sexta-feira, 31 de março de 2023

O amor por narciso

Nossa
Que saudade
Daquela mulher
Que eu pensei que eras

Daquela imagem
Sensível, bonita
Entregue e madura
Que eu mesmo criei

Amigos me dizem
Como assim, o fim?
Como assim se nunca te vimos assim?

Me lembro do dia
Que a chave virou
Que a máscara que eu te pintei, cê tirou
Deixando só dor e tanta humilhação

Baixamos o nível
Sangramos nas fotos
Acordamos vizinhos 
E encheste de maquiagem meu portão

Nossa
Que saudade
De querer ser grande
Ser bom, protegê-la, te dar o melhor
Saudade de querer te dar o melhor

Aceitá-la e sempre fazer vista grossa
Por todas as vezes que foste tão grossa
E que fui bebê lá deitado em teu colo
De ti mesma implorando proteção

Saudade de ser um ser menosprezado
De ouvir absurdos, e ficar calado
Saudade da dor
Docemente embutida
Nos moldes
Do nosso
Amor.

quinta-feira, 30 de março de 2023

Dois

Quando você disse nunca mais,Não ligue mais, melhor assim..Não era bem o que eu queria ouvir
E me disse decidida, saia da minha vidaQue aquilo era loucura, era absurdo
E mais uma vez você ligouDias depois, me procurouCom a voz suave, quase que formal
E disse que não era bem assimNão necessariamente o fimDe uma coisa tão bonita e casual
De repente as coisas mudam de lugarE quem perdeu pode ganharTeu silêncio preso na minha gargantaE o medo da verdade
Eu sei que eu, eu queria estar contigoMas sei que não, sei que não é permitidoTalvez se nós, se nós tivéssemos fugidoE ouvido a voz desse desconhecido,O amor
Essa voz que chega devagar, pra perturbar, praenlouquecerDizendo pra eu pular de olhos fechados
Essa voz que chega a debochar do meu pavor,Mas ao pular, eu me vejo ganhar asas e voar
De repente as coisas mudam de lugarE quem perdeu pode ganharMinha amiga, minha namoradaQuando é que eu posso te encontrar?


Canção de Paulo Ricardo

quarta-feira, 29 de março de 2023

Esperar

Então, o que devo fazer é
esperar. Sem desespero,
sem melodrama, sem
niilismo - esperar. Mas
até quando, meu Deus,
até quando?
[Já que]
Esperar dói. 
Esquecer dói.
E não saber se deve esperar ou esquecer é a pior das dores.




Mais um poeta que resolveu falar por mim. Dessa vez, Caio F. Abreu, o poeta que é incrível, mas o fã clube...

terça-feira, 28 de março de 2023

Salvação

O processo de salvar o outro é de um otimismo suicida.
Por isso nunca é possível distribuir o bem sem nenhum critério. Não se sabe se o bem para você, é, de fato, o bem para o outro. 
Dói ver o outro afundar-se na lama e querer tirá-lo de lá à toda prova. Mas será que, de fato, a pessoa deseja dali sair?
Dói mais ainda perceber que não. Não se pode salvar alguém que não sabe que está em perigo. É preciso deixar e, de longe, ver - ou talvez nem ver, por que não? - aquelas consequências que já se sabia que, então, viriam.
É bem parecido com o amor de uma mãe para com seu filho. A mãe sempre sabe. Ao ver sua cria em apuros, mal acompanhada, se autodestruindo, perdendo suas conquistas, e tomando as mais idiotas decisões, há sempre a escolha entre tentar ajudar ou deixar fluir.
A dor maior é deixar quem se ama sofrer para aprender.
Ainda sobre a mãe, qualquer tentativa de aviso, soaria como super proteção. Qualquer manobra que evitasse a reincidência, seria de um egoísmo só. Privar não é educar.
É preciso deixar ir. Já que as lições vêm, a cada ressaca - especialmente as ressacas morais - e só o que dá pra fazer, no final, é torcer. 
Dói não poder fazer nada.
Dói ficar. Dói deixar ir. 
Mas sempre, sempre a gente tentar encontrar um jeito. E essa é a ingenuidade no amor. Seja este de mãe ou não. 
O amor é sempre ingênuo. Mas não salva ninguém.

