As vezes a gente simplesmente vibra em uma frequência diferente daquela de sempre.
E é quando acontece.
É neste tipo de noite que todas memórias ruins misteriosamente desaparecem.
Como num passe de mágica, tudo aquilo que machucou, que feriu, que doeu, que humilhou, que arrancou a pele, o couro, o tempo, a vida...simplesmente some e nem que a gente busque, vai para um lugar que sequer sabemos onde é.
Pois bem, e o que é que fica?
Ficam as coisas lindas, sim. Martelando, dando voltas e voltas nos pensamentos, populando e marcando presença de maneira eficaz. Covarde, eu diria.
Já hoje, lembrei dos passeios por aquela avenida.
Lembrei da neve.
Do horário do trem. Exato, como sempre.
Lembrei de umas comidas boas que a gente encontrou entre tanta coisa esquisita que a gente tinha que comer (das quais, por sinal, nem me lembro)
Os olhos enchem-se de lágrimas, o nariz entope, a vista fica molhada e turva e mesmo assim sequer paro de bater na velha máquina.
Pensei em escrever no papel mas sabia a bagunça que iria ser quando tudo isso ficasse assim, molhado, como já está a mesa.
A cabeça insiste em me trucidar.
Trazendo de imediato tantos momentos bonitos, de sorriso e de promessas tão profundas e, até então, sinceras.
Só eu sei o que eu prometi.
Eu não sei porque não deixo finalmente você ir embora da minha cabeça. Eu sei que no fundo, racionalmente, eu não te quero mais. Então porque insisto em pensar dessa maneira? Porque não consigo resgatar com a mesma facilidade tudo o que me fez sofrer e finalmente esquecer. Seguir em frente, não é o que dizem?
Por que é que ainda estou a ouvir essas músicas?
Parece que chegou aquela hora que eu temia, depois de alguns longos meses da partida, em que eu iria padecer.
Apesar que, pensando bem, houve outro dia em que chorava como hoje, em prantos rolando na cama, enquanto você me manipulava e me fazia sofrer sem o menor pudor.
Que coisa horrível que é, num estalo, resgatar isso.
As lágrimas secaram, meu Deus.
Já estive aqui outras vezes. Ou pelo menos penso que sim. Que já conheço o passo a passo, a ordem das coisas, os próximos capítulos.
Não consigo, de fato, discernir, se o que vem depois é o que eu penso que vem depois.
É um estranho sofrer por não sofrer.
Quase morrer por não sentir aquela vontade de morrer.
Dói porque não há razão para sentir dor.
Ai, se pelo menos, doesse...
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