Quando ela chegou, eu já estava ali.
Não posso negar, sou da noite, já faz bem uns anos, sei do que estou falando. Todavia, estou ficando velho. Definitivamente, já sou o tio do rolê, a depender de alguns pontos de vista.
Mas eu estava ali.
Fazendo aquilo que não fazia: fumando um cigarro, apoiado na borda do deck, tão charmoso quando achei que um dia poderia ser. No auge do romantismo da juventude, achava sexy e blasé estar fumando um cigarro na varanda. Hoje, só consigo imaginar as pessoas pensando: argh!
Anyway.
Eu estava ali na varanda e ela chegou.
Loira, alta, um vestido verde longo e solto cobrindo o corpo inteiro, porém valorizando o decote. Um colo grande e bonito de mãe, embora eu tenha olhado rápida e discretamente. Não quis invadir seu espaço já que, ao caminhar pela calçada, me olhou nos olhos e assim fixamos. Alguns segundos presos no olhar e a moça de vestido já sabia que o cara de chapéu estava presente.
Entrou e sentou.
Arrogante que sou, nem me movi, então o fato de ela sentar em uma mesa bem próxima de onde eu estava poderia ser uma simples coincidência. Ou não. Prefiro não me garantir, então segui de costas.
A noite foi se acelerando e de repente, a vi de novo.
Desta vez, sentada em outra mesa, com um cara do outro lado. O descreveria como um rapaz ou um homem, mas nenhuma das categorias se aplica. Muito velho pra ser um rapaz. Cara de moleque imaturo pra ser chamado de homem.
E ela ali.
Reparei.
Aparentemente, um encontro de tinder.
Ela não era bonita, devo dizer. Mas não era exatamente feia. Uma mulher é uma mulher. E toda mulher é bonita, só é preciso olhar direito. Enquanto o cara, por Deus...independente da minha orientação, definitivamente, não era bonito. Nem tanto pela fisionomia, mas carregava uma expressão...digamos...pesada. Uma cara prepotente como se estivesse fazendo um favor para a moça que, ainda que cansada da rotina da semana, tratou-se de vestir algo sexy e maquiar-se, arrumar os cabelos, fazer o melhor que desse.
Me permiti acompanhar, olhando pelo vão da minha roda de amigos, que discutiam poemas e influências literárias.
Que cara enjoado.
Podia ver sua cara mas não a dela. E percebi a reprovação, o desprezo...pensei: qual é a dele? Poxa vida...
E eu...eu só pensava no decote. Que embora estivesse de costas para mim, o cidadão com síndrome de top model sequer olhava. Ela deve ter se planejado muito com esse vestido. Devia estar se sentindo desperdiçando todo o esforço e desconforto. Dada a temperatura, um moletom de academia teria sido tão mais confortável.
A noite avança...
Resolvi observar a conversa, já que adoro essa coisa de laboratório. E não deu outra: mais um padrão se repetia e, depois de tantos anos, a gente já sabe ver.
Uma moça carente, necessitando autoafirmação, segurança, alguma elevação na autoestima, marcando um encontro com um cara escroto que, por alguma razão, carrega a autoestima hétero e pediu um hambúrguer gigante. Ela de fato sabia que, após aquele lanche, não haveria a menor possibilidade de ser comida direito, forte, como gostaria. No máximo, alguns beijos com gosto de molho de alho.
E ele, por Deus. Não conheço o Brad Pitt, mas imagino que esse seria o comportamento de Tyler Durden de mau humor. Feio de ver.
No fim das contas, o show começou. A música era boa, mas não do gosto do moreno, que levantou e ameaçou partir. A loira foi atrás, como quem devia alguma coisa. Só ali já deu pra imaginar tanta coisa.
A noite continua com seus mistérios. A diferença é que, menos romântico do que em qualquer momento da vida, agora eu sei: essa noite será desastrosa.
Para ela e para ele. Exceto para mim.
A varanda e a música me esperam.
O céu estrelado também.
E a esperança de um dia ser capaz de ir em frente.
No matter what.
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