segunda-feira, 27 de março de 2023

Crise

A cena se repete, enfim
Procuro em meus registros e simplesmente não encontro
Eu juro que havia escrito sobre isso
Talvez agora, 15 anos depois, de fato valha a pena contar de novo a história
Já me que lembro, sim, como se fosse agora
Do dia em que quase morri
De fato, pensei que ia morrer
Saí do bar, calmamente
Caminhei pela área externa
Aquilo que hoje é um portão de ferro fechado, parecendo escola
Era apenas uma mureta charmosa

E foi por cima do portãozinho que a vi

Ali, parada, tão sexy como nunca
Fazendo aquilo que melhor sabia fazer
Que era, de fato, seduzir
Daquele momento então, não consegui mover um músculo, sequer
Seu sorriso largo e bonito e seus olhos grandes, os cabelos, pretos, e o decote
Porém, desta vez, não ao meu alcance
Ela sorria para aquele cara baixinho, bonito, não nego, e usava toda arma que tinha
Chegou a ficar bem pertinho, repousou a mão em seu peito e esticou seu indicador. 
Sorriu mais uma vez, brincou com aquele tórax, usando suas unhas, sorrindo e ganhando
O jogo era seu.
Olhou para o lado, me viu lá, parado, fingiu que não viu. 
Sabia o que fazia.
Todo movimento era bem planejado.

E eu, como nunca achei que seria, tremi todo, saí do ambiente, corri pro banheiro, me agachei no chão.
Tentei respirar, o peito apertado, uma arritmia, um calor subindo, e a pele gelada.
Levei algum tempo pra sair, me lembro. Quase não dei conta de pegar o carro. 

A vida pode ser bem cruel quando precisa ser.

domingo, 26 de março de 2023

Dejaria todo

Como é bom poder se expressar precisamente por meio de um Porto-riquenho. Canção de Chayanne.

He intentado casi todo para convencerte

Mientras el mundo se derrumba, todo aquí a mis pies

Mientras aprendo de esta soledad que desconozco

Me vuelvo a preguntar, quizás sí sobreviviré


Porque sin ti, me queda la conciencia helada y vacía

Porque sin ti, me he dado cuenta, amor, que no renaceré

Porque yo he ido más allá del límite de la desolación

Mi cuerpo, mi mente y mi alma ya no tienen conexión

Y yo te juro que


Lo dejaría todo porque te quedaras

Mi credo, mi pasado, mi religión

Después de todo, estás rompiendo nuestros lazos

Y dejas en pedazos a este corazón


Mi piel, también la dejaría

Mi nombre, mi fuerza, hasta mi propia vida

¿Y qué más da perder?

Si te llevas del todo mi fe

¡Qué no dejaría!


Duelen más tus cosas buenas cuando estás ausente

Yo sé que es demasiado tarde para remediar

No me queda bien valerme de diez mil excusas

Cuando definitivamente, sé que ahora te vas


Aunque te vuelvo a repetir que estoy muriendo día a día

Aunque también estés muriendo, tú no me perdonarás

Aunque sin ti haya llegado al límite de la desolación


Mi cuerpo, mi mente y mi alma ya no tienen conexión

Sigo muriéndome


Lo dejaría todo porque te quedaras

Mi credo, mi pasado, mi religión

Después de todo, estás rompiendo nuestros lazos

Y dejas en pedazos este corazón


Mi piel, también la dejaría

Mi nombre, mi fuerza, hasta mi propia vida

¿Y qué más da perder?

