para se estar vivo...

Palavras se conectam. Sentimentos fluem e atravessam quilômetros, assim como gerações, até atingirem e penetrarem nosso peito, sem chance de defesa.
Que seja essa a única e mais autêntica forma de se expressar o que se sente, e de ler um ao outro, pura e simplesmente pelo fato de que você existiu. E como diria o poeta: em qualquer conjugação do verbo existir.

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