De repente as palavras vieram
Aquela ânsia de escrever
Não carrego meu caderno
Pensei, preciso trazer
Sentei bem perto da mesa
Essa varanda é daquelas com vidro
E o vidro está meio embaçado
Deve estar bem frio lá fora
Não como o frio lá do norte
Mas como o frio que conheço
Frio coração paulistano
E eu a olhar a avenida
Lá na frente a bifurcar
A estação na esquina
Penso no mapa, e me lembro
Coisa que eu gosto em São Paulo
É de me localizar
Não sei se um dia na vida
Ao longo desses anos e anos
Sequer sentei-me a anotar
Acho que não
Nunca, mesmo.
Aqueles anos, e anos
Naquele tempo esquisito
Tudo aqui era tão diferente
Eu era tão diferente, também
São Paulo hoje machuca
Muito, muito mais, do que antes
Talvez porque hoje eu que deixo
Talvez porque hoje eu sinto
Talvez porque hoje eu saiba
Que tudo o que eu achava
Tudo o que eu costumava pensar
Sobre o que era a selva
Era só um jovem amante
Nas mesmas avenidas de antes
Sempre ali a imaginar
Mas hoje a selva é real
Tudo em São Paulo é real
Ao contrário do que dizem
Tudo aqui é proposital
As luzes sincronizadas
As pessoas estressadas
As ruas cheias, madrugadas
As viaturas nas calçadas
Mesmo assim, tanto mudou.
A natureza noturna
Da minha dupla preferida
Já não é mais a mesma
Nem sequer as avenidas
Nem as famosas esquinas
Aquele olhar das meninas
Nada parece normal
Isso não quer dizer muito
Não tá pior, mas não mesmo!
Só que melhor, nem, tampouco
Ser noturno é diferente
Já não sei como lidar
São Paulo ainda me ama
Eu que, às vezes, desencanto
O que é pior que odiar
Nenhum comentário:
Postar um comentário