Si te llevas del todo mi fe



Hunter

Há uma magia no ódio que não se pode explicar.
De repente, no meio da noite, me peguei na mesa, entre amigos - ainda bem! que um dia saibam que é deles que falo! - derramando lágrimas e falhando as sílabas daquelas canções dos anos noventa.
Como pode?
Conforme o tempo vai passando, cada quebra se torna ainda mais difícil. Como se a cada nova história, novos significados se criassem e, aí, a vida fizesse mais e mais sentido, um caminho que agora, enfim, pudesse ser traçado e trilhado com força e coragem.
Cada rompimento expõe a fragilidade e a delicadeza das relações. Cada telefone desligado na cara vem forte como uma flecha, um punhal, uma adaga, cortante e refinada, macia e afiada, pra doer, ferir, machucar e sutilmente retirar as entranhas daquilo que deveria ser amor.
Nessa hora, a cabra da montanha me lembra de pensar friamente, do jeitinho que a terapeuta gosta, dizendo: olha, você já passou por algo tão pior, por que será que essa mesquinharia é tão ruim?
Fácil falar. Difícil sentir. 
Dormir, então? Nem me fale.
Extravasar é coisa de gente sobrecarregada. Será que estou assim e ainda não percebi?
De fato, até que ela me falou. Que tal sair pra caçada e lembrar como é ser o leão, rei da selva?
Me lembro de como era bom e é com isso que vou.
Já que, afinal, há tantas savanas a frente...

Huntin' season has just started!

Se

Se te deixo ir
De certo, não quero deixar

Se eu vejo os motivos
Insisto em desacreditar

Se corro perigo
Mesmo assim eu quero ficar

Se está em minha cara
Disfarço, desvio o olhar

Se o nariz arde de choro
Engulo e finjo que posso aguentar

Se me ensinaram que era pra sempre
Agora é bom reconsiderar

Se fico quieto e me interno
Queria mesmo é ligar

Se olho as marcas no espelho
Penso, não vão me afetar

Afetam.

sexta-feira, 24 de março de 2023

Fôlego

Sempre pensei que na vida
Só um amor passaria
O laço que vem de antes
Que a gente nunca entendeu
E talvez nunca veria

Vai ver, é isso mesmo
A vida pedindo um tempo
A gente que não quer dar
Quem dá tempo é relógio, há quem diga
Imito Quintana: vá lá!

Bem, mas vai ver que, é assim mesmo
Detalhes seus na cozinha
A camiseta amassada
Parece ainda ter seu cheiro
Que pena que foi pro cesto

Do mesmo jeito que a gente
Sentia que era pra sempre
Não penso que nós erramos.
Que triste, não funcionamos
A vida avisou, ainda sim

Termino assim os meus versos
Antes de ler tua mensagem
Que é pra retomar o fôlego
Caso antes do reencontro
Despeça e siga passagem.







quinta-feira, 23 de março de 2023

O que não ensinei

O amor é esse estado confuso.
Amar é, em geral, confuso.
Amamos aquilo que mais desejamos.
Principalmente quando o tal, conquistamos
Filósofos importantes falaram isso, por sinal
Então, quando conquistamos, tudo fica leve e bom
E aí?
Como lidar com a leveza de Milan Kundera?
Então amamos com todas as forças e, no final, padecemos
Esgotados, de tanto amar
Por que é que, então, o amor haveria de ser eterno?
Já que o amor, quando é do bom, machuca
Fere, humilha, perturba, e ataca
Voraz
Vorazmente
De que vale, então, lutar por aquilo que acreditamos ser amor
Se, só por ser amor, está definido que, sim, 
Sua missão é ensinar a dor
A dor no amor, a dor na dor, e o amor
Tanto na dor, quanto no amor, em si, só
Percebo que nunca entendi, de fato, o amor
Nem como amar
Nem por amor, e nem por dor, 
Nem por amar, nem por sofrer
Que permitir o amor chegar, assim, por bem
Nos faz tremer
Parar o tempo
Querer mais
E se, no fim, botarmos, então
Tudo a perder
Ainda sim, não há amor, nessa vida, que se acabe
Confundimos o nome amor
Com dependência
Com conforto
Com carência
E atenção.
Mas se é amor, se for amor, amor do bom
Nunca se acaba
Nem nunca
Se acabará.
Porque
O amor é esse estado confuso.
Amar é, em geral, sim, bem confuso.
Pois bem
Já que o desejo não se acaba
E já que a fé nunca se esgota
Percebo que nunca entendi, de fato, o amor
Nem como amar
Ouvi Vinicius sempre me dizer
Que amor, quando é do bom, tem que doer
E dói, que nunca cessa, o tal do amor
E aquela ideia
Então
De tentar procurar por paz
Talvez esteja em outro lugar
Nos bares, nos bordéis, 
Centros budistas, sem papéis
Escadas estreitas e becos
Entre artistas, menestréis
Cem tipos de português
E aquilo que não ensinei.

quarta-feira, 22 de março de 2023

Life is pointless.

