sábado, 25 de abril de 2020

Sonho secreto

O que acontece é que eu me lembro, sim, daquele sonho. O sonho, sobre o qual, não pude falar e jamais poderia se ainda assim fosse. 

Não sei se há coisa mais difícil, para mim, do que não poder fazer alguma coisa.
Como me disseram, outro dia, "você é o pesadelo de qualquer chefe". E eu, claro, tive de concordar. E talvez tenha demorado demais para perceber isso, porém, quando o fiz, logo tratei de resolver. Dei um jeito de não ter mais chefe, e por ironia do destino, resolvi ser chefe. 
Não funcionou. Outra dessas peças que a vida prega na gente, ora, pois. E é por causa disso e simplesmente disso que hoje sigo só.
Em quase todo e qualquer setor.

Chovia. 
Porém não era uma chuva qualquer. Era uma chuva torrencial com ventos fortes, fazendo todo o fundo da minha visão ficar cinza, misturado com um um amarronzado de poeira quase como um tufão. 

E eu andava. buscava abrigo, por uma estrada cercada de um descampado aberto, onde nada se via a um palmo. Hoje pensando, como um filme, quase ouço a trilha da cena. Que naturalmente não havia. 

Até que encontrei esse casarão. Uma casa grande de madeira, dessas feito cabanas porém bem, bem maiores. Janelas de vidro todas sujas da poeira, e as tábuas de uma cor marrom mais escuro que a poeira da cena. Eu vi a casa, procurei sua porta, e entrei. Era um corredor estreito e escuro, bem curto, como se formasse um L para a direita. Quando cheguei na aresta, percebi que havia dois degraus no assoalho e os desci. Segui pelo corredor. Certa claridade agora entrava pelas portas dos cômodos da casa, todas abertas, recebendo feixes de luz pelas janelas.

Então mais uma aresta em L e uma curva para esquerda. mais dois degraus abaixo. Desci e, quando vi, cheguei em algo como uma intersecção de corredores dentro da casa. Três corredores, o meu e mais dois, davam para um pequeno hall, todos a mais dois degraus abaixo, e uma porta no centro. Uma porta dupla, dessas antigas de madeira, com apenas um dos lados aberto. 

Podia ouvir o "toc, toc" dos meus passos e então, ao chegar na porta, lá estava ela. Encostada meio escorada em um dos braços, cabeça não tão ereta e nariz não tão empinado como de costume, e os cabelos, sim, ondulados, castanhos, longos e lindos - isso, sim - como sempre.

Cheguei bem perto de sua cintura fina e, ainda que estivesse um degrau acima, não era problema para um cara grande como eu. Não deu tempo de olhar em seus olhos, e logo já senti seus braços envolvendo meu pescoço como o abraço longo e apertado que sempre demos. Como pode o tempo sempre ter parado em momentos assim?

Nos abraçamos por tempo suficiente pra eu me lembrar daquela ligação forte e estranha, misteriosa, beirando o esquisito. Então nossas pernas, ainda em pé, se enroscaram e meu pescoço repousou sobre seu ombro, formando um abraço completo, perfeito, profundo e até um tanto dolorido. Saudade. Um amor que nunca foi muito bem explicado, o que se há de fazer? 

Até que nos beijamos também do jeito que fizemos lá atrás, na primeira vez. Minhas mãos em seu cabelos levemente os puxando para baixo, e um beijo apertado daqueles de faltar o ar, unido ao abraço forte e aos corpos se mexendo tão naturalmente. Em pé, ali, na porta, com aquela tempestade lá fora. 

Afinal, a chuva sempre esteve ao redor. 

Acordei tão impressionado, uma vez que não via a imagem dela já tinha alguns anos. Nem pessoalmente, menos ainda em sonho. Não faço ideia do que pode ter acontecido com meu subconsciente, só sei que a única coisa na qual pensei ao abrir os olhos, foi contar a ela que esteve aqui.

Fiz, e a sua resposta me deixou ainda mais feliz. Já o que aconteceu depois, só o tempo dirá a importância. 

No final, estamos todos vivos, e a vida voltou ao normal. E mesmo com um abraço e um beijo, desta vez reais, aqui, outros ali, novamente não nos vemos e talvez nem mesmo nos veremos nunca mais. E que este sonho, nunca mais, secreto, seja. 


quarta-feira, 22 de abril de 2020

Cabalístico

Eu sabia que aquela tarde de outono prometia. Sabe quando você sente aquela coisa? Que paira no ar, mas que também está dentro. Difícil explicar, mas tá tudo bem.

