sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Gente feliz

É fácil se apaixonar por gente feliz.
É ingênuo.
É tão fácil e ingênuo quanto pensar que "feliz" é um estado permanente.
Não existe gente feliz.
Existe gente que está feliz.
E aí, claro, é fácil mesmo se apaixonar. Quem nunca se apaixonou por um sorriso?
Não consigo contar nem com os dedos das duas mãos.

Insisto:
É fácil se apaixonar por gente feliz.

É fácil reconhecer.
Na verdade, pensando melhor...em tempos de pandemia, pode ser a coisa mais difícil do mundo.
Mas não pra você, se você viveu a pandemia vendo gente, fazendo festa, churrasco, fogueira, e o escambau.
"Sei lá...o jeito que a gente quebra a quarentena é diferente, sabe?"
Aí fica fácil, mesmo, pensar assim.

Difícil é assumir.

Que a vida não é um arco íris.
Orfeu estava certo com Zeca, também não é um bicho de sete cabeças.
Mas veja bem.

Por trás de todo sorriso, estão os traumas. 
Por trás de toda simpatia, estão os demônios. 
Por trás de todo o charme, estão os perrengues.

Simétrico assim.

Se apaixonar por gente feliz é amar um pedaço da pessoa.
Acrescente, aos tempos de pandemia, uma pitada de stories.
E voilá!
Você se apaixonou por uma figura.
Insisto e repito: 
Quem nunca? 
...se apaixonou por um sorriso?

Difícil é ficar.

Quando o cerco espreita. 
Quando o tempo fecha. 
Quando a coisa aperta.
E aí? Quem vai segurar esse rojão?
Não é problema seu. Não é problema de ninguém.
Entretanto, fácil é sair.
Atrás de outro sorriso.
Atrás de gente feliz.

"Feliz"



Lance Legal

Às duas da manhã
De uma terça-feira
Ou talvez seria
Quarta
Enfim
Danço pela casa
Deslizo leve, solto
Vôo
Pelo piso
Dispenso o pique-nique
Também a caminhada
Pra curtir a manhã toda
De loucuras na cama
Contigo
Enquanto ouvimos discos
Que prometemos 
Nos apresentar
Acendo um cigarro
Enquanto desenhas
Usando o nankin
Que nos registrou
Pela primeira vez
Mordo o chocolate
Com gosto do seu véu
Também do seu cigarro 
Azul
E das ruas que percorremos
Tentando fugir 
de todas 
as evidências
Para que pudéssemos ser
Ao menos uma vez
O nosso lance
Dentro ou não dentro
Da lei
Ouvimos o sax
Pela última vez
Na porta do metrô
E sequer sabíamos 
que nunca
Nunca mais nos veríamos
Talvez.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

NZ 1557

Como pode?
Eu me lembro
Daquela cama
Daquele quarto
Daquela casa
E daquele bairro
Onde havia um sargento
Que ficava ali
Parado
Estático
Vendo e ouvindo
Meus mil amores
Pela janela
Da esquina
Sentindo inveja
Talvez
Eis que jamais saberemos
Jaz no passado
Naquele dia que passamos
E paramos
Pensando que brincaríamos
Com o guarda da rainha
E apenas fingimos
Não nos importarmos
Quando no fundo
Fomos uns babacas
Mas essa é a única paz
Que ninguém ousou 
Se apropriar
Ao contar
A história.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Você em mim

por Guilherme Arantes, meu eterno, com quem me sinto feliz em dividir uma época e um planeta, a lá Carl Sagan



Morrendo de vontade de te ver
Lembrando tanta coisa que ficou
E nada ocupa o seu lugar
O tempo passa e só faz aumentar
Você em mim
Sei
Que agora posso compreender/ o quanto foi
Realidade o encanto entre nós dois
E em tantas vidas que eu vivi
Meu desejo é ter você aqui
Pra sempre enfim
Foi você
Que me deu a luz
Que eu não enxergava mais
Em você
O mundo sorriu
Querendo viver
Fazendo esquecer
De olhar pra trás
Bem
Que o destino me podia preparar
Uma surpresa em sua vida de uma vez
E dessa vez vir pra ficar
Com tanto amor que eu tenho pra mostrar
Você em mim

sábado, 14 de agosto de 2021

Rodoviária

Me lembro como se fosse hoje, inclusive com clareza de detalhes, daquele dia que, certamente, não aconteceu em tempos de pandemia.

