Era tipo oito da manhã. Algumas travestis dormiam na mesa. Alguns caras xingavam alguns desafetos e estavam na iminência de começar a terceira guerra mundial.
E aí aconteceu a revelação.
A tv do boteco tava ligada. Duas apresentadoras em um programa jornalístico matinal. E elas eram lindas e estavam bem vestidas e maquiadas. E eu fiquei me perguntando: Como assim, porra? A essa hora da manhã? Que hora essas mulheres lindas foram dormir para estarem a essa hora da manhã apresentando impecáveis essa porra de jornal, falando sobre trânsito, sobre Previdência social e sobre previsão meteorológica? Que tipo de vida elas levam? Quem são os maridos delas? Quem são os namorados delas? Que horas elas trepam com eles? Às oito da noite?
Fiquei pensando que as pessoas levam vidas muito corretas e que talvez elas sejam felizes levando vidas assim. Fiquei pensando que o errado sou eu que levo essa vida torta e talvez por isso escreva sempre esses textos melancólicos desprovidos de esperança.
Essas pessoas não pensam como eu, não escrevem como eu, não sentem as coisas da maneira que sinto. E fiquei pensando que eles é que estão certos. Não, eu jamais pensaria que eles estão errados. Eu sempre achei que o errado era eu. E hoje tive a certeza disso olhando para aquelas duas apresentadoras lindas e impecáveis.
Não há nada que eu possa fazer. Não há nada que eu queira mudar. Talvez eu tenha sorte de levar essa vida torta. Ou talvez não. Talvez eu esteja mesmo desgraçado. O que eu entendi é que cada um deve levar a vida do jeito que é possível, do jeito que ela nos é presenteada. Ninguém está certo ou errado. Você só tem que escolher de que lado da estrada quer ficar.
Eu já escolhi há muito tempo.
Não é o melhor lugar. É só onde eu posso ficar. Onde consigo me sentir bem vindo. Onde ainda posso escrever a minha história sem que algum merda de revisor venha adulterar as minhas falas aparentemente sem sentido.
E fui dormir tranquilo.
Assim como aquelas duas lindas apresentadoras que já devem ter chegado em casa a essa hora. E devem ir dormir às 10 da noite para estarem previsivelmente impecáveis às 6 da manhã de amanhã nos informando sobre o trânsito, sobre previdência social, ataques terroristas e previsões meteorológicas.
Em algum momento todos iremos descansar. Por alguns minutos, algumas horas ou de uma vez por todas. Vamos só aproveitar o tempo antes que o tempo acabe com todos nós.
E ele vai acabar.
Mais cedo ou mais tarde.
Só isso é certo.
Texto de Mário Bortolotto, outro daqueles já escritos tantas vezes na cabeça. Todos os direitos reservados ao autor.
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