sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Unlimited Power

Quando me perguntam
Sobre quais drogas
Já provei
Não hesito em dizer:
Aquelas que me ofereceram.

Nem uma a mais.

Entretanto
E entre tantas
Nada sequer
Se quer comparar
Ao amor

O amor é,
e continua sendo,
sim
A droga mais poderosa
Que eu já
provei.

Não há dor
Nem riso
Nem flor
Nem questão
Nem solução
Ou dúvida
Ou certeza
Que me reste.

Será isso,
[de novo],
o amor?
Talvez uma nova dose...
não sei
Mais forte?
Mais pura?
Da boa.

Ou será que é uma coisa
que eu nunca vi
Que me leva pra lá
E pra cá
E pra todo lugar
Que, apesar
de qualquer nome
Eu não aguento de vontade
de te ter
de novo
Será mesmo?

E eu que pensava
que o álcool era aquilo
Que um dia
Iria
me dominar
Quem dera, eu
Tivesse o poder
de escolher.

Por isso, faça o que quiser
De mim.
Me apresente
O lado negro
Da força.

E seu poder.
Ilimitado.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Quando falo da noite

Falo é das luzes
E também do escuro
Do tempo (que nunca passa)
Ou de quando corre demais

Dos toques quentes
Olhos que brilham
Danças estranhas
Música estranha
Entrando e mexendo
Com a cabeça
Da gente

A gente confusa
Os monstros babando
As presas na esquiva
Timidez nos cantos
Tristeza por dentro

O álcool que escorre
Transpira e transborda
Papel, bola e açúcar
Pra dentes cerrados
E para as pupilas
Dilatadas.

Abraços de amor
De amigo e de oi
Carinho honesto [e]
Também disfarçado
E tudo acontece.
E nada também.
E está tudo bem.

Pois mesmo quando chega o sol
Pra quem é da noite
Ainda não acabou.
E não vai acabar
Nunca.

O barco, assim, segue
Navegando
Pelas águas misteriosas
Às vezes silenciosas, profundas
Outras vezes claras, rasas, perigosas
A noite também faz bom marinheiro
E o bom marinheiro nunca
Nunca sabe
Quando chega...
Só sabe
mesmo
quando chega.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

You belong to the city

The sun goes down the night rolls in
You can feel it starting all over again
The moon comes up and the music calls
You're getting tired of staring at the same four walls
You're out of your room and down on the street
You can feel the crowds in the midnight heat
The traffic roars the sirens scream
Look at the faces it's just like a dream
Nobody knows where you're going
Nobody cares where you've been
'Cause you belong to the city
You belong to the night
Living in a river of darkness beneath the neon light
You were born in the city
Concrete under your feet
It's in your moves, it's in your blood
You're a man of the street
When you said goodbye you were on the run
Tryin' to get away from the things you'd done
Now you're back again and you're feeling strange
So much has happened but nothing has changed
Still don't know where you're going
You're still just a face in the crowd
You belong to the city
You belong to the night
Living in a river of darkness beneath the neon light
You were born in the city
Concrete under your feet
It's in your blood, it's in your moves
For a man of the streets
You can feel it
You can taste it
You can see it
You can face it
You can hear it
You're getting near it
You're wanna make it
'Cause you can take it
You belong to the city
You belong to the night
You belong to the city
You belong to the night
You belong
You belong

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Por favor

Já que estava frio, acendemos a lareira.
Apaguei todas as luzes e deixei apenas um fundo de luz quente, avermelhado, que iluminava os quadros da parede e o corrimão de madeira.
Sentei-me na poltrona ao lado da vitrola e coloquei aquele disco. Aquele. Apenas para ocasiões como tal.
Confesso que é pegar pesado, mas quem negaria?
E porque era especial, me preparei com meu melhor. A camisa, o perfume...um jogo que achava já ter desaprendido a jogar.
Mas não.
E conforme o ritmo da música se misturava aos sons da lareira, ela saiu do banho...e passou correndo entre uma porta e outra para que não a visse indo se arrumar.