O que sei é que eu sentia e por isso resolvi arrumar tudo. 

Olhei pela janela e o céu estava azulzinho, com aquela camada invisível que o faz diferente de um céu de brigadeiro, acrescentando os detalhes das nuvens espalhadas feito pintura. Apesar de qualquer crença, em silêncio, agradeci a quem quer que estivesse com o pincel. 
Com tudo pronto, já era hora de partir. O coração batendo hora lento e profundo, hora acelerado e louco. Uma disritmia que vem de anos. Alguns dizem que é o remédio, mas que posso eu fazer? Conto na cabeça e já tem uma década desde que comecei...uau! Será que o bater profundo nunca foi amor? 

Um dia saberemos.

Depois de algum tempo, porém sem demora, encostei com minha moto naquela rua. Sempre gostei de parar por ali e admirar o pôr-do-sol, principalmente nesta época. Aquele amarelo, que fica laranja, então vermelho, e segue lento, atravessava meus olhos e ia direto pra dentro como a canção que um dia você tocou pra mim, ali, no quintal daquela casa, com seu violão simples e sua voz suave, macia, afinada. Precisa. 
E só porque era Abril e as coisas já estavam ficando bem frescas por aqui, vestia aquela jaqueta que você sempre gostou. Como mandava o figurino, os cabelos soltos, meio bagunçados, hora pelo chapéu, hora pelo capacete, os óculos e o sol se pondo refletindo em suas lentes também.

Até que você dobrou a esquina e eu esqueci completamente em quê estava pensando.

Charlotte, que de certo já conhece seu cheiro, também se impressionou. Desligou, por si só, pra que eu pudesse ouvir seu caminhar ainda que lá da beira do quarteirão. E assim ficamos, ali, os dois, atônitos, te vendo descer a rua e já sorrindo de longe.

Você brilhava. 

E eu, bem...você me conhece. Nem tentei disfarçar. Tento manter o meio sorriso, misterioso, quando por dentro estou uma mistura de bobo apaixonado, babando, e feliz, eufórico. Você vindo em minha direção sempre, sempre vai mexer comigo.
Com uma flor no cabelo, e o batom vermelho que insiste em me conquistar, você - que não enxerga muito bem - demorou pra perceber que aquele vulto era o mesmo de sempre. Quando viu, sorriu. Me derreteu, de novo. Dentro de um vestido leve, coberto por uma blusa dessas de vó, que por alguma razão te deixam melhor que qualquer modelo caríssimo, jogou o cabelo pro lado do jeito que sabe que pode fazer em qualquer ocasião. Pronto pra eu pegá-lo pela nuca e tudo isso. 

Você é bem bonita, né?
Pensei. Só pra você ler meu pensamento.

 - Tá pronta?
 - Sempre, meu bem. Vamos?
 - Trouxe sua roupa!
Você sorriu:
 - Então, pronto!
 - Bom, agora tem 270 quilômetros de estrada pra pegar. 
Duzentos.
E setenta.
Número cabalístico.

Liguei Charlotte, que também sorriu pra mim, como em cada ignição. 
Agora vambora, que a estrada com você na garupa e suas mãos envolvendo minha cintura pode ser quão longa for preciso. 

terça-feira, 21 de abril de 2020

Não tenho tempo

Eu não tenho tempo
Eu não sei voar
Dias passam como nuvens
Em brancas nuvens
Eu não vou passar
Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
Eu não sei voar
Eu tenho um sapato
Eu tenho um sapato branco
Eu tenho um cavalo
Eu tenho um cavalo branco
E um riso, um riso amarelo
Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
De me ouvir cantar
Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
De me ver chorar 
Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
E eu não sei voar

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Vinho

Quando um vinho de qualidade tem uma história para enriquecê-lo, parece ganhar algo a mais. É o caso do tinto português Pedro & Inês, produzido pela Global Wines (Quinta de Cabriz), do Dão, por inspiração da Quinta das Lágrimas, hotel-monumento de uma cadeia de luxo em Coimbra, onde a história se passou mais de 650 anos atrás.