Quando ela chegou, eu já estava ali.

Não posso negar, sou da noite, já faz bem uns anos, sei do que estou falando. Todavia, estou ficando velho. Definitivamente, já sou o tio do rolê, a depender de alguns pontos de vista.

Mas eu estava ali.

Fazendo aquilo que não fazia: fumando um cigarro, apoiado na borda do deck, tão charmoso quando achei que um dia poderia ser. No auge do romantismo da juventude, achava sexy e blasé estar fumando um cigarro na varanda. Hoje, só consigo imaginar as pessoas pensando: argh!

Anyway.

Eu estava ali na varanda e ela chegou. 

Loira, alta, um vestido verde longo e solto cobrindo o corpo inteiro, porém valorizando o decote. Um colo grande e bonito de mãe, embora eu tenha olhado rápida e discretamente. Não quis invadir seu espaço já que, ao caminhar pela calçada, me olhou nos olhos e assim fixamos. Alguns segundos presos no olhar e a moça de vestido já sabia que o cara de chapéu estava presente.

Entrou e sentou. 

Arrogante que sou, nem me movi, então o fato de ela sentar em uma mesa bem próxima de onde eu estava poderia ser uma simples coincidência. Ou não. Prefiro não me garantir, então segui de costas.

A noite foi se acelerando e de repente, a vi de novo. 

Desta vez, sentada em outra mesa, com um cara do outro lado. O descreveria como um rapaz ou um homem, mas nenhuma das categorias se aplica. Muito velho pra ser um rapaz. Cara de moleque imaturo pra ser chamado de homem. 

E ela ali.

Reparei. 

Aparentemente, um encontro de tinder. 

Ela não era bonita, devo dizer. Mas não era exatamente feia. Uma mulher é uma mulher. E toda mulher é bonita, só é preciso olhar direito. Enquanto o cara, por Deus...independente da minha orientação, definitivamente, não era bonito. Nem tanto pela fisionomia, mas carregava uma expressão...digamos...pesada. Uma cara prepotente como se estivesse fazendo um favor para a moça que, ainda que cansada da rotina da semana, tratou-se de vestir algo sexy e maquiar-se, arrumar os cabelos, fazer o melhor que desse. 

Me permiti acompanhar, olhando pelo vão da minha roda de amigos, que discutiam poemas e influências literárias. 

Que cara enjoado. 

Podia ver sua cara mas não a dela. E percebi a reprovação, o desprezo...pensei: qual é a dele? Poxa vida... 

E eu...eu só pensava no decote. Que embora estivesse de costas para mim, o cidadão com síndrome de top model sequer olhava. Ela deve ter se planejado muito com esse vestido. Devia estar se sentindo desperdiçando todo o esforço e desconforto. Dada a temperatura, um moletom de academia teria sido tão mais confortável.

A noite avança...

Resolvi observar a conversa, já que adoro essa coisa de laboratório. E não deu outra: mais um padrão se repetia e, depois de tantos anos, a gente já sabe ver. 

Uma moça carente, necessitando autoafirmação, segurança, alguma elevação na autoestima, marcando um encontro com um cara escroto que, por alguma razão, carrega a autoestima hétero e pediu um hambúrguer gigante. Ela de fato sabia que, após aquele lanche, não haveria a menor possibilidade de ser comida direito, forte, como gostaria. No máximo, alguns beijos com gosto de molho de alho.