Me lembro dela.

Como sempre, cheguei primeiro. Jamais me daria ao luxo de perder um só segundo do momento, muito menos por pura displicência, imagine. Prefiro ganhar na absurda insistência do que entregar os pontos para o atraso das empresas de transporte.

Quando vi seu ônibus fazendo a curva, lá embaixo, na esquina, quase nem acreditei. O corpo gelou, garganta fechou, coração acelerou. 

Na hora.

Uma escola de samba inteira no meu peito. Como é possível? Em uma daquelas cinquenta poltronas ela estaria e, de alguma forma, eu não podia lidar muito bem com isso.

Eis que o motorista encosta na plataforma e eu, que até então fingia naturalidade, não aguentei. Levantei e fui logo pra perto esperá-la descer aqueles degraus que, já há certo tempo antes, eu havia profetizado que me fariam perder o ar e, eventualmente, a dignidade. 

Força da expressão? Dito e feito.

Ela desceu e eu fiquei em choque. Travei. (Coisas que só uma rodoviária faz por você, pensei). Não deu nem pra decorar o nome escrito no ônibus, pra agradecer.

Ela era pequena. Menor do que eu havia imaginado, o que me fazia ainda maior do que ela poderia desejar. Sua meia calça trazia tudo o que precisava guardar entre a bota e o shorts jeans, um pouco rasgado, além da jaquetinha e do cabelo nem-preso-nem-solto que sempre me alimentou tantos tipos de pensamento. 

Só deu mesmo pra tentar fazer a minha melhor pose, que em alguns instantes foi por água abaixo. Já estava entregue, vidrado. Babando.

De repente ela veio em minha direção e, como num filme, corta. 

Já estávamos ali, frente a frente. Olho no olho. Respirando um único ar.

Congelamos.

Seus olhos bonitos e brilhantes encontraram os meus pequenos e atentos à forma como os dela tremiam ligeiramente. Sentia o corpo inteiro tremer e já nem tentava mais disfarçar. Ela sorriu, eu sorri. Sorríamos, bobos, porém não hesitamos, e aconteceu. 

Aquele foi o abraço mais intenso e profundo que eu nunca dei. 

E ali ficamos, por minutos, sem falar uma só palavra. 

Abraçados. Grudados. Ligados. Finalmente!

Cena de novela, mesmo. 

Enquanto todos os transeuntes e passageiros com suas malas, maletas e bolsas, passavam ao redor do nosso abraço, o som das rodinhas se arrastando pelo piso, também o som das conversas, dos nomes de filhos gritados pelas mães da América latina, e da voz aleatória nos auto-falantes anunciando as próximas chegadas e partidas...tudo isso, simplesmente silenciou, entrou no mudo. 

Ainda nos apertávamos bem forte e nos mantínhamos encaixados ali, em pé. Meus braços longos envolviam suas costas e cintura, e seu corpo se aconchegava no meu peito. Trocávamos nossos perfumes como se troca de corpo, e sentíamos duas almas dançando naquele silêncio.

Era ela e só.

No dia em que tudo mudou.

O dia que não nos disse quando seria, quando foi, ou quando vai ser. 

Um dia.






quarta-feira, 11 de agosto de 2021

O oposto do amor

Eu já acreditei em muitas coisas
Contudo, no amor?
Acho que não
Busquei a vida inteira
Meus vinte anos de amor
Encontrar aquilo que fosse
O oposto
O oposto do que se chama
Amor
Já acreditei em muitas
Muitas, coisas
Ainda que, não em muitas
Pessoas
Quase nenhuma, ouso dizer
Um dia acreditei, porém
Que era o ódio que se opunha ao amor
Pois aquilo era o que eu tinha
No meu dia a dia
E se não me sentia amado
Talvez, odiado, sim
E tudo bem, assim vai ser
Retribuindo amor quando havia de ser
Destilando ódio quando conveniente
Me fosse
Pois bem
Que um certo dia me senti filósofo
Descobrindo a América ao perceber
Que o oposto do amor, sim
Só pode ser!
A indiferença
Afinal, o que podia doer mais?
[sempre fui chegado numa dor, quê fazer?]
Do que saber que alguém não te odeia
Pelo contrário
O oposto
Não está nem aí!
Não dá a mínima para você
Veja só, a audácia dessa filha da puta.
Até chegar o dia em que só o que tenho
É aquilo que sinto
E só o que possuo
É o que vejo, que concluo, e o que posso oferecer
E o que me impede de amar, afinal?
É o oposto do amor
Porque se tudo o que está em volta
É energia, é Deus
E Deus, sabemos, é amor
Longe da lógica do Stevie Wonder
O amor é tudo
Mas não posso deixá-lo entrar
Afinal, tenho medo
O oposto do amor, enfim
É o medo.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Fortaleza