Conta-se que no século XIV o rei D. Afonso IV acertou o casamento de seu filho e herdeiro, o príncipe D. Pedro, com a princesa espanhola Dª Constança, filha do Infante de Castela, D. João Manuel. A aliança política interessava às duas casas. Constança chegou a Portugal em 1340, acompanhada de grande séquito, e o casamento logo foi realizado. Entre suas damas de companhia havia uma jovem galega muito bonita, Inês de Castro, por quem D. Pedro teve uma paixão avassaladora. Inês era filha de Pedro Fernandez de Castro, homem rico e poderoso na Espanha, neto de Sancho IV, rei de Castela. O romance, que afrontava os interesses de Portugal e as convenções sociais, abalou a corte e teve final inesperado. É a versão lusa de outros amores trágicos, como o de Aberlardo e Heloisa ou o de Romeu e Julieta.

Pressionado pelos nobres a afastar Inês, em 1344 o rei D. Afonso IV condenou-a ao exílio. A distância não fez diminuir o amor do casal. Meses depois, Constança morreu, ao dar à luz D. Fernando, herdeiro do trono luso. O rei tentou casar novamente o filho com uma princesa. D. Pedro recusou a ideia e preferiu trazer Inês de Castro para morar no Paço de Santa Clara, às margens do rio Mondego, onde hoje se situa a cidade de Coimbra, então capital do reino. Tiveram três filhos. Mas as intrigas da corte espalhavam que os parentes espanhóis de Inês queriam tomar o trono português. Influenciado então por três conselheiros, D. Afonso IV mandou decapitar Inês em janeiro de 1355, quando D. Pedro estava ausente. Ela tinha 30 anos e chorou muito ao ver os carrascos, o que de nada adiantou.

Enlouquecido de dor, o príncipe jurou vingança. Dois anos depois, com a morte do pai, ao subir ao trono como D. Pedro I, perseguiu os três conselheiros e mandou arrancar o coração de dois deles. O terceiro conseguiu fugir. Em 1360, afirmou que havia se casado em segredo com Inês, o que fazia dela rainha. O corpo de Inês foi transferido do convento de Coimbra para o mosteiro Real de Alcobaça, onde eram enterrados os monarcas portugueses, e o novo rei fez construir para ela um mausoléu de pedra branca, ricamente trabalhado. Pedro I também mandou esculpir os detalhes do romance em seu próprio túmulo. Ele morreu em 1367 e foi enterrado perto de Inês. Os dois túmulos ainda podem ser visitados no mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Sobre o de Pedro, está escrito que eles permanecerão juntos “até o fim do mundo”.

O resto é lenda, não confirmada por documentos. Diz-se que, sem esquecer a amada, Pedro exumou o cadáver de Inês e colocou uma coroa em sua cabeça, obrigando os nobres a beijar a mão daquela a quem haviam desprezado em vida. Na memória popular ficou a frase, repetida por tantos, mesmo sem saber sua origem: Agora Inês é morta. Ou seja, ela foi coroada rainha, mas tarde demais. As desventuras dos dois jovens é narrada por Luís de Camões, no canto III dos Lusíadas.

Louvada em verso e prosa, a saga de Pedro e Inês continua viva. O palácio onde eles se encontravam para viver seu amor proibido, a Quinta das Lágrimas, pertence há 300 anos à família de Miguel Judice. O nome faz referência às lágrimas que Inês de Castro verteu ao ser assassinada e que, segundo Camões, se transformaram numa fonte de água pura que ainda corre nos jardins da propriedade. Escreveu o poeta: “As filhas do Mondego a morte escura/Longo tempo chorando memoraram/E por memória eterna em fonte pura/As Lágrimas choradas transformaram”.

Localizada na margem esquerda do Mondego, na freguesia de Santa Clara, em Coimbra, a quinta ocupa uma área de 18,3 hectares. Foi mencionada pela primeira vez em documentos de 1326, em plena Idade Média. Tem jardins exuberantes e atrações como a Fontes dos Amores e a Fonte das Lágrimas, sempre em torno de Pedro e Inês. O palácio original foi destruído por um incêndio em 1879 e reconstruído ao estilo dos antigos solares rurais portugueses.

