domingo, 29 de março de 2020

Neve

Pela segunda noite seguida, ela apareceu no meu sonho.
Como já faz um certo tempo, cerca de um ano, talvez um pouco mais, fiquei feliz pela primeira vez. Porque foi bonito, tudo branquinho lá fora, eu tendo que subir uma rampa - o que é tarefa nada fácil com o chão todo deslizando - e ao chegar lá em cima, tinha pizza. E uma pessoa especial.
Porém, na segunda vez, foi duro. Demais. Porque foi tenso, tinha neve não só no chão, mas caindo, forte, aumentando a altura e, desta vez, acompanhada do céu escuro que só quem viveu sabe.
Eu vivi, e acredite, não recomendo.
Após acordar assustado às quase três, não consegui mais dormir. Por isso tive muito tempo pra pensar. Às vezes gosto de tentar entender o porquê de eu ter sonhado determinadas coisas, como uma espécie de forma de autoconhecimento. Por que é que aquela neve toda estaria aparecendo, assim, do nada?
...
Até que me deu um estalo. E o coração acelerou tanto, e o corpo arrepiou, e confesso que até me deu um pouco de medo.
O confinamento!
É isso. Estamos em auto-isolamento há cerca de quinze dias e o corpo já começa a sentir. Não dá pra falar com ninguém - pelo menos, não pessoalmente - porque não é seguro. Sair de casa, só para comprar comida, quando sim. E eu, um capricorniano autêntico, como forma de bloquear o sentimento de depressão, enfiei a cara em trabalho. Muito. Como nunca...não...espera. Eu já vi esse filme antes.

O estômago reagiu, a garganta deu um nó. E começaram as lembranças e as conexões...

Aquele quarto. A janela grande e transparente, o céu negro praticamente o dia todo. Tudo branco no chão e nos telhados das casas. Tudo gelado lá fora e, muitas vezes, aqui dentro.
Isolado, permanecia trancado entre quatro paredes talvez vinte e três horas por dia. A outra eu divido entre ir buscar comida, ir ao banheiro e tomar banho, quando tomava.
Ali, eu trabalhava a maior parte do tempo. Doze, treze horas por dia. Dependendo do dinheiro, às vezes mais. Foi a forma que encontrei de desviar do inferno em que estava já que não havia saída. Estava enclausurado e sem qualquer sensação de que a liberdade haveria de chegar.
Do lado de fora da porta, barulhos que vinham pelas mais diversas frequências. Propositalmente produzidos, com o intuito principal de chegar e de me afetar. Conseguiam.
Energia ruim, pesada, que pairava no ar. Raiva. Desconfiança. Ódio. Gritos. Violência, nas mais diversas formas.
Não deu. Perdi o controle. Já não conseguia mais administrar a minha própria vida. Sabia disso, e toda essa consciência nada me valia. Por vezes, explodi. Quebrei móveis e ossos. Gritei e perdi não só a voz, mas a energia e a vontade de viver.

Hoje a situação não é a mesma, definitivamente. Mas algumas características se assemelham e, tão inteligente é a nossa mente que, de alguma forma, a neve surgiu em meu inconsciente, conectando o isolamento de hoje àquele do passado.

Olho em volta.
Respiro.
Entendo, e aceito.
Sigo calmo, enfim. Porque assim como saí melhor daquela prisão, esse é, então, um novo desafio.
Desta vez, com um sol bonito lá fora.
Enquanto durar.

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