Pela segunda noite seguida, ela apareceu no meu sonho.
Como já faz um certo tempo, cerca de um ano, talvez um pouco mais, fiquei feliz pela primeira vez. Porque foi bonito, tudo branquinho lá fora, eu tendo que subir uma rampa - o que é tarefa nada fácil com o chão todo deslizando - e ao chegar lá em cima, tinha pizza. E uma pessoa especial.
Porém, na segunda vez, foi duro. Demais. Porque foi tenso, tinha neve não só no chão, mas caindo, forte, aumentando a altura e, desta vez, acompanhada do céu escuro que só quem viveu sabe.
Eu vivi, e acredite, não recomendo.
Após acordar assustado às quase três, não consegui mais dormir. Por isso tive muito tempo pra pensar. Às vezes gosto de tentar entender o porquê de eu ter sonhado determinadas coisas, como uma espécie de forma de autoconhecimento. Por que é que aquela neve toda estaria aparecendo, assim, do nada?
...
Até que me deu um estalo. E o coração acelerou tanto, e o corpo arrepiou, e confesso que até me deu um pouco de medo.
O confinamento!
É isso. Estamos em auto-isolamento há cerca de quinze dias e o corpo já começa a sentir. Não dá pra falar com ninguém - pelo menos, não pessoalmente - porque não é seguro. Sair de casa, só para comprar comida, quando sim. E eu, um capricorniano autêntico, como forma de bloquear o sentimento de depressão, enfiei a cara em trabalho. Muito. Como nunca...não...espera. Eu já vi esse filme antes.
O estômago reagiu, a garganta deu um nó. E começaram as lembranças e as conexões...
Aquele quarto. A janela grande e transparente, o céu negro praticamente o dia todo. Tudo branco no chão e nos telhados das casas. Tudo gelado lá fora e, muitas vezes, aqui dentro.
Isolado, permanecia trancado entre quatro paredes talvez vinte e três horas por dia. A outra eu divido entre ir buscar comida, ir ao banheiro e tomar banho, quando tomava.
Ali, eu trabalhava a maior parte do tempo. Doze, treze horas por dia. Dependendo do dinheiro, às vezes mais. Foi a forma que encontrei de desviar do inferno em que estava já que não havia saída. Estava enclausurado e sem qualquer sensação de que a liberdade haveria de chegar.
Do lado de fora da porta, barulhos que vinham pelas mais diversas frequências. Propositalmente produzidos, com o intuito principal de chegar e de me afetar. Conseguiam.
Energia ruim, pesada, que pairava no ar. Raiva. Desconfiança. Ódio. Gritos. Violência, nas mais diversas formas.
Não deu. Perdi o controle. Já não conseguia mais administrar a minha própria vida. Sabia disso, e toda essa consciência nada me valia. Por vezes, explodi. Quebrei móveis e ossos. Gritei e perdi não só a voz, mas a energia e a vontade de viver.
Hoje a situação não é a mesma, definitivamente. Mas algumas características se assemelham e, tão inteligente é a nossa mente que, de alguma forma, a neve surgiu em meu inconsciente, conectando o isolamento de hoje àquele do passado.
Olho em volta.
Respiro.
Entendo, e aceito.
Sigo calmo, enfim. Porque assim como saí melhor daquela prisão, esse é, então, um novo desafio.
Desta vez, com um sol bonito lá fora.
Enquanto durar.
