quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Conflito - O retorno

 por Fagner, de Petrucio Maio / Clodo



Ai, meu coração que não entende
O compasso do meu pensamento

O pensamento se protege
E o coração se entrega inteiro, sem razão

Se o pensamento foge dela 
o coração a busca, aflito

E o corpo todo sai tremendo, 
massacrado e ferido no conflito




terça-feira, 22 de novembro de 2022

Pintura

Fiz meu café sem vontade

Nem de beber

Nem de viver

Limpei a sala e a cozinha

Tirei tudo de mau que havia

Olhei pro lado e me vi tão triste

Ainda


Recolhi cacos e pedacinhos

Daquela que seria

A melhor obra

Olhei pra tela, que leva meu nome 

E que,

mesmo assim

Insiste em parecer sorrir

Embora violentada


Parece um pouco comigo, afinal


segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Leve Desespero [2]

Eu não consigo mais me concentrar 
Eu vou tentar alguma coisa para melhorar 
É importante, todos me dizem 
Mas nada me acontece como eu queria 


Estou perdido, sei que estou 
Cego para assuntos banais 
Problemas do cotidiano 
Eu já não sei como resolver


Sob um leve desespero 
Que me leva, que me leva daqui 


Então é outra noite num bar 
Um copo atrás do outro 
Procuro trocados no meu bolso 
Dá pra me arrumar um cigarro? 


Eu não consigo mais me concentrar 
Eu vou tentar alguma coisa para melhorar 
Já estou vendo TV como companhia 

Talvez se você entendesse
O que está acontecendo 
Poderia me explicar 


Eu não saio do meu canto 
As paredes me impedem 
Eu só queria me divertir 
As paredes me impedem 
Eu já estou vendo TV como companhia 


Sob um leve desespero 
Que me leva, que me leva daqui

Avalanche

Saber ser racional
E escolher não ser
Me custa a vida.

Não gosto de viver pouco
De controlar o esforço
De medir a energia
[Pra quê?]
Para não me machucar

São essas as consequências
De aceitar o convite do amor
Para um vôo longo e bonito
Rasgando o céu, tão limpo

Me leva sempre mais alto
Não tenho medo da queda
Não gosto de viver pouco
Vamos pro infinito

Depois acontece isso
O amor só sabe ser leve
A gente é que estraga tudo
E apanha com violência
Sem nenhuma explicação
Gritos, passos, ofensas
Nos arrastam pelo chão

Depois acontece isso.
A boca que cheira a sangue
Não para o tremor das mãos
No quarto um eco estranho
A falta e a vergonha lutam
O pesadelo que nunca vai embora

Sonhei com um pôr-de-sol lindo
Acordei com saudade e esperança
Vi as coisas jogadas no chão
E tudo desmoronou
E vai desmoronar
Todo dia.
Até quando?

domingo, 6 de novembro de 2022

Faro [2]

O mundo aos poucos
Me mostrou
O quanto é bom
Estar do lado certo
Não ter que explicar
O que aconteceu
Ou porque é que pensas 
Daquela tal forma

O mundo aos poucos
Me mostrou
Como achar os vermes e monstros
E como ler
As bocas trêmulas
Olhares perdidos
Mãos inquietas
Pálpebras moles
E tantos outros 
Sinais.

O mundo aos poucos
Me levou
Pra rua.
E a rua aos poucos
Me ensinou
A ter tato
E a identificar toda
Categoria
De longe.

Tem talarico
Vagabunda
Caloteiro
Playboy lixo
Tem de tudo
E eu sinto logo
É pelo cheiro

Não há o que me engane.
O faro é certo
Tal qual cachorro
Que, sim, eu sou
Já me disseram
Sou bom de faro
Até ofensivo
Mas sei, sou bom, e
Não erro uma
Nem nunca errei

A arte vive

Não importa o tamanho da decepção.
Já tive de um metro e sessenta
Já tive de menos ainda
Não sou a favor
De deletar os textos
Afinal a arte está ali
Pra quem quer que veja
E talvez não doa pra todos que a vêem
Mas dói pra quem cria
Dói pra quem recebe
Pertence então, a todos
Ou não.