Sempre foi muito mais difícil lidar com a fragilidade das pessoas do que com o mau-caratismo. Talvez por um senso interno de justiça, de não conseguir aceitar ser humilhado, nem que outras pessoas sejam humilhadas...não sei. Nunca suportei ouvir as histórias onde pessoas foram enganadas, ludibriadas, feitas de trouxa. Era de embrulhar o estômago. Tomo as dores. Pego ranço. Vou junto.
Em oposição a isso, o mau-caratismo sempre me pareceu muito mais honesto.
Explico.
Aquele vilão de novela, série ou filme, que a gente tem raiva, sobe o sangue, enche a boca pra gritar: canalha! A gente sabe que ele está por aí, e sabemos mais: estão aos montes. Em todos os lugares. A parte da honestidade à qual me referi é que, assim como na tela, certas vezes é fácil identificá-los. Você olha pr'aquele ou aquela e pensa: mas que grande filha da puta!
Essa gente sempre se safa, é impressionante.
Surreal.
O que me soa, definitivamente, imperdoável, é a migração. Normalmente do papel de trouxa, para o de mau-caráter. Coisa de personagem, mesmo.
O contrário também, porque a vida tem seus ciclos, mas esse é assunto para outra hora.
O coitadinho que sempre foi enganado, usado, feito de idiota...bem, não era tão coitadinho assim. O destino é implacável e, como diz a sabedoria popular, existem sempre três versões de uma mesma história. Entretanto, somente uma delas é a verdade.
A verdade é invencível.
E ela aparece. Você pode botar a culpa em quem quiser: nos astros, no karma, dívida de outras encarnações. Enquanto você não tiver um compromisso real com o que você é, honesto sobre quem já foi, e aberto para quem pode vir a ser...vai meter os pés pelas mãos.
A verdade é a verdade, e só ela é capaz de mostrar às outras duas versões da história quem são eles:
O trouxa e o mau caráter.
Não gosto de ser feito de trouxa, não nasci pra isso, sem a menor vocação. Mas tem uma coisa que eu gosto menos ainda: gente mau-caráter que se coloca como trouxa. A troco de conseguir credibilidade, porque é bem difícil pra quem cresceu num meio moralista como o nosso, virar e dizer: fui filha da puta sim, porque eu faço o que eu quero, e acabou.
Pra ser canalha é preciso, antes de tudo, saber assumir. Segurar o seu rojão. Vai dar merda, e quando der merda, você vai olhar e dizer: foda-se.
Perdoem-me o vocabulário chulo.
Se você me conta uma história onde foi feito ou feita de besta, olha...eu vou ficar bem puto, por você, e com o malfeitor. Porém, se eu descubro que no fundo você é só um canalha que não dá conta de resolver os seus dilemas...aí, eu lamento. Não muito, mas lamento.
Você está sozinho nessa.
Trouxa.
E mau-caráter.
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