terça-feira, 21 de setembro de 2021

Pare, olhe, escute

O tempo segue se esvaindo, correndo pelos dedos e descendo pelo ralo. Etiquetas agora controlam a minha vida, e tudo - será que tudo? - tem validade. Não dou conta de olhar o relógio, perdi o controle faz muito tempo. Deixo as palavras saírem entre um café gostoso que passei e o tempo do próximo apitar, desta vez não do trem, mas da reunião. Online. Aliás, a única coisa que me impede de ter um surto por completo, que é lembrar do trabalho, do esforço e da recompensa. Dos objetos de decoração que mais gosto, ali está a ampulheta. Tão charmosa e fina que até esqueci que só serve mesmo para isso: medir o tempo. Que se esvai e, quando percebo, tenho que comer aquele queijo. Mesmo sem fome. Nem era isso que eu queria comer hoje. Apesar, que, não ando com muito espaço na agenda pra comer, por que me daria ao luxo? O rádio me diz que não é tarde demais, mas não são nem sete e eu já sinto o peso do mundo sobre as minhas costas. E me lembro que fui feito de sangue, suor e lágrimas. Ora, que mais posso esperar do que viver trabalhando? Talvez morrer trabalhando seja um destino certo. Quem sabe em cima de um palco, sorrindo e cantando, em vez de exercitando a paciência dia após dia, hora após hora. E quem sabe todos os amores que o mundo me deu estejam mesmo dentro daquele coração, concentrados num só. Já o meu, de tanto apanhar, não sabe mais identificar. Cansa lutar contra os demônios a noite e depois acordar às cinco. Não deveria fazer isso todo dia, contudo, o objetivo por fim se confundiu tantas vezes que agora meus olhos são sequer capazes de reconhecê-lo. Ligo o piloto automático, aliás liguei, há alguns meses. É só essa ladeira que não tem fim e que, ainda, me dá a impressão de que dará na beira dos trilhos. Ao som de Marvin Gaye ou Sandra de Sá, me fazendo um último pedido, que é pro trem não passar por cima de mim de uma vez. Talvez eu é que seja o trem, e se for o caso, definitivamente é o meu ídolo Denzel na locomotiva. Sigo o som das batidas, do coração e das teclas do piano. Chegou a hora.

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