terça-feira, 4 de abril de 2023

Póstumas

Então desta vez, foi só isso mesmo que ficou, não foi?
Das cartas que enviei, a mais bonita, você fez como Adriana Calcanhoto sugeriu.
Das flores que mandei, cada pétala secou, sem dó nem misericórdia.
Guardamos para nós palavras duras, de raiva, de ciúme, e de paixão. Verdades tão difíceis de engolir, registro da maneira tão bruta e absurda que viemos a nos perder.
Perdemo-nos no tempo, nos planos, no passado e no futuro. Você se perdeu no personagem e eu me perdi em tuas quase-verdades. 
Restou então, em casa, algum detalhe. Já que tudo foi-se embora com a faxina, mas ainda existem doces movimentos irreparáveis entre o espelho da suíte e a gaveta do criado. 
Permitimos finalmente fechar as portas daquilo que para nós foi o céu e o inferno. Mas que no fim, deixamos voz apenas aos demônios, já que o paraíso estava tão bem guardado. Para quê, afinal, olhar para ele, não é mesmo?
Mostramos a nós mesmos incapazes. Desde o meu jeito algoz de descobrir tuas inverdades até a sua fúria em meu portão. Ferimo-nos de todas as maneiras: psico, emocional, e também física. Matamo-nos de tanto nos amarmos. Um furacão quebrando a tua arte, a minha porta, e finalmente a admiração.
Voltamos pro buraco que viemos. Deveríamos mesmo ter saído?
Da cama do hospital, em um breve piscar de olhos, então a pista de dança.
Desafiando o corpo e autodestruindo minh'alma. Despeço-me de ti e de todas as noites mal dormidas tentando encontrar sentido em teus mistérios.
Que por fim se mostraram mais um drama adolescente.
Um dia me disseram que eu passaria a gostar das mais novinhas. Só não achei que essa era tua cabeça.
Jamais assumirei minhas histórias. Segredos aqui guardados pra sempre, preservando a doçura do teu sorriso apaixonante e mágico, que só quem conheceu, eu sei, fui eu.
E já que quem te amou, mesmo, fui eu, permito-me aceitar tua sugestão. Parar de perder tempo, e sim, seguir. Deixar-te livre ao que te é compatível. 
Escrever tua história.
Sobrepô-la a esta nossa.
Faxinar o restante.
Porque é impossível superar o que jamais será superado. 
Nem apagar de novo o que já foi apagado.
Pouco a pouco do nosso viver.

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