quarta-feira, 22 de março de 2023

Life is pointless.

Quando ela chegou, eu já estava ali.

Não posso negar, sou da noite, já faz bem uns anos, sei do que estou falando. Todavia, estou ficando velho. Definitivamente, já sou o tio do rolê, a depender de alguns pontos de vista.

Mas eu estava ali.

Fazendo aquilo que não fazia: fumando um cigarro, apoiado na borda do deck, tão charmoso quando achei que um dia poderia ser. No auge do romantismo da juventude, achava sexy e blasé estar fumando um cigarro na varanda. Hoje, só consigo imaginar as pessoas pensando: argh!

Anyway.

Eu estava ali na varanda e ela chegou. 

Loira, alta, um vestido verde longo e solto cobrindo o corpo inteiro, porém valorizando o decote. Um colo grande e bonito de mãe, embora eu tenha olhado rápida e discretamente. Não quis invadir seu espaço já que, ao caminhar pela calçada, me olhou nos olhos e assim fixamos. Alguns segundos presos no olhar e a moça de vestido já sabia que o cara de chapéu estava presente.

Entrou e sentou. 

Arrogante que sou, nem me movi, então o fato de ela sentar em uma mesa bem próxima de onde eu estava poderia ser uma simples coincidência. Ou não. Prefiro não me garantir, então segui de costas.

A noite foi se acelerando e de repente, a vi de novo. 

Desta vez, sentada em outra mesa, com um cara do outro lado. O descreveria como um rapaz ou um homem, mas nenhuma das categorias se aplica. Muito velho pra ser um rapaz. Cara de moleque imaturo pra ser chamado de homem. 

E ela ali.

Reparei. 

Aparentemente, um encontro de tinder. 

Ela não era bonita, devo dizer. Mas não era exatamente feia. Uma mulher é uma mulher. E toda mulher é bonita, só é preciso olhar direito. Enquanto o cara, por Deus...independente da minha orientação, definitivamente, não era bonito. Nem tanto pela fisionomia, mas carregava uma expressão...digamos...pesada. Uma cara prepotente como se estivesse fazendo um favor para a moça que, ainda que cansada da rotina da semana, tratou-se de vestir algo sexy e maquiar-se, arrumar os cabelos, fazer o melhor que desse. 

Me permiti acompanhar, olhando pelo vão da minha roda de amigos, que discutiam poemas e influências literárias. 

Que cara enjoado. 

Podia ver sua cara mas não a dela. E percebi a reprovação, o desprezo...pensei: qual é a dele? Poxa vida... 

E eu...eu só pensava no decote. Que embora estivesse de costas para mim, o cidadão com síndrome de top model sequer olhava. Ela deve ter se planejado muito com esse vestido. Devia estar se sentindo desperdiçando todo o esforço e desconforto. Dada a temperatura, um moletom de academia teria sido tão mais confortável.

A noite avança...

Resolvi observar a conversa, já que adoro essa coisa de laboratório. E não deu outra: mais um padrão se repetia e, depois de tantos anos, a gente já sabe ver. 

Uma moça carente, necessitando autoafirmação, segurança, alguma elevação na autoestima, marcando um encontro com um cara escroto que, por alguma razão, carrega a autoestima hétero e pediu um hambúrguer gigante. Ela de fato sabia que, após aquele lanche, não haveria a menor possibilidade de ser comida direito, forte, como gostaria. No máximo, alguns beijos com gosto de molho de alho.

E ele, por Deus. Não conheço o Brad Pitt, mas imagino que esse seria o comportamento de Tyler Durden de mau humor. Feio de ver.

No fim das contas, o show começou. A música era boa, mas não do gosto do moreno, que levantou e ameaçou partir. A loira foi atrás, como quem devia alguma coisa. Só ali já deu pra imaginar tanta coisa.

A noite continua com seus mistérios. A diferença é que, menos romântico do que em qualquer momento da vida, agora eu sei: essa noite será desastrosa. 

Para ela e para ele. Exceto para mim.

A varanda e a música me esperam. 

O céu estrelado também. 

E a esperança de um dia ser capaz de ir em frente. 

No matter what.

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