E ele, por Deus. Não conheço o Brad Pitt, mas imagino que esse seria o comportamento de Tyler Durden de mau humor. Feio de ver.

No fim das contas, o show começou. A música era boa, mas não do gosto do moreno, que levantou e ameaçou partir. A loira foi atrás, como quem devia alguma coisa. Só ali já deu pra imaginar tanta coisa.

A noite continua com seus mistérios. A diferença é que, menos romântico do que em qualquer momento da vida, agora eu sei: essa noite será desastrosa. 

Para ela e para ele. Exceto para mim.

A varanda e a música me esperam. 

O céu estrelado também. 

E a esperança de um dia ser capaz de ir em frente. 

No matter what.

Resplandecente

Aconteceu uma coisa muito engraçada - enquanto estranha - que me deu uma certa vontade de escrever sem regra, sem limite, sem ritmo e sem escolher palavras. Ultimamente - ouso dizer, que, desde a pandemia - tenho tido certa dificuldade em escrever livremente. Todo texto insiste em sair como um poema, com versos, sílabas contadas, ênfases calculadas e algum romance embutido. Não sei da onde veio isso, sério! Se volto a ler certas crônicas de tempos longínquos vejo o quanto eu autorizava a arte a ser o que é, ainda que fosse, naquela época, tão quadrado. Hoje fico aqui pensando na coisa vendável, no que agradaria meus leitores (sete, que são) ou no que denunciaria aquela verdade que eu sempre insisti em esconder.
Estamos na geração tiktok. Nada mais está escondido. Então, meu Deus, o que é que eu estou fazendo, afinal?

Aconteceu que, após algum considerável tempo, encontrei com magníficos artistas que já convivi, admirei, assisti, dividi, e, claro, tanto me ensinaram por influência e parceria como me ajudaram a criar a personalidade que hoje sou.

Senti vontade de relatar por aqui como foi lindo o encontro, por si só. Uma energia boa, forte, construtora e indestrutível. 

E agora que todas as conversas lindas, profundas e envolventes, foram absorvidas pela noite, é como se as palavras tivessem sido engolidas junto, numa grande descarga, ao som da canção de introdução da abertura de Dragon Ball GT tocada no clarinete e cantada de peito aberto pelo churrasqueiro que não tinha nada a ver com o assunto.

Belchior choraria de emoção.

E Chico, de vergonha.

Uma vez, dez

Você queria ter o controle
E eu, que já sabia, que tinha
Sou, de todos, investigadores
Sem medo eu já sei que a culpa é minha
Só descobre quem é curioso
Só é doente quem faz seus exames
Sei que um dia temi seus exames
Dado cada história mal contada
Já que nunca soubesses contá-las
Permitiu-me criar tais versões
Digam elas, ou não, a verdade
Elas dizem, de fato, o que eu sei
Quando vejo, que o que eu sei, é nada
Penso nas vezes em que eu fui mau
E que agora eu mereço isso tudo
Sei que mereço pagar o preço
Como disse o tal do major Rocha
Quebro a métrica só pra dizer que

"Cada cachorro que lamba a sua caceta"

E agora que resolvi escrever com doze
Já não me comprometo com o título
E foi tu que me ensinaste a ser flexível
Sim, foi tu, que me mostraste o que é horrível

Só por uma vez vou dizer em dez

O outono trouxe tudo o que levou.
E o céu vermelho que nem pôr-do-sol

Me lembrou que sozinho é bem melhor.





Aprender a amar

Um dia
Pensei ser forte
O mais forte deles
Tudo bem, talvez eu tenha exagerado, ali, um pouquinho

Apenas um dos mais
Pensei que estava ali 
Entre os mais dos mais
Na confraria
Um seleto e desconhecido grupo
Que era capaz de fazer e desfazer
Dizer e desdizer
Admitir, depois, mentir
Seguir vivendo a vida então.

Eu me gabava, então
E achava graça
Gostava de dizer que eu era, sim
O escolhido delas
O moço do chapéu, por favor
Sempre, 
A qualquer custo, 
à toa, 
à toda prova.

