sábado, 17 de maio de 2025

A sobra

Devo confessar que minhas mais recentes percepções do mundo ao meu redor raramente me agradam, me despertam, me interessam.
Confesso nessas linhas também que começar um texto fazendo uma confissão nunca nem foi meu estilo
Bom, ao menos, não, até então

A coisa é que quando me lembro, quando vem à mente
Das noites, do meu Monza verde
Das músicas no meu velho toca fita
Das luas, das noites, vazias
Dos bares, da rota, rotina

Me pego lembrando e vivendo

Minha solidão, minhas dores
Já surgem
Vêm
Tudo de novo

Não sei, mais, se fui mesmo feito pra noite
Se a noite foi feita pra mim
Recuso-me a dizer sim
Internamente, eu só apanho
Reclamando ou não, eu me rendo, eu aceito
Eu leio os papéis
Eu entendo

Nos dias em que eu mais preciso
De um colo, um abraço, um carinho
Olhando ao redor, eu atento, percebo
Que aquela postura que um dia adotei
Não faz mais sentido nenhum
Nunca fez

Sobrou o que tanto afinal?
Te direi
Um rastro de plano
Um talvez
Sobrou meus mil eus, meus vocês
E o que eu nunca posso escrever

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Outros tempos

Andei lendo, esses tempos, sobre como as coisas mudaram, desde outros tempos.
Os outros tempos são, veja só, outros tempos.
Nada se parecem - ou talvez, quase nada, que é pra não ser injusto - com os tempos em que agora escrevo. 
O meu tempo. Meu tempo são os nossos tempos.
Que nonsense seria dizer algo diferente, já que estamos todos aqui, afinal.

Mas houve, sim, outros tempos. 
E naquele tempo muita coisa eu achava bonito fazer, e fazia. 
Enquanto lia, na cabeça já escrevia, rabiscava e sabia: 
que tempos são esses que não o meu tempo?
Que tempo estou, eu, que não é mais bonito, nem chique, nem sexy, ao contrário o pior: 
quase tudo aquilo que eu era e fazia. 
Virou texto, história, até fotografia. 

Lembrei do meu tempo, do quanto eu vivia.

Me lembro de quando achei chique ser só. 
Ninguém era só. Eram todos iguais.
E eu me destacava no meio da noite, rasgando avenidas, cortando alamedas, parando nos bares, aqui e ali.
Eu vivia só 
porque a solidão era chique que só.

Ninguém era só e nem queria ser. 
Não sei se no fundo eu queria ser só 
ou se eu queria mesmo era ser diferente de tudo que os outros não podiam ser. 
Ninguém era só porque não conseguia. 
O mundo te força, te puxa e te engole. 
De um jeito que às vezes é quase impossível ficar no seu canto, 
nem que seja por alguns míseros minutos, e alguém já daria tua falta. 
Meu Deus.

Aí que eu entrava, pra se admirar.
Amava ser só mas amava ainda mais quando alguém me falava: 
que inveja de ser assim como você.
E eu lá do topo, do meu pedestal, bradava e vomitava de como todo mundo poderia ser assim se quisesse muito.

Besteira.
 
Ninguém era só e nem queria ser.
Ser só era bonito, mas só uma vez.
Entravam ali, no meu mundo, uma noite. 
O outro dia, talvez.
Era sedutor, perigoso, era lindo.
Mas digo e repito: era só uma vez.

Agora, passou. 
Esse tempo, passou. 
E ser só não é bom. 
Não por ser, como sou, mas por ser assim, só, por escolha de outrem. 
Eu sigo, aqui, só, mas não reclamo, não. 
Eu gosto porque já me acostumei 
assim 
e é assim que eu sei ser. 
Já nem mesmo imagino se conseguiria viver 
como aqueles que eu abominei.

Agora sou só, mas não porque eu quis. 
Nem porque é sexy, um charme, um mistério.
Nem por meu próprio esforço, mérito, crédito.
Agora sou só já que a vida me trouxe onde eu devia estar.
Mas são outros tempos pra seres como nós.
Os seres tão sós.

A paz no silêncio, a taça de vinho, as horas na hidro, o teto de vidro, o papel escondido, longe dos perigos.
O que é sexy nisso?
O que se admira?
O que se espera?
Nem eu mesmo sei.

Me lembro das noites regadas de uísque.
Não havia blitz, lei seca, limites
De terno e chapéu, me achando todo chique, rasgava avenidas, cortava alamedas, parava nos bares, trazia uma presa, a rotina da noite daqueles outros tempos
Que eram nossos tempos
Não existem mais.

Não lamento a falta de nada que disse
Lamento é o fato
Que isso não existe
Procuro culpados
Logo fico triste
Não queria estar por aí pelo mundo, te juro, contento-me com meu terraço, a sacada, as estrelas, e o pouco que ainda existe do que eu sou
Não queria estar por aí, juro mesmo
Mas queria mesmo
Que ainda existissem os novos poetas

Os raios de sol
Velhos Santiagos
Devaneios, delírios
Os tais Lenhadores
Os bicos de pena
El hombre, los hombres
Gravatas 
Menezes
Meus melhores dias naquelas cadeiras 
Ouvindo o delay das TVs, duplicando a voz de cada atriz
Mostrando pra gente
Que era bem possível
Um final feliz

Tudo agora é pó
Deixaram a noite
Deixaram esquinas
Aqui bem na tela do meu celular
Já são outros tempos
E nós que vivemos, aqueles, os tempos
Abrimos espaço pros tempos de então
Que são nossos tempos
De antes e agora
Mas que agora é tarde

E para ser chique, nos tempos de então
A receita é outra
E essa eu não aceito
Por, enquanto, não.