domingo, 8 de junho de 2025

Divã

Chorar no divã, por si só, é de fato algo ruim de lidar.

Ao chorarmos em casa, estamos blindados. 
Podemos berrar, espernear, deitar no chão, em posição fetal, e então
Só então
Permitirmos, abrir o bocão

No tapete da sala
Debaixo do chuveiro
Talvez no travesseiro
Viramos criança

O que nos faz chorar
Depois de soluçar
Perde sua posição
De primeiro lugar

A vergonha é se ver
E se ouvir, se entender
Ao chorar só pra si
Se quiseres parar, vais saber

Entretanto, eu bem sei
Olhando pra parede, no divã de alguém
Chorar de soluçar
[é normal, já devia saber, mas porém]
Dói bem mais
Dói de um jeito 
De tirar-nos do eixo
E nem teu analista trazendo algum lenço
Resolve a sua dor

Ao falar em voz alta
Ao falar e se ouvir
Ao verbalizar tudo aquilo que acha que sabe
Vemos nós, no divã, feito nus
Só que muito mais nus
Que uma roupa haverá de esconder

Ao se ouvir, e dali, perceber
O que foi, o que é, e talvez
Haveria de ser
Tudo aquilo em que a gente crê
Pelos dedos, se escapa, se vai
Dando espaço pr'aquilo que, hoje, é você
E ao chorar no divã, seu eu, cai

Pra voltar
Levantar
Bem melhor
Que alguns meses atrás.  


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