domingo, 29 de março de 2020
quinta-feira, 26 de março de 2020
Boletim
Vinte e seis de Março, caiu a noite. Estamos há quinze dias em quarentena. Isolamento social devido ao vírus que toma conta e se alastra em proporções exponenciais por todo o mundo. A única forma de evitar que o contágio ocorra e que a doença se propague é manter-se fisicamente longe de toda e qualquer pessoa. Idosos estão no grupo de maior risco de morte e crianças podem ser os principais responsáveis por disseminar o vírus de maneira assintomática. Autoridades tomaram as providências para que todas as pessoas fiquem em suas casas e somente saiam para comprar comida, quando assim for estritamente necessário. Barreiras foram colocadas nas entradas e saídas das cidades, criando um isolamento físico mais eficiente, a fim de que não haja contaminação intermunicipal. Há tensão no ar e uma vibração pesada que deixa o mundo inteiro aflito e assustado. Não há para onde correr. Alguns lugares estão ruins, outros, bem piores. Em contato com pessoas de diferentes países vejo que o clima é de medo e insegurança em qualquer lugar sob o céu. Novas notícias e também falsas notícias surgem a todo momento uma vez que a era da informações está a todo vapor. Discussões rapidamente se esquentam e brigas políticas assumem o lugar da luta pela vida. A ansiedade aumenta em proporções inacreditáveis, baixando assim a imunidade das pessoas e as tornando mais suscetíveis ao vírus. Nem mesmo dentro de sua própria casa se está a salvo. Não é certo quanto tempo isso vai durar nem mesmo qual tem sido o avanço das pesquisas pela cura. Para quem se lembra, é como o surgimento da AIDS, porém de maneira avassaladora já que este vírus se propaga pelo ar. O número de casos e de mortes cresce em forma de progressão geométrica a cada dia, e ainda não se entende bem como funciona o microorganismo responsável por todo esse desastre. Cada vez mais nos vemos como parte de um capítulo de um livro de história no futuro, e a sensação não é muito bonita, de fato. É muito difícil ficar longe das pessoas que amamos, dos amigos, do carinho, do afeto, do afago. Essa falta também joga pouco mais para baixo a energia que ainda restava. E é por não saber no que acreditar, ou o que vai e o que pode acontecer, que deixo esse boletim, esse registro, esperando que nunca se perca pela eternidade e que seja útil de alguma forma, algum dia.
sexta-feira, 13 de março de 2020
Release the Kraken
Tão claro
quando a luz do
dia
Que não
há
Palavras surgem
assim
nos dias nebulosos
Natural e
instantânea
mente.
Menos surpreendente
ou talvez
típico
seria
Não fosse
uma sexta-feira
treze.
Escorrem
pelos
dedos
Então,
vomito.
Tá tudo
aqui.
Não quero escrever
Tudo
Todo
dia.
Mas, sim
Quero sim
Escrever
Quando eu
quiser.
Também porque não é sempre que eu quero.
Ainda, sim
garanto!
Melhor poder
e não querer
Do que
aqueles dias
em que a alma
quer
falar
E você
Não
Pode.
quando a luz do
dia
Que não
há
Palavras surgem
assim
nos dias nebulosos
Natural e
instantânea
mente.
Menos surpreendente
ou talvez
típico
seria
Não fosse
uma sexta-feira
treze.
Escorrem
pelos
dedos
Então,
vomito.
Tá tudo
aqui.
Não quero escrever
Tudo
Todo
dia.
Mas, sim
Quero sim
Escrever
Quando eu
quiser.
Também porque não é sempre que eu quero.
Ainda, sim
garanto!
Melhor poder
e não querer
Do que
aqueles dias
em que a alma
quer
falar
E você
Não
Pode.
terça-feira, 10 de março de 2020
Cerveja
Me lembro de quando nos vimos pela primeira vez...
Você chegou e encostou no balcão, perto de mim. Não deu pra não reparar em como eras linda e em sua pele branca ou em como você brilhava. Reluzia. Sua roupa parecia um pouco rasgada, mas honestamente, pouco me importei com isso.
Naquela noite, até onde me lembro, eu estava mal. Normalmente eu estou mal, então não que fosse novidade.
Mas depois que você chegou, logo percebi que meu humor mudou assim, num estalo, de uma hora pra outra. As pessoas no balcão também repararam, e até brincaram: "você tá querendo ela e dá pra ver que ela quer você".
Não me preocupei muito em seduzi-la, confesso.
Desde então, visto que já faz algum tempo, têm sido encontros e desencontros. Algumas vezes, antes mesmo de você chegar, eu já havia me ocupado com outra opção. Que posso fazer? Assim sou.
A melhor parte é que você sempre me diz "tudo bem". Não importa. Estarei aqui quando você voltar.