Há 20 anos a Quinta das Lágrimas abriga um hotel-monumento, integrado atualmente à rede Small Luxury Hotels of the World. O prédio passou recentemente por uma grande reforma, encerrada no início deste ano. A restauração custou 1,5 milhão de euros e foi possível graças ao projeto Revitalizar, um fundo de investimento orientado pelo Estado português para modernizar e dar vida nova a construções de importância histórica no país. O Hotel Quinta das Lágrimas é administrado em uma parceria entre as famílias Júdice, Alexandre Almeida e a empresa Oxy Capital.

A Quinta das Lágrimas tem dois restaurantes e, por se localizar entre duas das mais importantes regiões vinícolas de Portugal, Dão e Bairrada, acumulou ao longo dos anos uma notável coleção de vinhos, tornando-se o que se chama “Wine Destination Hotel”. Em sua extensa carta de vinhos, a estrela é o tinto Pedro & Inês, concebido com duas castas tradicionais da região, que lembram os personagens principais da história. A Baga, estruturada e masculina, remete a Pedro; e a Alfrocheiro, perfumada e feminina, recorda Inês. A união das duas criou um vinho histórico. Mais recentemente, surgiu também a versão em branco do Pedro & Inês, a partir das castas Encruzado e Bical. Por sorte, para provar estas duas joias o consumidor brasileiro não precisa viajar. Os vinhos são distribuídos aqui pela importadora Vila de Arouca.

O Pedro & Inês Tinto é macio e expressivo. As castas Baga e Alfrocheiro são colhidas e fermentadas em conjunto, em barricas abertas de carvalho francês. Depois repousa por 12 meses em barricas novas. Lembra nos aromas fruta madura, com algo de chocolate e baunilha. Tem bom corpo, estrutura, taninos finos e muita harmonia entre carga de fruta, acidez e álcool. Um vinho sedoso e encantador (14,5%). A Vila de Arouca comercializa no momento a safra de 2009. Custa R$ 270,75. Nota 92.

domingo, 5 de abril de 2020

A síndrome

Esse é o momento.
São mais de três.
E como um velho sábio que eu já chamava de "véio" há, talvez, quinze ou mais anos atrás, me diria: nada de bom acontece depois das duas e meia.
De fato, só quem é da noite sabe o quanto isso é verdade.
Bêbado, mas nem tanto, ouço a música que a rádio me dá. Somente o sol se escondeu, e sim, meu corpo pede o seu calor. A poesia em português continua imbatível. 
Ao passo que há algumas horas estava vendo as fotos daquele lugar que nunca bem fotografei. Que saudade das ruas e das paisagens que vi com meus próprios olhos e que não tive tempo de registrar apropriadamente. Que vontade de viver tudo de novo mas, dessa vez, do jeito certo. 
Talvez seja a quarentena, não sei, mas esse confinamento têm - recentemente - me dado uma vontade louca de voltar pra aquele lugar e começar tudo de novo. Será que eu teria chance?
As coisas estão mesmo ficando muito estranhas ultimamente.
Quando entra, então, o Zeca Baleiro e o Fagner, dupla que tanto amo e que, assim como nunca vi, nunca mais se viu, é que eu tenho certeza da profundidade que a noite tem, não que nunca tivesse tido. Sinto saudade. 
O que é que eu fiz da minha vida?

sábado, 4 de abril de 2020

Paixão [x]

Só porque eu postei essa em 2009, sabe Deus pra quem. Mas que, se postei, é porque era de verdade. E, se eu posto agora, é porque 1: estou ouvindo agora. e 2: porque, sim, é de verdade.
Também.

Paixão

Amo tua voz e tua cor
E teu jeito de fazer amor
Revirando os olhos e o tapete
Suspirando em falsete
Coisas que eu nem sei contar
Ser feliz é tudo que se quer
Ah! Esse maldito fecho ecler
De repente a gente rasga a roupa
E uma febre muito louca
Faz o corpo arrepiar
Depois do terceiro ou quarto copo
Tudo que vier eu topo
Tudo que vier, vem bem
Quando bebo perco o juízo
Não me responsabilizo
Nem por mim, nem por ninguém

Não quero ficar na tua vida
Como uma paixão mal resolvida
Dessas que a gente tem ciúme
E se encharca de perfume
Faz que tenta se matar
Vou ficar até o fim do dia
Decorando tua geografia
E essa aventura em carne e osso
Deixa marcas no pescoço
Faz a gente levitar
Tens um não sei que de paraíso
E o corpo mais preciso
Que o mais lindo dos mortais
Tens uma beleza infinita
E a boca mais bonita
Que a minha já tocou