Tarde demais.
(Ainda sim, continuo adorando essa inocência)

Saltitou nas pontas daqueles pezinhos trinta e três ou trinta e quatro, a toalha enrolada mostrando - sem querer mostrar - só o que eu devia ver. Os cabelos, voaram com o movimento, deixando no ar um já conhecido cheiro bom que me manteve ali, sentado, inerte.
Depois, então, de longos minutos, ela surgiu. Aquela silhueta delicada, de não mais que um e sessenta, e desenhada milimetricamente pra caber nos meus braços, desfilando suave. Ela flutuava pelo quarto, uma cena em câmera lenta para os meus olhos.
Vestia algo como um vestido latino, solto nas pernas porém marcando aquela cinturinha que minhas mãos tantas vezes mapearam, subindo e respeitando cada uma das curvas do seu corpo. Lindo. Jovem. Torneado, leve e sinuoso.

Perigoso.

Subi meus olhos e vi aquele pescoço, meu objeto de maior desejo. Acompanhando seu queixo e todo o seu cabelo em volta do seu rosto misterioso. Voltei rapidamente o olhar pelo seu colo, todo a mostra, e suspirei. Tomara...
Que caia.
A música a fez dar uma volta, como quem me apresentava uma dança, e foi só ela perceber meu inevitável sorriso de orelha a orelha, que eu não precisei pedir...

Subiu suas mãozinhas macias deslizando do seu quadril, pela cintura, e deslizou rapidamente encaixando os dedos no seu decote, começando a descer, lado por lado, uma vez de cada, dos seios aos tornozelos, nos cinco segundos mais bonitos que o cinema não viu.
Levantou de volta, jogando os cabelos para trás, e sorriu. Tão pouca idade e tanta noção do poder que tem. Assim são as mulheres.

Não deu pra contar até dez e ela pulou no meu colo, aquele encaixe sutil, beijando-me a boca, o pescoço, as orelhas, e envolvendo sua mão pela minha nuca, debaixo dos meus cabelos...tudo retribuído ferozmente pelo meu instinto, que a devorava, da rija carne até roer o osso, segurando com firmeza suas coxas e apertando sua cintura com vigor. Entre um beijo e outro, passava apenas um dos meus braços em volta do seu corpo todo, dando a ela toda a proteção misturada com o prazer. Mais um corte digno para a sétima arte.

A noite teve seu ápice momentos depois, quando a música já pedia intensidade, e a lareira nos fazia arder cada vez mais. Deitado naquela cama enorme eu via apenas sua silhueta sobre mim, o desenho do seu corpo que a luz do fogo tornava ainda mais belo, enquanto a sentia ser invadida, carinhosamente descoberta, acessando o ponto mais profundo e me mostrando que, embora já sido tocado, cada centímetro do seu corpo pedia certo cuidado, com paixão. Só pedia mais.

Quando então ela percebeu que estava chegando ao máximo, deitou seu corpo, até então numa cavalgada intensa e louca, sobre o meu, fazendo nossos movimentos ficarem ainda mais fortes. Puxei levemente seus cabelos e coloquei minha boca em seu ouvido...sussurrei: olha pra mim!

Olhamos então nos olhos, e não deu pra segurar...enquanto aumentávamos o ritmo rumo ao céu, ela também me segurou bem firme com suas mãozinhas pequenas e tão gostosas, quase que massageando meu rosto, e ofegante, entre nossos olhares penetrantes, implorou...
 - Por favor!



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Tragédia

“Existem duas tragédias na vida:
Uma é não conseguir o que o coração deseja 
A outra é conseguir”

George Bernard Shaw


sábado, 8 de fevereiro de 2020

Batida

Algo me puxa pra noite
Não sei bem do que se trata
Na verdade, eu sim, eu sei
Mas não tem como explicar

De repente eu estou lá
Vozes, sussurros e flores
A lua cheia brilhando
Música em todos os lados

Amigos estão aqui
Estão em outros lugares
Luzes se acendem, se apagam
O alcool nunca se acaba

Entre outras drogas do mundo
Fora do mundo, só Deus
Ele também tá aqui
Olhando por todos nós