Depois me vi, por fim
Um imbecil
Um tolo, um bobo, um qualquer
Homem vil
Um narcisista, um besta, um animal
E adjetivos tenho aos montes
Ora, pois
Que tanto faz

Se eu amo vomitar na folha em branco
Palavras e poemas 
No meu lápis que eu aponto volta e meia
Usando a faca feita para os queijos
Já que é pequenininha
Eu sei que é ela, e só
Que
Cabe bem

Se eu passaria a noite divagando
Se eu vejo, ainda, um jeito, solução
Talvez deva guardar aqui, pra sempre
Pra sempre, estarei, eu
Eu mesmo, e ela
Mostrando, sim, que eu talvez, tenha aprendido
Que amar é simples
Fácil,
E bonito.

Aprendi, sim, que amar, é o mais incrível
O sentimento mais tranquilo e puro
Mas que independente disso
Jamais será, por si só, indolor.


quarta-feira, 8 de março de 2023

Inception

Eu olho para a vida e eu vejo o tempo.

Tenho visto o tempo de um jeito nunca antes visto. E percebi que estávamos enganados.

Ter uma graduação na escola de engenharia acaba com a minha vida nessas horas. Como é que raios, por Deus, fui virar escritor?

Escrevo sobre tudo, para todos. Enquanto não posso mapear todas as minhas tristezas e colocá-las num papel como uma análise bucólica da vida moderna, tal qual Rubem Alves ou Leminski em suas devidas épocas, sobrevivo agradando os olhos daqueles que lá não têm tanto tempo assim para ler. 

Se me sinto mal? Jamais. 

Afinal, Deus me fez capricórnio por uma boa razão. Encontrar algo na vida que me fizesse ganhar dinheiro, alimentar minha melancolia e ainda ter tempo de reclamar.

Eu adoro reclamar. 
[Mas esse é outro assunto]

Enquanto isso, encho a cara de vinho e começo a fazer contas burras, de padaria. Ah, como eu amo essa expressão!

Com pouco esforço e toda alma do mundo, percebi que aquela estimativa dos quinze anos estava errada. E eu já imaginava, afinal, não era possível.

Explico.

Já conheci casais que se conheciam há quinze anos. Também há vinte. Há quarenta. Há cinco e há três. E nada, nenhum, nem ninguém, de maneira nenhuma, se compara ao que vi ali. 
Naquele bar, naquela cidadezinha do interior daquele país, naquele ano, e finalmente, naquela geração. 
Uau! 
Qualquer bomba nuclear que a gente venha a ter medo perde feio para aquele abraço.
Então fiz a conta, não sou besta, eu já sabia. 

Inception! 

I N C E P T I O N

I made a mistake, já diria Memphis Raines. -- Obrigado pela contribuição, Renato Menezes.

Não. 
Não são quinze. 

Já que cinco minutos dentro da vida real são doze horas dentro de um sonho, já se passaram 72 - SIM! SETENTA E DOIS - anos desde aquele treze de agosto. 

Aquela blusa cinza, aquele kimono, e o cú de burro que mais parecia uma caipirinha, e o barulho ensurdecedor dos machos escrotos ao redor. Estamos tão velhos, afinal, que hoje só sabemos beber olhando pro céu ou fumando um cigarro boiola na varanda improvisada. 

Quinzena pouca é bobagem. Dois idosos que há setenta e dois anos se aturam, que brigam, se matam, de ciúme e de medo, luxúria e bagunça, corpo de delito e a estrada, amor no tapete da sala, discos de vinil e groselha, paredes e vidros quebrados, artistas em sua expansão.

Devia ter, afinal, seguido o conselho do nobre Di Caprio e ter trazido um pião. 
Agora sem noção do tempo, dei-me conta que não, não é tarde demais. 

O contrário! 

É tempo de ver o que é bom. E o bom que um dia conhecemos, agora já está se perdendo, pouco a pouco. 
Aquele olhar que um dia duraria a noite inteira, passou a durar meia hora, depois veio a ser dez minutos, até que chegou no reels, um minuto e a mensagem está dada.

Hoje quinze.

