terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Abril de 2017

Me lembro como se fosse hoje, daquela noite que não teve fim, daquele dia que começou e só acabou dois dias depois.
Vou preferir me abster apenas à parte em que tudo começou para mim, já que não faz mais sentido misturar as coisas. Se o passado já passou, Zé Ramalho nos ensinou: conte pras amigas que tudo foi mal.

Pois tudo foi, de fato, muito mal.

Desci as escadas correndo. Quase não acreditando.
A mala nas mãos que eu não podia arrastar, mas que, pesada que estava, maltratou meus braços - os dois - me trazendo o quase alívio ao chegar no térreo, o chão.
Abri a porta sem pensar,
Lá fora? Neve. Com 10 abaixo de zero. Tudo branco pelo chão e com a neve caindo sem cessar.
Segui em frente pois àquela altura já sabia o caminho.
Confesso, não foi fácil.
Atravessei aquela praça toda branquinha e bonita com a maior das dores no coração. Mal sabia eu - agora que escrevo quase três anos depois - o quanto ainda iria vir a sofrer. Porém, pra mim, aquela era a pior dor do mundo.
Não foi. Mas essa é outra conversa.

Cheguei com certo esforço na estação e entrei. Ainda tinha algum crédito no cartão do metrô então apenas entrei rumo à estação central. Me lembro vagamente de ter parado frente à catraca antes de entrar e ter olhado meu telefone celular por um último momento esperando por algum sinal de vida. Sem sucesso.

Desci.

Entrei no metrô e estacionei a mala entre um dos bancos que sentei. Não havia ninguém sendo mais de uma da manhã, por isso sem preocupações.
Cheguei à centralstation e subi os diversos lances de escada que me levariam para qualquer lugar. Ao chegar na cabine, perguntei: como faço pra ir até o aeroporto?
 - Suba aquela escada à esquerda e, logo à esquerda haverá o ponto de ônibus. Pegue o ônibus 57 rumo ao aeroporto.
Anotou no papel: 57. Nunca vou me esquecer. Obedeci.
Subi as escadas como quem foge da cruz - de fato, era o que era - e, ao chegar no nível da rua, olhei pra esquerda e lá estava. O cinquenta e sete chegando e encostando.

Subi no ônibus e então segui.

(neste momento que escrevo, começa a tocar uma música local, três anos depois. It must have been love...but it's over now)

Liguei para minha mãe. Chorando. Choro agora ao escrever enquanto lembro do quanto me doeu contar que estava sofrendo e que não sabia o que fazer. Logo eu, que sempre achei que sabia de tudo. Que saudade de ser jovem, do tempo em que sabia de tudo.

Ao chegar no aeroporto, ainda estava cedo. Me lembro que cheguei antes das duas, tal rápido e eficaz é o serviço. Ainda que o aeroporto só abrisse mesmo depois das cinco. A noite seria longa.

Tomei o café mais caro e mais forte da minha vida. Uma porrada no peito. Um tiro.
Ainda se tivesse bebido...

Após as cinco e pouco, comprei uma passagem a um preço absurdo rumo ao Brasil. No próximo vôo, às 6h30, CET.

Corri para o portão de embarque, tirei meu celular do silencioso e fiquei naquela fila, não tão grande, esperando o mesmo vibrar, segundo a segundo.

Nada.

Segui em frente e passei pela segurança. Que bom que não ofereço qualquer risco.

Sinceramente, não me lembro muito bem do primeiro vôo. Não sei porque. Talvez por já conhecer Amsterdã, sabia que não seria um grande problema, então apenas segui. Me lembro de ter visto a cidade de cima, pela manhã, e de ter achado maravilhoso. Ainda não tinha a visto dessa forma.

Atravessei o aeroporto na velocidade da luz. Parei em frente a uma máquina, dessas de refrigerante, próxima ao portão de embarque. Comprei algo pra beber que não me lembro bem.

Atendi o telefone e era ela. A única razão pra eu ter fugido de um país pela primeira vez:
 - Meu Deus! Cadê você?
 - Você me mandou embora e eu fui
 - Recebi uma mensagem. Você está em Amsterdã. Por favor, volta pra cá
 - Não posso, não sou bem vindo aí, você não me quer mais
 - Por favor, volta, ainda dá tempo
 - ...

Já era quase a hora do embarque. Então, embarquei.

Entrei no avião rumo a São Paulo. Sentei na terceira poltrona ao lado de um casal. Cujo qual não me lembro do rosto, infelizmente.

Foi só o avião subir, que eu desabei. Comecei a chorar compulsiva e desesperadamente.
Chorava de soluçar.
Tentei colocar os filmes, tentei colocar uma música, escrever no celular, jogar joguinhos, encostar no banco e engolir o choro, meditar.
Impossível.
E o casal, coitado, sem intimidade, não sabiam o que fazer para tentar me acalmar.

Assim, foram 11 horas.
ONZE.
Não dei conta de comer. De beber. De aproveitar nada do que o voo me oferecia.
Mas chorar, eu garanto, chorei bem.

Por, talvez dez, das 11 horas do voo.

Desci, então, no meu país, e sabia que estaria sozinho. E assim foi. Taxi, ônibus, tudo. Sozinho.

Se eu soubesse que tudo iria se desenrolar desta maneira, ah, quanta coisa não faria diferente.

O resto, ainda conto uma outra hora...a dor de agora vinha até aqui.

E será que é pouca?

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