Me lembro como se fosse hoje, inclusive com clareza de detalhes, daquele dia que, certamente, não aconteceu em tempos de pandemia.
Me lembro dela.
Como sempre, cheguei primeiro. Jamais me daria ao luxo de perder um só segundo do momento, muito menos por pura displicência, imagine. Prefiro ganhar na absurda insistência do que entregar os pontos para o atraso das empresas de transporte.
Quando vi seu ônibus fazendo a curva, lá embaixo, na esquina, quase nem acreditei. O corpo gelou, garganta fechou, coração acelerou.
Na hora.
Uma escola de samba inteira no meu peito. Como é possível? Em uma daquelas cinquenta poltronas ela estaria e, de alguma forma, eu não podia lidar muito bem com isso.
Eis que o motorista encosta na plataforma e eu, que até então fingia naturalidade, não aguentei. Levantei e fui logo pra perto esperá-la descer aqueles degraus que, já há certo tempo antes, eu havia profetizado que me fariam perder o ar e, eventualmente, a dignidade.
Força da expressão? Dito e feito.
Ela desceu e eu fiquei em choque. Travei. (Coisas que só uma rodoviária faz por você, pensei). Não deu nem pra decorar o nome escrito no ônibus, pra agradecer.
Ela era pequena. Menor do que eu havia imaginado, o que me fazia ainda maior do que ela poderia desejar. Sua meia calça trazia tudo o que precisava guardar entre a bota e o shorts jeans, um pouco rasgado, além da jaquetinha e do cabelo nem-preso-nem-solto que sempre me alimentou tantos tipos de pensamento.
Só deu mesmo pra tentar fazer a minha melhor pose, que em alguns instantes foi por água abaixo. Já estava entregue, vidrado. Babando.
De repente ela veio em minha direção e, como num filme, corta.
Já estávamos ali, frente a frente. Olho no olho. Respirando um único ar.
Congelamos.
Seus olhos bonitos e brilhantes encontraram os meus pequenos e atentos à forma como os dela tremiam ligeiramente. Sentia o corpo inteiro tremer e já nem tentava mais disfarçar. Ela sorriu, eu sorri. Sorríamos, bobos, porém não hesitamos, e aconteceu.
Aquele foi o abraço mais intenso e profundo que eu nunca dei.
E ali ficamos, por minutos, sem falar uma só palavra.
Abraçados. Grudados. Ligados. Finalmente!
Cena de novela, mesmo.
Enquanto todos os transeuntes e passageiros com suas malas, maletas e bolsas, passavam ao redor do nosso abraço, o som das rodinhas se arrastando pelo piso, também o som das conversas, dos nomes de filhos gritados pelas mães da América latina, e da voz aleatória nos auto-falantes anunciando as próximas chegadas e partidas...tudo isso, simplesmente silenciou, entrou no mudo.
Ainda nos apertávamos bem forte e nos mantínhamos encaixados ali, em pé. Meus braços longos envolviam suas costas e cintura, e seu corpo se aconchegava no meu peito. Trocávamos nossos perfumes como se troca de corpo, e sentíamos duas almas dançando naquele silêncio.
Era ela e só.
No dia em que tudo mudou.
O dia que não nos disse quando seria, quando foi, ou quando vai ser.
Um dia.
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