segunda-feira, 10 de outubro de 2022

À queima roupa

Me reconheço e dói
Não me conheço, e sofro
Choro e tremo, 
Choro e bebo
Choro mesmo
Com motivo.

Fantasmas que um dia temi
Que lutei, me cortei, 
Que pensei que venci
Ainda seguem comigo
Ainda seguem aqui

Percebo-me e, sim
Conheço-me novo
Havia um tapete
Talvez um capacho
Feito um Maracanã 
Pra eu varrer a meu bel prazer

E eu varri. 
Sem medir.
Sem pensar.
Mas o que esperar 
da indescritível certeza da alma jovem e imatura, 
afinal?

Não há mais outro jeito de viver
Senão arrancá-los a força
Verdades à queima roupa
Palavras à sangue frio
No fundo dos seus olhos.

Imito Pessoa, o poeta
Dispo-me das roupas velhas
Parece mais uma pele
Sinto rasgar-me o peito
Jobim me trouxe um presente
Me deu finalmente a cura.

Veio a lua cheia então, e vi
Sempre a amei, sequer a conheci
Também, como poderia?
Se o céu era logo ali
Faltava-me a mim, apenas
Olhos feitos pra enxergar

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