A terra segue girando
Pela vibração da lua
Arco perto, chuva longe
Um dia minha vó disse

Nada de hoje deu certo
Tudo encaixou no final
Ao redor, pessoas boas
E a baixa vibe, adeus

Olho pros lados e gosto
Minha cabeça não para
Eu encontrei finalmente
Essa é a batida perfeita

Gente sorrindo e em paz
Gente falando demais
Gente dançando, seduz
Gente gozando sem luz
Gente que não fuma, está
Gente que aguenta e não quer
Gente que quer a saída
Gente que acabou de entrar
Gente que é bela e é só
Gente que só quer viver
Gente que há pouco era blues
E
Gente que nem quer saber

Saia e busque sua luz
Ela estará por aí
Dentro do seu próprio eu
Ache e seja feliz
Torço vir o melhor
Ainda não consegui.




quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

O túnel

A partir deste momento. Enquanto eu viver. Eu te prometo...

Segui pelas ruas ouvindo grandes declarações de amor sem a menor pretensão. Resolvi manter o rotineiro hábito, ainda que no corpo novo, e parei naquela boa e velha conveniência. A única que ainda existe, e que sobreviveu após estes longos e intensos (quase) quinze anos.
Uma coca. Dois sonhos de valsa. Uma água, porque agora sou adulto, e você sabe como as coisas são quando se é adulto.
Após uma leve manobra, na mesma rádio - ressuscitada da época - o clássico, Voyage Voyage. Ainda nem acredito que essa era a música mais tocada no dia que eu nasci. Bendito site.

Mais uma vez, desço a rampa. Desta vez, rumo ao outro lado da cidade.

Quando percebo, no meio daquela rua que - quase como uma artéria - corta e atravessa a cidade tal qual uma flecha, lá vem ela de novo. A máquina do tempo.

Entro em um túnel todo iluminado, bonito, as cores amarelas me trazendo junto a aquele som característico, uma certa transformação...

E ao sair...lá estou!

Naquela pracinha perto do hospital. O carro numa travessa escura, tudo muito silencioso à volta, quando de repente ouço uma voz doce e inocente, pura, limpa, quase não ouvida - ao menos nos últimos dez ou quinze anos - claro, a sua voz. Disse: põe aquela do Beethoven.
Começa então a canção da luz da lua, e num piscar de olhos, já estou no banco de trás.

Estamos.

Uau! A vida pode ser maravilhosa em qualquer época. Que célebre momento para se estar vivo...

Palavras se conectam. Sentimentos fluem e atravessam quilômetros, assim como gerações, até atingirem e penetrarem nosso peito, sem chance de defesa.
Que seja essa a única e mais autêntica forma de se expressar o que se sente, e de ler um ao outro, pura e simplesmente pelo fato de que você existiu. E como diria o poeta: em qualquer conjugação do verbo existir.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Time machine

Liguei o carro, desci a rampa e saí.
Chovia. Uma chuvinha de um típico verão em terra brasilis. Fina, porém firme, e constante. Não iria parar nas próximas horas.
Enquanto dirigia, sintonizei a rádio que mais gostava. Como o destino pôde ser tão generoso ao trazê-la de volta junto comigo? Penso...
Dirijo por entre as ruas e me sinto bem. Coisas vão ressurgindo, pouco a pouco, dentro de mim, a cada novo minuto.
Em um determinado instante, aquela mistura: Chuva sobre o para-brisa, limpador ligado em temporizador, indo e vindo pausadamente, música brega e fora de moda tocando, o cheiro do asfalto, luzes da cidade, as mesmas ruas, esquinas, travessas...
Olho para minha jaqueta e - uau! - já não é a mesma daquela época, naturalmente. Independente disso, esta noite ela parece tão, tão como a velha. Resgato em pensamento uma jaqueta jeans, que naquele meu corpo de vinte e cinco quilos a menos caía como uma luva. Me olho, e penso: o que tenho é o que tenho que ter.
Com esse mix incrível e sincero, vêm junto: sensações, desejos, fantasias e reflexões, oriundas daquele tempo em que as nuvens eram de algodão.

