terça-feira, 22 de outubro de 2019

Califórnia

"Senhoras e senhores,  são onze e quarenta e cinco da manhã e a temperatura local é de 89 graus Farenheit. Foi um prazer voar com vocês até aqui. Sejam bem vindos à Califórnia".

Saí do avião ligeiramente extasiado. Quase não acreditava que ali estava após tantos anos, vendo aquele céu azulzinho e as cores tão límpidas de todas as coisas. Os painéis de vidro permitiam que entrassem os raios de sol e as grandes portas entreabertas me traziam o vento. Aquela brisa anunciava o que estava por vir.

Não sabia se ela já teria chegado e por isso procurei manter a calma. As mãos suando e as pernas ligeiramente bambas dificultavam meu trabalho. Com algum esforço arrastava a mala ao mesmo tempo em que segurava a rosa que resistiu a tudo. Desta vez, eu não a esqueci.

Retirei então do bolso o bilhete, que havia escrito rapidamente, com o endereço daquele restaurante que ela tanto gostava. Era pra lá que eu deveria ir, sem pestanejar.

E é claro que eu fui.

As ruas da cidade me traziam boas lembranças misturadas com certa curiosidade. Uma curiosidade adolescente, bonita e sem ressalvas. Como ela estaria depois de todos esses anos? Me lembrei que, por alguns anos, ainda trocávamos cartas com mensagens boas e, vez em quando, algumas fotos. Depois de tudo o que aconteceu, precisava encontrar um jeito de dizer a ela, de explicar, que suas cartas foram furtadas, perdidas, incineradas, sem mesmo terem me dado a chance de lê-las. A dor era, sim, aterrorizante.

Ainda sim, inexplicavelmente, sabia que ela estaria lá. Era quinta-feira, era o fim do verão, era seu lugar e sua vista preferida. O que poderia dar errado?

Eis que o taxista gente boa me contou, entre histórias incríveis, que esse endereço costumava ser muito popular cinco ou dez anos atrás. E entre prestar a atenção na emoção das suas palavras e tentar imaginar o rosto dela, chegamos ali. Era um prédio daqueles com visual antigo, como dos filmes, fazendo meu coração bater aqui na garganta.

Paguei com calma, agradeci. É bom quando a vida está a favor.

Ao subir, tentei não fazer alarde, queria que fosse uma surpresa boa. Entrei pelo saguão e já avistei seus cabelos, o castanho com o loiro trazia uma combinação que sempre lhe foi única. Parei por alguns minutos, já havia sentido que era ela. E se ainda somos quem somos, logo ela iria - de alguma maneira, que nunca soubemos explicar - perceber que eu estava no mesmo ambiente. Uma energia incrível nos conectava.

Então tratei de me esconder atrás de um dos pilares no canto do balcão. Chamei o garçom:
 - Por favor, você pode entregar esta flor para aquela mulher sentada ali?
 - Desculpe senhor, não fazemos isso aqui.
 - Por favor, é uma ocasião especial, não vai haver qualquer confusão!
 - Er...ok. Por favor mantenha tudo calmo por aqui, este é um lugar de respeito

Ainda que de costas, era como se pudesse ver sua expressão de surpresa, o sorriso imediato, logo contido pela timidez. Ela estava ali. Era ela. Que ao esticar o braço para receber a rosa, mostrou-me os singelos movimentos que ainda reconheceria a tantos metros de distância, imagine então assim, tão de pertinho.

A partir dali, tentei conter a ansiedade daquele abraço enquanto a acompanhava, virando para lá e para cá, procurando as possibilidades. De onde teria vindo essa flor?
O restaurante não estava lotado mas era impossível distinguir quem de fato seria o admirador.
Não aguentei muito tempo, confesso. Não podia mais segurar.

Fui até sua mesa e apenas parei. Sua cabeça abaixada e o olhar fixo nas linhas do seu livro, enquanto segurava com a outra mão a rosa bem perto do rosto, sentindo seu cheiro, a impediram de me olhar diretamente. Então pude fitar seu rosto por alguns segundos, que para mim, duraram uma vida inteira, me fizeram memorizar essa imagem e guardá-la para sempre.

Quando, então, levantou a cabeça e pôde me encarar, olhos nos olhos, é que o mundo passou a fazer sentido, finalmente.

A vida acontece o tempo todo. E a gente se encontra é nos intervalos.


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