Foram tantas guerras
Tantas batalhas
Disputas
Lutas
E delas, claro
Tive vitórias
Derrotas
Trapaças, também
Macetes
Mutilações

Tantas, foram
Que ao longo do tempo
Fiz-me fortaleza
Um castelo
Um templo
Um forte
Fincado no chão
Resistente
Muros altos
Sentinelas

O que não dá pra ver
Por fora
Tamanha a imponência 
Destas estruturas
É tudo aquilo que eu
Também, por tantos motivos
Resolvi esconder, guardar
Assim fiz tão grossas paredes
Impenetráveis
Escudos

E carrego toda noite
O peso
De estar aqui dentro, fechado
Trancafiado
Com meus mil demônios
Cicatrizes que abalaram pilares
Golpes que quebraram vidros
Estilhaços por toda parte
Pequenos pedaços
De mim 

Por que é que ao me verem 
Assim, tão protegido, fechado
Ainda insistem em tentar entrar
Invadindo?
Juro que aceito companhia
Mas o jeito mais fácil
Seguro
E bonito
Adianto:
É pela porta da frente.





quinta-feira, 5 de agosto de 2021

O trouxa e o mau-caráter

Sempre foi muito mais difícil lidar com a fragilidade das pessoas do que com o mau-caratismo. Talvez por um senso interno de justiça, de não conseguir aceitar ser humilhado, nem que outras pessoas sejam humilhadas...não sei. Nunca suportei ouvir as histórias onde pessoas foram enganadas, ludibriadas, feitas de trouxa. Era de embrulhar o estômago. Tomo as dores. Pego ranço. Vou junto. 

Em oposição a isso, o mau-caratismo sempre me pareceu muito mais honesto. 

Explico.

Aquele vilão de novela, série ou filme, que a gente tem raiva, sobe o sangue, enche a boca pra gritar: canalha! A gente sabe que ele está por aí, e sabemos mais: estão aos montes. Em todos os lugares. A parte da honestidade à qual me referi é que, assim como na tela, certas vezes é fácil identificá-los. Você olha pr'aquele ou aquela e pensa: mas que grande filha da puta!

Essa gente sempre se safa, é impressionante. 

Surreal. 

O que me soa, definitivamente, imperdoável, é a migração. Normalmente do papel de trouxa, para o de mau-caráter. Coisa de personagem, mesmo.
O contrário também, porque a vida tem seus ciclos, mas esse é assunto para outra hora.

O coitadinho que sempre foi enganado, usado, feito de idiota...bem, não era tão coitadinho assim. O destino é implacável e, como diz a sabedoria popular, existem sempre três versões de uma mesma história. Entretanto, somente uma delas é a verdade. 

A verdade é invencível.

E ela aparece. Você pode botar a culpa em quem quiser: nos astros, no karma, dívida de outras encarnações. Enquanto você não tiver um compromisso real com o que você é, honesto sobre quem já foi, e aberto para quem pode vir a ser...vai meter os pés pelas mãos.

A verdade é a verdade, e só ela é capaz de mostrar às outras duas versões da história quem são eles: 

O trouxa e o mau caráter.

Não gosto de ser feito de trouxa, não nasci pra isso, sem a menor vocação. Mas tem uma coisa que eu gosto menos ainda: gente mau-caráter que se coloca como trouxa. A troco de conseguir credibilidade, porque é bem difícil pra quem cresceu num meio moralista como o nosso, virar e dizer: fui filha da puta sim, porque eu faço o que eu quero, e acabou. 

Pra ser canalha é preciso, antes de tudo, saber assumir. Segurar o seu rojão. Vai dar merda, e quando der merda, você vai olhar e dizer: foda-se. 

Perdoem-me o vocabulário chulo. 

Se você me conta uma história onde foi feito ou feita de besta, olha...eu vou ficar bem puto, por você, e com o malfeitor. Porém, se eu descubro que no fundo você é só um canalha que não dá conta de resolver os seus dilemas...aí, eu lamento. Não muito, mas lamento.

