Sinto falta da vida do artista
Porque era uma vida doída
E quando dói, para o artista, é que é bom
Se é que nunca te disseram
Posso fazer-te as honras:
Não há magnífica obra que conheças
Que não tenha sido escrita, pensada, criada
Em meio a grandes e tenebrosas turbulências
E eu sinto falta
Porque quando doía [e olha que doía pra caramba]
Me sentia vivo e profundo
E complexo
Tudo, na verdade, era muito complexo
Emaranhado, ilógico, e homeopaticamente enigmático
De modo que, no final
Não dava pra ninguém
[afinal, quem aguentava?]
Hoje penso: Dá pra mim?
Já que a vida é tão gostosa e confortável
Longe de sofrimento e dor
Tá, longe seja, talvez, exagero
Numa distância segura, eu diria
De um jeito que não inspira
Só e simplesmente só
Por ser simples
O que será que a idade tem, de fato, a ver com isso
Questiono, ainda, sim
Mas, desta vez, de um jeito que posso degustar
Em doses pequenas e sadias
Pílulas, cápsulas, drágeas
Pura arte em conta-gotas
Sentimentos em ampolas
Até quando Deus
[ou Baco, ou Dionísio, ou Cazuza]
Quiser.
Nenhum comentário:
Postar um comentário