terça-feira, 31 de dezembro de 2019

A quase dor

As vezes a gente simplesmente vibra em uma frequência diferente daquela de sempre.

E é quando acontece.

É neste tipo de noite que todas memórias ruins misteriosamente desaparecem.
Como num passe de mágica, tudo aquilo que machucou, que feriu, que doeu, que humilhou, que arrancou a pele, o couro, o tempo, a vida...simplesmente some e nem que a gente busque, vai para um lugar que sequer sabemos onde é.

Pois bem, e o que é que fica?

Ficam as coisas lindas, sim. Martelando, dando voltas e voltas nos pensamentos, populando e marcando presença de maneira eficaz. Covarde, eu diria.
Já hoje, lembrei dos passeios por aquela avenida.
Lembrei da neve.
Do horário do trem. Exato, como sempre.
Lembrei de umas comidas boas que a gente encontrou entre tanta coisa esquisita que a gente tinha que comer (das quais, por sinal, nem me lembro)
Os olhos enchem-se de lágrimas, o nariz entope, a vista fica molhada e turva e mesmo assim sequer paro de bater na velha máquina.
Pensei em escrever no papel mas sabia a bagunça que iria ser quando tudo isso ficasse assim, molhado, como já está a mesa.

A cabeça insiste em me trucidar.

Trazendo de imediato tantos momentos bonitos, de sorriso e de promessas tão profundas e, até então, sinceras.
Só eu sei o que eu prometi.
Eu não sei porque não deixo finalmente você ir embora da minha cabeça. Eu sei que no fundo, racionalmente, eu não te quero mais. Então porque insisto em pensar dessa maneira? Porque não consigo resgatar com a mesma facilidade tudo o que me fez sofrer e finalmente esquecer. Seguir em frente, não é o que dizem?
Por que é que ainda estou a ouvir essas músicas?

Parece que chegou aquela hora que eu temia, depois de alguns longos meses da partida, em que eu iria padecer.
Apesar que, pensando bem, houve outro dia em que chorava como hoje, em prantos rolando na cama, enquanto você me manipulava e me fazia sofrer sem o menor pudor.
Que coisa horrível que é, num estalo, resgatar isso.

As lágrimas secaram, meu Deus.

Já estive aqui outras vezes. Ou pelo menos penso que sim. Que já conheço o passo a passo, a ordem das coisas, os próximos capítulos.
Não consigo, de fato, discernir, se o que vem depois é o que eu penso que vem depois.
É um estranho sofrer por não sofrer.

Quase morrer por não sentir aquela vontade de morrer.

Dói porque não há razão para sentir dor.

Ai, se pelo menos, doesse...



segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Fui eu

É mais um dia sem você
Mais uma noite que eu espero
Se alguém no mundo quis você, fui eu

Te dei os sonhos que eu sonhei
Te imaginei prá vida inteira
Se alguém fez tudo por você, fui eu
Diz agora o que é que eu faço prá viver
Se a cada dia é mais difícil te esquecer
Tudo isso faz doer demais
Eu queria só voltar atrás, ficar contigo
Diz agora o que é que eu faço prá aceitar
Será que existe outra pessoa em meu lugar?
Mais o tempo vai te convencer
E um dia vai reconhecer
Que sem mim não pode mais viver
Sentimento
Dói por dentro
E a solidão não quer parar de machucar
Sentimento, Dói por dentro
Meu coração não quer ninguém no teu lugar

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Don't dream

Nem sei o quanto é estranho dizer
o que penso em dizer,
muito menos,
sentir o que pareço sentir.
Ouço canções tristes
e fico tão triste
Ouço canções felizes
e não fico, assim,
tão feliz.
Parece que o momento, finalmente, chegou.
Não quero você de volta.
E agora, por isso,
a tristeza é diferente.
Porque as coisas às quais me apegava
Então, deixaram de fazer sentido.
Não entendo direito
porque te ligo,
porque te atendo,
porque respondo suas perguntas,
enfim
E se a música triste
me deixa tão triste
É porque não queria estar assim
Tá bom, que ninguém quer, também
Mas é que...
O que era tão complicado,
de repente,
ficou tão simples
Que se esvaiu, até que
Deixou aqui o nada,
esse vazio,
esse silêncio
e até uma falta de ar
Contudo eu juro,
nem sei pelo quê
Que não quero que você preencha.
E é porque a água que tu trazes
e que mata minha sede,
também me envenena.
O amor que trazes
e que arranca-me o gozo,
também me suga.
A cada coisa
que me ofereces,
acompanha ali algo
escondido,
que há de me matar,
pouco a pouco
Como um dia começou e
como não deixei
que terminasse,
não deixarei mais.



sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Um qualquer

A tristeza é um sentimento.
Como todo outro,
como qualquer outro.
A sensação de solidão,
(que é pior que qualquer solidão)
não deixa de ser, assim
também
apenas um sentimento.
Por que quando explodimos
de felicidade
Não queremos que acabe nunca
E então,
acaba.
E você não se lembra mais
Ou lembra?
Assim o é, então, com ela
a tristeza.
Você se consome
rola na cama
Encharca o travesseiro
quase morre.
Porém...
você esquece.
Do dia,
do motivo,
da época.
Conta pra mim, como foi?
Quando é que foi
a pior vez
Aquela dor mais funda
Que seu coração
Quase parou
E você quis matar,
quis morrer,
há exatos cinco anos.
Se for mais fundo, vai ver
Há um ano.
Lembrou?
Lembrou nada.
Porque a tristeza é um sentimento
Como todo, outro, qualquer
E você se lembra, sim, que ficou triste
Um dia
Ali
Por causa daquilo
E tudo, e tal.
Mas
Você
Esquece.