Acontece que eu sempre volto. Pra você.
Como esta noite, por exemplo, em que resolvi ficar. E assim, ficamos.
Que beijo bom você tem. Entorpecente e lícito, um paraíso.
E este som que soa enquanto sinto teu gosto é como um gemido de prazer instantâneo. Você me quer e eu te quero, então por que negar? Sigo para mais uma dose, e mais uma, e mais uma...
Te trago pra mais perto, porque é assim que te quero.
Te ponho no meu colo, porque és pequena e assim posso levar-te como quiser. Tu e eu, eu e tu.
E terminamos a noite com você acabada.
Comigo olhando pra você em êxtase, embriagado, ébrio, inerte, imóvel.
Deixamos para continuar outro dia...
Amanhã, quem sabe?
Você chegou e encostou no balcão, perto de mim. Não deu pra não reparar em como eras linda e em sua pele branca ou em como você brilhava. Reluzia. Sua roupa parecia um pouco rasgada, mas honestamente, pouco me importei com isso.
Naquela noite, até onde me lembro, eu estava mal. Normalmente eu estou mal, então não que fosse novidade.
Mas depois que você chegou, logo percebi que meu humor mudou assim, num estalo, de uma hora pra outra. As pessoas no balcão também repararam, e até brincaram: "você tá querendo ela e dá pra ver que ela quer você".
Não me preocupei muito em seduzi-la, confesso.
Desde então, visto que já faz algum tempo, têm sido encontros e desencontros. Algumas vezes, antes mesmo de você chegar, eu já havia me ocupado com outra opção. Que posso fazer? Assim sou.
A melhor parte é que você sempre me diz "tudo bem". Não importa. Estarei aqui quando você voltar.
Acontece que eu sempre volto. Pra você.
Como esta noite, por exemplo, em que resolvi ficar. E assim, ficamos.
Que beijo bom você tem. Entorpecente e lícito, um paraíso.
E este som que soa enquanto sinto teu gosto é como um gemido de prazer instantâneo. Você me quer e eu te quero, então por que negar? Sigo para mais uma dose, e mais uma, e mais uma...
Te trago pra mais perto, porque é assim que te quero.
Te ponho no meu colo, porque és pequena e assim posso levar-te como quiser. Tu e eu, eu e tu.
E terminamos a noite com você acabada.
Comigo olhando pra você em êxtase, embriagado, ébrio, inerte, imóvel.
Deixamos para continuar outro dia...
Amanhã, quem sabe?
domingo, 1 de março de 2020
O que é que há?
Não
Você não tá entendendo
Eu dei todas as voltas que eu dei
Vi inteiras
As voltas do sol
E posso
sim
te dizer
Assim como disse
o rei
Que
Você não sabe
E nunca procurou saber
Onde você já esteve,
meu bem
A lista de presença
Fui eu que inventei
Fui eu
E todo o desespero
Ou o que
você acha que sofreu
Pensa antes
Pensa bem
Onde é que cê tava?
Dez ou doze
Anos atrás
Lá estava eu
Como o cê
Aprendendo
Sim
A viver
Te digo, sincero
Já estive onde eu quero
Eu já estive lá
Pois seja bem vinda
Bem vinda à vida
Já chega e já brinda
Pois isso é o melhor
Que se há de fazer
Você não tá entendendo
Eu dei todas as voltas que eu dei
Vi inteiras
As voltas do sol
E posso
sim
te dizer
Assim como disse
o rei
Que
Você não sabe
E nunca procurou saber
Onde você já esteve,
meu bem
A lista de presença
Fui eu que inventei
Fui eu
E todo o desespero
Ou o que
você acha que sofreu
Pensa antes
Pensa bem
Onde é que cê tava?
Dez ou doze
Anos atrás
Lá estava eu
Como o cê
Aprendendo
Sim
A viver
Te digo, sincero
Já estive onde eu quero
Eu já estive lá
Pois seja bem vinda
Bem vinda à vida
Já chega e já brinda
Pois isso é o melhor
Que se há de fazer
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