terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Número da sorte

Resolvi tomar aquela chuva
Ora, chuva
Uma chuvinha
Sempre tive muito certo como a chuva
Quando bate no meu rosto
Me incomoda
Mas não hoje, por Deus, hoje não

Caminhei algumas quadras
Pra encontrar Mariazinha
Desfrutar dos seus prazeres
Beber do suco, chupar a fruta
Enquanto penso só na lua
Me lambuzo, bem taurino
Mando uma mensagem 
Digo
Vem me ver

E não é que ela vem mesmo?

Celebrar da minha sorte
A nossa sorte
Estamos vivos, e vivendo
Estamos tendo muita calma
E paciência
Porque amor, só, não é tudo
Mas amor só, ainda é pouco

Imito Clarice, e assim digo
O que eu sinto ainda não tem nome

Por dentro, organizo a casa
Arrumo a confusão, a bagunça
Tiro o lixo, que semana a semana
Acumula
Porém sei, tenho tentado
Deixar tudo bem limpinho
Que é pra lua dormir bem
Que é pra eu dormir bem, também.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Não tenho tempo

Poema de Zeca Baleiro, pra lembrar que nem o medo, nem o tempo, são alheios a mim.



Eu não tenho tempo
Eu não sei voar
Dias passam como nuvens
Em brancas nuvens
Eu não vou passar

Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
Eu não sei voar

Eu tenho um sapato
Eu tenho um sapato branco
Eu tenho um cavalo
Eu tenho um cavalo branco
E um riso, um riso amarelo

Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
De me ouvir cantar

Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
De me ver chorar 

Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
E eu não sei voar

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Ensaio sobre a ingenuidade


Fazia tempo

Que não recebia, em visita

Tamanha tristeza


As dores no corpo

E também na cabeça

O choro incessante 

Deitado na cama, em posição fetal

Tentando entender

O porquê de coisas que não têm porquê 


A cama mudou

Também o hemisfério 

A vida tentou

E tentou, e tentou

Até conseguir, de uma vez, me mostrar

Como dói ser sério

E quão caro é o preço 

Da ingenuidade 


Entregar-se todo, transformar o mundo

Nunca foi bom plano

Por que panos limpos?

A troco de quê?


Se tudo ao final será má surpresa


A segunda vez é ainda pior

A queda em vertigem me roubando o ar 

Já que, só a subida, era um salto de fé


Agora o adeus

Que achei que seria difícil dizer

Foi silencioso 

Com palavras falsas

Choro vergonhoso

De quem sabe a culpa

De que vale a culpa?


Agora que não dá mais para mudar.