domingo, 12 de janeiro de 2020

Resquícios

Mesmo com o barulho da chuva na janela de metal e o clima fresco, não teve jeito de pregar o olho naquela madrugada.

Levantei, acendi um ou dois abajures e caminhei pelo corredor rumo à cozinha. Parei naquele pedaço de cômodo que chamam de ante-sala e coloquei o single do Life on Mars na vitrola. Já que não ia dormir, ao menos me permiti sentir um pouco do que sentiam em 1971. 

Encontrei um refresco qualquer na geladeira e, em vez de voltar para o quarto e seguir olhando para os finos feixes de luz em meio ao som das gotas finas madrugada a fora, sentei-me na velha máquina de escrever. 

Olhei calmamente para a organização da minha mesinha e, enquanto respirava fundo e acendia um incenso, lembrava com carinho e uma tristeza estranha, do tempo que costumava escrever tanto sobre paixões. De todas as paixões que inventei só pra poder escrever. Daquelas que inventaram de ser minha paixão e, meu Deus, como pude escrever pra elas. 

Desde os poemas mais viscerais até as mais sarcásticas crônicas, dos trocadilhos e brincadeiras mais divertidos aos, tão puramente, orgásticos contos. Reais ou não, só cabe realmente aos que um dia os lerem. 

Talvez no fundo eu saiba que isso não acabou. Que a fonte não secou e nem há de secar. 

Mas hoje, sinto um certo vazio ao redor e, principalmente, no interior de mim, que o Bowie até acabou de cantar e foi consumir seus favoritos no camarim ao lado, e eu ainda estou aqui, na mesma posição: sentado na cadeira confortável, de pernas cruzadas, respirando fundo e contemplando este imenso nada pesando sobre meus ombros e me impedindo até de, veja só, colocar a folha. 

Penso então naqueles que costumava ler, lembro-me da inspiração para os momentos de branquidão mental. Já fui bom em tirar leite de pedra, de fato.

Porém, hoje depois de alguns anos, acho que fiquei bom também em uma outra coisa: respeitar os meus limites. E talvez essa chuva esteja querendo dizer muito mais para mim do que eu quero, de fato, dizer para a folha.

Tem horas que é melhor não dizer nada.

Na maioria das vezes, inclusive.

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