Quinze anos, como achávamos? 
Não. 
São segundos.

Quinze segundos e se não for interessante, ah, meu Deus, tchau e bença.
Mesmo que a geração Z nem entenda o que isso quer dizer, só nós, os trintões, saberemos por tudo o que passamos.

E foi por isso, que resolvemos parar o tempo. 
O amor não pode esperar.
Além da liquidez de Bauman.
Lá estamos.
Meus poemas são matemática.
Te desafio
Correr atrás de minha dose enfática
E me explicar o que eu sei
Estude inglês e verá o que eu já vi também 
Que metade é boa sim
Agora que sabemos nós
Talvez só eu
Bem sei
Sim!
Metade do amor, fomos nós.
Fomos todo amor, rumo ao fim.

domingo, 5 de março de 2023

Brasa

A distância faz ao amor aquilo que o vento faz ao fogo: apaga o pequeno, inflama o grande.

Roger Bussy-Rabutin

sábado, 4 de março de 2023

She don't lie

Há uma potência incalculável no seu jeitinho de ser
Quando me olhavas, no passado, só eu sei quanto medo eu tive
Por isso, de ti, fugi
Ignorei sua presença, mesmo tão perto de mim
Mesmo todos sabendo que tu me querias
Eu já tinha outra companhia. 
Como podia traí-la? 
Ser fiel, que sabes que sou
Por isso você resolveu sumir. 
E sei que você fez o certo, afinal
Hoje, quando me olhas de perto, é diferente
Já não tenho medo, ou qualquer angústia
Tenho dores de barriga e mesmo assim me aproximo
E é só começarmos nosso toque, que eu já sinto
Sua força me invadindo, me conquista de um jeito tão fácil
Me beija, me abraça, desestabiliza
Faz meu coração errar as batidas
Nem és tão bonita, e isso pouco importa
Pois quando começas a falar comigo
Tu falas de um jeito, que sabe fazer
Excita, transforma, me faz levitar
Me arrepia o corpo, eu me tremo todo
E eu sei muito bem quanto senti sua falta
Também sei que, um dia, vamos nos separar
Já que peguei gosto pelos amores impossíveis
A coisa é que eu amo a sensação de te ter.
É difícil explicar, mas tu me inspiras, tanto
As frases começam a vir, tão, tão rápido.
As ideias, composições, os textos, poemas
As rimas e a solução para todos os problemas
E depois de tudo, ainda, me ensinas a ser paciente
Me diz pra esperar que você vai partir
No seu tempo, é claro
Só quando quiser.

Negativo

 - Alô!
 - Oi
 - Nossa...cara...que horas são?
 - Tá bem cedo
 - Ahn...aconteceu...alguma coisa?
 - Acorda primeiro. Eu espero.
 - Se me ligou pra brigar, já me avisa, que eu não tô com pique, não.
 - ...
 - Já entendi. Boa noite então! Bom dia!
 - Não desliga!
 - Porra, João, cê me acordou as cinco pra me infernizar? Me diz logo o que foi, vai
 - Não dá pra dormir sem você
 - Já tentou meditação?
 - Se for pra debochar, quem vai desligar, sou eu!
 - Jura?
 - Não, Mônica. Queria ouvir sua voz.
 - Já sei que você não tá normal. Fez de novo, né?
 - Não briga. Ah...ou briga, vai. Até brigar com você faz falta.
 - Você tá bem?
 - Tô na mesma. Não durmo já tem dias, e a saudade, só piora
 - Aqui também não tá fácil, se é isso que quer saber.
 - Pra falar a verdade, eu nem sei...nem sei muito bem o que eu quero saber. Te ouvir respirando na linha já é um baita alívio
 - Olha, João...sério. Não faz mais isso. Cara. Você chega das suas noitadas e eu na base de remédio. Como espera que seja meu dia? 
 - Então me escuta. Que eu ainda sinto seu cheiro na cama, na roupa, nos cantos da casa. Que eu ouço sua voz falando palavrão, e brigando, e gemendo, cada gargalhada. Que até meu colchão tem sua fôrma, e todo o seu mel, que secou.
 - Não me faça chorar. Não são nem seis. A ideia era sabermos o que estamos fazendo, não era? 
 - Eu sei. Mas pô, mô-ni-CÁ. Quem é que tem alguma certeza, afinal?
 - Quem tem, eu não sei. Sei que não somos nós. E digo mais: deu negativo.
 - Deu...deu negativo? 
 - Negativo. 
 - Isso não vai funcionar, né?
 - Sabemos que não.
 - Posso te fazer uma pergunta?
...
...
...
Alô?


