terça-feira, 19 de novembro de 2019

Game over

Dei o último gole, que desceu morno, amargo, horrível. Devo ter feito aquela careta que os bêbados fazem e nunca percebem. Também porque nunca se importam, mas vá lá.
Parece que o jogo de poder, por fim, cessou. Definitiva ou temporariamente, não importa muito, na verdade. O que sobrou mesmo foi um silêncio, um breu, um vácuo. Todo esse espaço que estava sendo muito mal preenchido, afinal. Não posso esquecer.
Até que, não aos poucos, mas abruptamente deixou ir toda a loucura, a falta de respeito, de controle, de maturidade.
Tanta falta pra sobrar a sua falta. Que ironia mais típica.
Será que nos cansamos de brincar de quem é que manda? Confesso que estava mesmo ficando cansado de, hora me sentir no topo, hora me sentir no lixo. Toda uma carga que não fazia o menor sentido de ser.
Agora me sinto no lixo e é só isso mesmo.
Acendo um cigarro, e olha que eu nem fumo. Vislumbro os vultos das pessoas pelo corredor, ouço a música no fundo, e continuo refletindo mesmo que já tenha passado - já há algum tempo - das duas e meia da manhã.
Eu gosto do lixo.
Eu gosto daqui.

Continue?
>YES



segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Cólera

Ardeu-me a garganta.
Encheu meus olhos d'água.
Pensei que fosse tristeza. [tal acostumado ultimamente estou]
Não era.
Ergui a cabeça e tentei respirar. Quase não pratico.
Não adiantou.
Meu corpo preparou-me como a natureza o fez.
Mãos e pés formigando, suando, frios.
Ah, se ainda estivéssemos em tempos de ameaça eminente...mas, não.
A ameaça do cotidiano é aquela que a gente busca.
Senti o calor subindo...

Cólera.

Fechei e apertei os olhos.
As mãos prepararam golpes então as cruzei frente ao peito.
Trancado no quarto, podia gritar.
E gritei.
A fera escapou e veio, como toda besta, destruindo tudo sem distinção.
Abri os olhos, juntei-me à velha máquina.
Vi seu endereço num velho envelope, engoli em seco

E escrevi.

Uma sequência de mágoas surgiu como uma metralhadora.
Palavrões de diferentes origens e numa ordem que, conforme vinham, iam.
Perdi a cabeça.
Os minutos mais rápidos da minha vida se passaram ali, enquanto esmurrava o teclado sem o menor propósito, que não, ferir.
Lentamente. Profundamente.
Era o mal.

Cólera.

Quase que como numa luta, após o efeito da adrenalina, padeci.
Chorei. De soluçar.
Não havia música que me segurasse.
Virei pra lá e pra cá como criança.
E como dizem, há sempre um pouco de mal no bem, e um pouco de bem no mal.

A carta enfim pronta.

Uma folha de papel com dez quilos de ódio e rancor.
Peguei-a nas mãos e a tingi. Com lágrimas.
Botei-a de lado. Na mesa, no canto.
E na manhã seguinte, entre a lata de lixo e o isqueiro,
Postei.