quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Pena [2]

De repente, lembrei daquele dia...
E agora, que a brisa finalmente parece estar passando...definitivamente...profunda e conscientemente...*
Era a mais bela cidade. A mais bela que eu já vi, nem mesmo nas fotos que, um dia, poderão superar. - talvez até por isso minha atual ânsia de ir ver o mundo, quase como uma tentativa de provar pra mim mesmo que há, SIM, coisas incríveis cujas quais nem faço a menor ideia.
Pois bem.
Aquele era um dos primeiros dias de primavera após o famoso - até então, desconhecido - longo e tenebroso inverno. Caramba, como foi difícil superar todos aqueles dias de temperaturas negativas, céu escuro por dias e uma terrível luta contra si mesmo.
Mas aquele dia...ah, aquele dia. Estava lindo demais!
Um céu azul, não de brigadeiro, mas com traços de nuvens feito pintura espalhados pela tela azul. A temperatura quase que ainda era negativa, eu diria dois ou três graus positivos, se pensasse hoje. Não me lembro bem.
Estávamos eu e ela, aproximadamente à uma da tarde, ali sentados, naquela praça. Um sol nada ardido no céu, amarelo claríssimo e que não esquentava de jeito nenhum.
Era uma praça tão bonita, no centro da cidade velha, onde velhinhos sentavam nos bancos, just as we did, e jovens andavam ao passo que faziam manobras com seus skates na parte mais baixa. Havia todas as árvores que ainda haveriam de florescer e de ficar lindas mas, só por esses dias, ainda estavam secas e apáticas como foi todo aquele inverno.
Em nosso banco, os dois, sentados, apenas com os braços entrelaçados. Você me dava seu braço direito e eu enroscava o meu esquerdo, enquanto o meu direito vinha e segurava o seu, apenas pra dar mais firmeza, pra reforçar o que já sabíamos ser real.
Estar ao ar livre depois de tantos e tantos dias, mesmo com um ar frio e todas as nossas blusas, de fato, não parecia tão ruim. Pessoas andavam pelas ruas e também passavam com seus patinetes elétricos, tendência na época. Olhávamos com carinho.
Enquanto eu pensava em como seria bom ter aquilo para o resto da vida, ela apenas pensava no seu próprio filho, adolescente como os skatistas, que estava longe. Enquanto eu vislumbrava uma maneira minimamente dolorosa de dizer que aquilo era o que eu queria para o resto da minha vida, ela apenas pensava que, daqui a pouco, deveria ligar para seu filho e garantir que o mesmo não fizesse nenhuma besteira ao sair da escola. Eu ali. Ela lá. Sempre lá.
Estava tão bonito aquele sol sobre nosso casaco. Aquela luz por entre as árvores tentando fingir que nos aquecia e a gente só pensando tão, tão diferente.
Uma pena.
No fim, deu fome, e resolvemos comer. E essa parte foi tão ruim, que não vou escrever pra não quebrar o clima do meu próprio romance.
Andar por aquelas ruas sempre foi tão incrível, que às vezes nem acredito, que tudo foi como foi. Poxa vida, mas que pena. E isso é só o que posso dizer, já que muitas vezes, infelizmente, a vida parece não ter conserto.

*no fim, só achei que estaria passando. Continuo com lágrimas no rosto, pela tristeza das coisas que não têm solução.


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