Futuro do Pretérito

Jurava que evitaria
A vida que eu conhecia
Pensei, talvez, resistiria
Que, no caso, entenderia
Jurava que ela diria
O quanto, capaz, seria
Tal história mudaria
Novo episódio surgiria
Jurava então que estaria
Na cama, em ti, deitaria
Teu cheiro bom sentiria
Tua nuca já beijaria
Jurava o que ela faria
E toda fé, botaria
Que jamais desistiria
Por cada plano lutaria
Jurava que um dia a veria
Difícil crer que não iria
Num abraço resolveria
No beijo é que mostraria
Jurava que entregaria
Toda verdade abriria
Achei que eu acertaria
O verbo que escolheria
Jurava que acabaria
Que o poema se leria
E aquela voz ouviria
Reconhecendo que errou.

quinta-feira, 2 de março de 2023

Téo e Berê

Dispensei o chapéu
A postura blasé
O meu papo cruel
A citação cliché
Me portar como um réu
Ao pensar em você
Dispensei o teu mel
E a loucura, pra quê?
Meus textos no papel
Meu eu, jovem, michê
Gostavas de cordel
Gostava de você
Dispensei o bordel
O amor a mercê
Não quero mais troféu
Já cansei de vencê
Já cansei de rimar
Me permito fazer
Dispensei o motel
Isso, bem sei, porquê
Enjoei do papel
Da postura de mau
Valorizar meu pão
Porra, a troco, de quê?
Dispensei tu, fiel
Bem quis nossa bebê
Já comprado o anel
Quis ouvir seu lelê
Para entrar no seu céu
Te entreguei um buquê
E no inferno, ao léu
Recheado de fel
Vejo, então, Maitê.


Tortura

No meio da noite parei para pensar e, de todos os poetas que eu poderia citar, nenhum deles diria de fato o que era pra eu dizer. E olha que, para quem aprendeu a ter referências, isso é quase que raro. 

"Ah, como eu queria ter escrito isso antes dele"
Ou ainda, a máxima:
"É, isso claramente poderia ter sido escrito por mim"

Quem sabe um dia aquele efeito do filme Yesterday acontece e eu ganho a sorte grande? 
Já sei até de quem iria roubar tudo.
Quem sabe?

Apesar de qualquer coisa, permito-me fazer aquilo que não deveria, que não queria, muito menos esperaria começar: depois de tanto, pensar no que era bom.

Contextualizando: rompemos. 

E a novidade em minha vida foi que, desta vez, não houve portas batendo, gritos, choro, ranger de dentes, objetos de vidro quebrando em paredes, facas, maçanetas entortadas, quebradas, trânsito parado, BJJ...

nada. 

Nadinha.

Como é que se pode, então, entender o fim daquilo que era tão bom?

Só eu sei quantas deitadas naquele divã serão necessárias para decifrar o porquê de eu ter sido capaz de, finalmente, entender, que aquilo que me faz mal, não foi feito para mim.

Torturo-me, então, quando me entorpeço, encarar meu maior demônio: os dias tão bonitos - e que foram tantos - ao longo destes quinze anos.

Nem por relevância, nem cronologicamente, recupero imagens, sons, e passagens, de toda uma vida.

Quando comecei este texto, esperava que pudesse, talvez, eternizar registros que um dia, talvez, se apagarão.

Me vi imóvel, por fim, tentando segurar a ânsia e perdido nos próprios versos.

Talvez eu tenha mesmo, me esquecido.

Como escrever

Prosa.