Você está sozinho nessa.

Trouxa. 

E mau-caráter.




terça-feira, 3 de agosto de 2021

Fica

A folha em branco faz mágica.
O tempo pára.
Todas as sensações se misturam.
No fundo do quarto ou na beira da praia.
Observo cada detalhe do nada
E vomito palavras, linhas
Prosas e melodias
Inocentes e puras
Ou embalsamadas na mais bela
Putaria
Então ouço aquelas músicas
Bebo do elixir
Dos deuses 
Gregos e Romanos
Dionísios e Bacos
Me delicio nos prazeres
Da carne e do mundo
Volto ao inferno que me abraça
Me adula e me afaga
Com suas melhores armas
Me pedindo que fique
Que aguarde mais um instante
Eu olho para o céu
Vejo os astros, estrelas, e constelações
E então você adormece em meu peito
Me deixando terminar meu vinho
Ouvir minha música
Com as minhas pernas
Coxas grandes
Grossas
Fortes
Enroscadas nas suas delicadas 
E belas
E doces
Coxas, Pernas, Pele
Até amanhecer
Então eu sinto seu cheiro
Provo teu beijo
Lhe toco os cabelos
Eu estou 
E sempre estive 
Apaixonado
Por 
Você.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Check

Quando você me colocou, ali, de frente à aquela mesa, mal pude decidir se estava impressionado ou incrédulo. 
Não era possível que você iria querer jogar, não de novo. Logo comigo? 
Das poucas vezes que parei pra pensar nisso, confesso, te imaginei chamando um, ou outro, para o tabuleiro. É o tipo de coisa do seu feitio, aprendi a entender.
Mas...por que eu? 
Estávamos naqueles segundos iniciais, antes do relógio começar, nos olhávamos no fundo dos olhos, eu te percebia a tentar ler quais seriam meus movimentos. Enquanto isso, não conseguia me questionar outra coisa além de onde, ou em qual ponto você estaria, na escala entre a estupidez e a ingenuidade. 
Travesti minha decepção em vulnerabilidade. O personagem faz toda a diferença, há quem diga. Então, começamos.
Joguei brancas. Com uma abertura clara e sem mistérios, procurei eliminar qualquer dúvida: não iria atacar. Ao menos, não de cara. Movia as peças lentamente, sempre acusando o próximo passo, um estilo que quem me conhece sabe que faço bem. Aos poucos, mapeei o tabuleiro todo, através das jogadas tímidas e pouco eficazes que tentavas.
Você não mudou nada. 
O que me deu, de novo, a dúvida, desta vez até com um pouco de irritação. Não treinaste nada, nada, e ainda me fizeste vir aqui perder o meu tempo? Bem, a escolha é minha, no fim das contas.
Logo, resolvi impor certa assertividade, e eliminar suas peças de proteção. Em algum momento você precisava perceber que eu, apesar de calmo, não estava pra brincadeira. Nunca estou. E foi aí que te vi correr por entre peões, bispos e torres, armando o cerco da rainha. 
Inútil, já que eu havia preparado todo o terreno. 
A partir de então, o tempo todo me culpava por ter entrado nessa. Mas já que estou aqui, agora é pra causar estrago. Eu gosto do estrago. E vou até o fim.
Avancei e dei de cara com Vossa Majestade, no auge de sua falsa proteção, para você e para quem mais quisesse ver - uma vez que já havia reparado: não éramos só nós dois ali naquela mesa. Você tinha backup e eu sei muito bem quem.

Cheque!

Percebi que você não ia desistir então te dei seu tempo. E logo vi você começar a hesitar e render-se ao nervosismo enquanto perdia suas peças mais importantes - de um jeito tão rápido, que nem percebeu! - e a meter os pés pelas mãos.
Usavas jogadas tão clichê, conhecidas por mim desde antes de você nascer, que aquele jogo já havia se tornado um circo. Como um gesto de espírito esportivo, te dei um ponto pela coragem. Tem que ter muita bola mesmo pra querer me desafiar numa dessas.
Enfim, relaxei. 
E você, bem...uma pena, Não tinhas mais para onde ou quem recorrer e, como sempre fez, tentou manipular o jogo, minar o cenário, colocar a culpa em mim - antes mesmo da partida acabar, veja só! - pela sua exposição. Ridícula e infantil. Permaneci, com batimentos já calmos, te observando esbravejar. 

Tarde demais, bebê.

Mate.