Definitivamente, encontrei a máquina do tempo.

Olho no retrovisor, e encontro alguém diferente. Os cabelos longos, a barba e a confiança, meus ombros largos tal como o pescoço, apresentam-me uma versão diferente de mim mesmo. Me permito encontrar-me com a versão de mim a qual sempre, sempre quis ser. Como poderia imaginar que um dia, de fato, isso iria acontecer?

Continuo dirigindo e o mundo é meu.

A noite nunca tem fim, e como nunca teve, ela continua aqui. Minha eterna companheira, que me acolheu por tantos e tantos momentos, mais uma vez, abre os braços para seu, pra sempre, súdito.

Possua-me e faça de mim o que quiser.

Nada parece mais meu do que essa incrível sensação de saber que eu sou quem eu sou, que eu posso e que vou, sim, ser eu mesmo, agora e então, sempre que eu quiser.
Assim, nessa de renovar a parte que deveria ser mudada, porém ainda sim resgatar tudo aquilo que trazia as melhores das emoções, todos os amores e paixões se mostram vivos.
É a vida, voltando ao normal, como se eu não tivesse o direito de escolher onde ou quando a máquina vai me deixar. Porém, sim, estou pronto para aceitar. E é quando a gente aceita, que tudo acontece.

Como, onde, quando e, principalmente, porquê, tudo deve acontecer.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Quando

Aqui, com minha velha companheira, a madrugada...ouvindo músicas tristes - o velho vício, de se afundar - até que, então, surge a tal frase:

"...But now, baby I need your love right now, I can't go on."

E a primeira coisa que me veio à cabeça foi aquele carnaval. Creio que foi há dez, talvez onze anos. 
Palco grande, um belo estádio, eu lá em cima, até que jovem, animando junto à banda cerca de dez mil pessoas na noite mais movimentada. Tempos bons, de vacas gordas em todo o país, e dos melhores carnavais. Engraçado essa lembrança vir justo agora, pertinho da mesma época, enfim...

O momento que me veio foi de uma baita música dançante, porém carregada de uma harmonia linda, romântica, e uma letra sincera. No auge da minha sensibilidade, tocava a música e olhava os rostos - principalmente das meninas, quase que natural - fechando os olhinhos e cantando a poesia, mão direita no coração, mão esquerda segurando a espuma, bochechas brilhantes, faixa na cabeça, shorts jeans curtinhos e uma expressão toda cheia de sentimento, tocada por aquela canção. 

E eu?
Bem...

Eu, nada. 

Me lembro bem que a música falava de saudade. Também me lembro como se tivesse acabado de descer do palco minutos atrás, do meu pensamento durante aquela "ponte" - para quem não sabe, o pedacinho de música entre a estrofe e o refrão - quando refleti e cheguei à seguinte conclusão: Que coisa...não sinto saudade de ninguém.

Como foi duro. Difícil, demais. Uma música tão bonita, tocando e emocionando tantas pessoas ali, uma letra doce, falando de saudade, e eu simplesmente não podia partilhar desse sentimento adequadamente.

E é como me sinto agora, guardadas as proporções. Sinto certas saudades, de fato, sim. Sentimentos, inclusive, que nem entendo bem o porquê de estarem aqui, existindo todo um lado cruel e sombrio do qual jamais desejo estar próximo na vida. Uma confusão terrível.

Mas é que...quando vem a música fatídica, de declaração, pra qualquer um cantar de joelhos frente ao seu grande amor, é que me vejo olhando para a letra e pensando: Peraí...eu não posso cantar isso. Cantá-la-ei um dia, porém não hoje, por não ser o que sinto. Porque não há figura na qual eu possa pensar, que me traga vontade, lá do fundo, de recitar uma música assim. 

Sabe, de verdade, é bem triste essa sensação de neutralidade perante às coisas. Prefiro o outro eu, sofrido, dolorido, agonizando. 

Olhar pra si mesmo, assim, tão frio, torna as coisas um tanto quanto sem graça. 

Mentalizo, então, meus braços abertos. E deixo que tudo venha. Sem me importar.

Quando.