segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Check

Quando você me colocou, ali, de frente à aquela mesa, mal pude decidir se estava impressionado ou incrédulo. 
Não era possível que você iria querer jogar, não de novo. Logo comigo? 
Das poucas vezes que parei pra pensar nisso, confesso, te imaginei chamando um, ou outro, para o tabuleiro. É o tipo de coisa do seu feitio, aprendi a entender.
Mas...por que eu? 
Estávamos naqueles segundos iniciais, antes do relógio começar, nos olhávamos no fundo dos olhos, eu te percebia a tentar ler quais seriam meus movimentos. Enquanto isso, não conseguia me questionar outra coisa além de onde, ou em qual ponto você estaria, na escala entre a estupidez e a ingenuidade. 
Travesti minha decepção em vulnerabilidade. O personagem faz toda a diferença, há quem diga. Então, começamos.
Joguei brancas. Com uma abertura clara e sem mistérios, procurei eliminar qualquer dúvida: não iria atacar. Ao menos, não de cara. Movia as peças lentamente, sempre acusando o próximo passo, um estilo que quem me conhece sabe que faço bem. Aos poucos, mapeei o tabuleiro todo, através das jogadas tímidas e pouco eficazes que tentavas.
Você não mudou nada. 
O que me deu, de novo, a dúvida, desta vez até com um pouco de irritação. Não treinaste nada, nada, e ainda me fizeste vir aqui perder o meu tempo? Bem, a escolha é minha, no fim das contas.
Logo, resolvi impor certa assertividade, e eliminar suas peças de proteção. Em algum momento você precisava perceber que eu, apesar de calmo, não estava pra brincadeira. Nunca estou. E foi aí que te vi correr por entre peões, bispos e torres, armando o cerco da rainha. 
Inútil, já que eu havia preparado todo o terreno. 
A partir de então, o tempo todo me culpava por ter entrado nessa. Mas já que estou aqui, agora é pra causar estrago. Eu gosto do estrago. E vou até o fim.
Avancei e dei de cara com Vossa Majestade, no auge de sua falsa proteção, para você e para quem mais quisesse ver - uma vez que já havia reparado: não éramos só nós dois ali naquela mesa. Você tinha backup e eu sei muito bem quem.

Cheque!

Percebi que você não ia desistir então te dei seu tempo. E logo vi você começar a hesitar e render-se ao nervosismo enquanto perdia suas peças mais importantes - de um jeito tão rápido, que nem percebeu! - e a meter os pés pelas mãos.
Usavas jogadas tão clichê, conhecidas por mim desde antes de você nascer, que aquele jogo já havia se tornado um circo. Como um gesto de espírito esportivo, te dei um ponto pela coragem. Tem que ter muita bola mesmo pra querer me desafiar numa dessas.
Enfim, relaxei. 
E você, bem...uma pena, Não tinhas mais para onde ou quem recorrer e, como sempre fez, tentou manipular o jogo, minar o cenário, colocar a culpa em mim - antes mesmo da partida acabar, veja só! - pela sua exposição. Ridícula e infantil. Permaneci, com batimentos já calmos, te observando esbravejar. 

Tarde demais, bebê.

Mate.

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